AAL01
INF Estes chamam-se couves-montesinhas. INQ Diga? INF Couves-montesinhas. É o que eles chamam, aqui na nossa região, a isto é couves-montesinhas. Não sei se isto é em toda a parte, se o que é; mas o que eu tenho ouvido sempre falar ao meu pai, aos meus avós, a essa coisa, é couves-montesinhas, isto. INQ Sim senhor. INF E de forma que é capaz de ir aparecendo uma. Mas ah , olhe, aqui está outra também. Isto chama-se catarinas-queimadas. Isto é a erva que mata os coelhos. Se nós tivermos uma coelheira e que deite para lá umas ervas destas, os coelhos que comem isto morrem. É a única coisa que eu vejo (...) que faz mal aos coelhos é isto. INQ Que faça mal.
AAL02
INF Então, por exemplos, isto agora aqui, por exemplos, era uma terra que estava deserta, não é? A primeira coisa que a gente fazia nisto era agarrar numa máquina - agora, que dantes era tudo à mão do homem, não era? -; mas agarrar numa máquina e romper a terra, aí um metro de profundidade - está o senhor a compreender? -, um metro de profundidade. E Em depois, naquele ano, ficava assim. (...) Que era para ver se deitava mais algumas ervas bravas, algumas coisas para, sim, para a terra ficar mansa, por completamente irrompida, assim barrada, como lhe chamam, não é?... E de forma que, depois, quando era para o ano, aí ao São Miguel, ao São Miguel, aí (...) em Fevereiro, agora neste tempo, mais ou menos, Fevereiro, Março, é que ele ia outra máquina - outra máquina ou à mão - abria-se outra vala, tudo assim alinhado e plantava-se (...) o bacelo, como a gente lhe chama, o bacelo. O bacelo é (...) aquela, sim, (...) aquele coiso, aquela planta (...) que é brava, não é? É o produtor directo, como a gente lhe chama. Não é bem o produtor directo. É o americano. Chama-se-lhe americano. E de forma que depois aquilo é enxertado. Ao fim de dois anos (...) - algumas até dão enxertia logo naquele ano -, se elas agarrarem bem, quando é naquele ano, dão enxertias. E há também quem faça o seguinte: há (...) quem faça a coisa, enxerta (...) fora parte e põe já tudo já em manso. Também há quem faça essa coisa. Mas eu encontro que aquilo em bravo que é melhor porque fica mais arreigado (...) e a cepa dura mais tempo. Dura mais tempo porque fica logo mais... Sim, o bravo é mais resistente do que é o manso e aguenta-se mais com a sede. Aguenta-se mais com tudo. E depois, como a raiz é brava (...) e a cepa é mansa, está a compreender, assim é que é que dá mais resultado. Pelo menos, aqui, faz-se isso assim.
AAL03
INF Mas estas vinhas aqui nossas, como são muito antigas, não podem ser aramadas - está o senhor a compreender? Porque uma vinha aramada, põe-se-lhe aqui um pau... (...) Sim, por exemplos, há lá aquela ponta , põe um pau e ali outro e depois um arame. E estas varas grandes, em lugar de ficar enrolada, ficava assim estendida, atada num arame. (...) E daí dava, sim, (...) dava mais fruto produto , mais produção. Não dava! Dava a mesma produção! O que é que assim isto só tem um contra: é quando toma muito cacho, quando nascem muitos cachos, quando é que vem (...) o São Miguel, muito cedo, como a gente lhe chama, que a vindima é chuvosa, por vezes, os cachos apodrecem aqui muito. (...) Pois apodrecem, porque (...) ficam muito fechados, (...) aos montes, não é? E se estivesse aramada, era já doutra maneira. Isto é agora a táctica moderna, mas isto é uma vinha antiga, não é? Não se pode fazer doutra maneira. INQ Claro. Portanto, e aqui e aqui e aqui dá, cada um dá um cacho, é? INF Dois ou três, até. INQ Dois ou três. INF Dois ou três, até. Até pode dar quatro cachos. Cada um olho pode dar quatro cachos. Por exemplos, (...) , os cachos - chama-se-lhe a gente espigas -, quando é que (...) isto dá em crescer, em depois cada um olho já tem deitado duas espigas (...) e quatro, até. Às vezes, isto deita dois olhos e deitam quatro. É conforme a força das parreiras - não é? - e conforme a qualidade, também - a qualidade dos vedonhos. Por exemplos, (...) aquele vedonho ali, isto é doutra qualidade; isto é aqueles cachos que a gente lhe chama ceuta roxa - não sei se o senhor já tem ouvido falar -, INQ Não. INF aqueles cachos grossos, grandes e vermelhos, e aquilo são com uma pele muito maciinha; mas aquilo é já uva (...) para vinho. INQ Pois. INF Aquilo chama-se o arinto branco ou tinto. Aqui, na nossa coisa, é o arinto preto - aqui na nossa zona. INQ Arinto. INF (...) Há arinto preto e arinto branco. INQ Mas o vedonho é o quê? É outra marca, é outra casta? INF Não, o vedonho é outra casta. A gente, os vedonhos, chama-lhe vedonhos à qualidade das parreiras, (...) aqui no Alentejo. À qualidade das uvas é que a gente lhe chama vedonhos. Por exemplos, este é um vedonho, aquele é outro, assim como lhe a gente disse - não é? -, aqui. É aqui o estilo aqui do coiso. (...) E aquela qualidade de vedonho - como a gente lhe chama - dá cachos, mesmo até sem ser enrolados. (...) Mesmo até os rebentos que rebentam rebentem pela cepa acima, dá cachos. Ao passo que estes, e muitas outras qualidades, já não são assim. Já são doutra maneira. Já não deitam tantos, não é? Alguns deitam cá mais acima; outros mais abaixo. É conforme as qualidades, não é?
AAL04
INF Uma vez veio aqui um senhor, aqui à minha adega (...) - pronto, ele trabalhava na Suíça e parece que era pintor - e escolheu logo isto aqui (...) para pintar aqui esta vista toda. (...) Sentou-se aqui assim (...) . INQ1 É que apanha muito... INF Sentou-se aqui, numa cadeira, e uma mesa à frente. Quando foi no fim (...) aí dum bocado, já um bocado grande... Que ele quando ele além chegou abaixo, tinha isto tudo: além com aquele moinho de vento até àquelas casinhas além, que se chama Barretos; além com aquelas pedras; mesmo além naquelas, chama-se além o cancho de São Lourenço, além assim, tudo; (...) além aqueles cumes; além assim, aquilo tudo; e aqui esta vista toda. Isto foi no mês de Agosto, estava assim (...) os castanheiros tudo verde, essa coisa. Aquilo era uma coisa lindíssima depois de pintado. INQ2 Deve ser lindo. INF E, depois, ele mostrou-me aquilo depois de pintado, que aquilo é que era uma coisa mesmo linda. INQ2 Deve ser lindo. INF E disse-me ele que ia receber assim uns tostões bons por aquilo. (...) Parece que na Suíça que dão muita importância a essas coisas. INQ2 Pois, pois. Sim, sim.
AAL05
INF E mesmo os potes para ferverem nunca podem ficar cheios. (...) Um terço tem que ficar vazio - em vazio. Por exemplo, (...) se o pote leva - chama-lhe a gente - um almude, é de vinte litros; se um pote leva dezoito, coze com doze, que é para em depois para ter coiso, para ferver e (...) para não entornar. Assim, quando em depois começa a cair é que a gente vai despejando de um para o outro - não é? - para ficar cheio. E depois, em estando as graínhas tudo no cimo e que esteja completamente cozido, como a gente lhe chama, a gente prova, não é? Quando já sabe a vinho, funde-se então com estes canudos. A gente tira, tira o vinho todo, e fica o bagaço. Que em depois o bagaço é que é que vai ali para o alambique (...) para fazer a aguardente - que é o bagaço, como a gente lhe chama, a aguardente, não é? Nós, aqui, é aguardente; mas há quem lhe chame bagaço, não é?
AAL06
INF Porque aquele gado até se conhece nas feiras. Aquele gado conhece-se até nas feiras. Parece impossível mas aquilo conhece-se (...) onde quer que eles tenham essa ... INQ Mas não, não havia...? INF Até (...) tem (...) umas características (...) diferente (...) do nosso gado, está a compreender? INQ Mas quando o gado nasce aqui, não vem, não, não punha uma marca na orelha? INF Põem Põe um brinco. Mas (...) isso, isso (...) não é quando nasce, é quando são vacinados. INQ Quando são vacinados, pois. INF Mas isso é só para nos prejudicar a nós. Porque (...) , por exemplos, eu tenho o meu gado todo vacinado e todos têm o brinco - o senhor, se chegar ali, vê: todos têm o brinco; tenho ali os papéis das vacinas, tudo legal (...) ; aquilo dá para seis meses e o meu gado foi todo vacinado em Novembro, está a compreender? - porque tinha uns novilhos para vender e tive que os vacinar todos por aquilo , mas aqueles que andam aí, assim aos pulos de um lado para o outro, esses não é preciso vacinas, não é preciso guias, não é preciso nada. INQ Ai não? INF Pois não. O que é que julgava? INQ Não, é que eu julgava que depois na feira... INF Eles vão buscá-los ali à fronteira e aquilo eles lá passam de qualquer maneira e com essa coisa. (...) INQ Pois, não mas é que eu julgava que depois, na feira, todos tinham que ter o... INF Ah, todos não. Então aquilo não é visto por ninguém! Aquilo se calha aparecer guarda-fiscal no caminho, sim, na estrada - não é? - eles vão ver aquilo. Depois vêem, perguntam papéis : "E papéis"? . Então, mas eles também não vão ver todas as camionetas, não vão ver o gado todo. (...) Então agora, numa feira, iam lá ver o gado todo! Eh! Então aquilo... Para ali dois ou três e pronto. E parte (...) até das coisas, (...) ninguém pergunta por coisa nenhuma. (...) Aquilo até já se sabe. (...) INQ Não, mas é uma pena. É pena, quer dizer, é pena só por causa tanto dos senhores que têm o gado para vender como das pessoas que depois que vão comê-lo, não é? INF É. (...) Pois, que o vão comer. Pois é. Isso é que é pena. Eu até não sei mas é até (...) , sim, como o governo (...) não olha para isso. INQ2 Pois. INF Não sei. É que, por exemplos, (...) um comerciante chega ali - até mesmo esses comerciantes de frutas, que estão ali na praça -, se não tiverem facturas, aquilo é uma multa, logo (...) uma coisa forte . Vão ver aquilo tudo, fazer contas a ver se as facturas estão bem e essa coisa toda. Por exemplos, eu - isto é uma experiência que é própria mesmo e verdadeira e concreta -, eu, (...) aqui há dois meses, vendi uns suínos que aí tinha a três contos e duzentos a arroba, ou seja, a duzentos e vinte escudos o quilo, está a compreender? Estes agora que vendi, já foi a dois contos setecentos e cinquenta. Ora, já o Senhor Doutor está a ver, INQ1 Mais quinhentos e trinta. INF (...) menos talvez quatrocentos e qualquer coisa de escudos ou quinhentos, talvez... INQ1 Quinhentos e trinta. INF Quinhentos e trinta escudos.
AAL07
INQ Vinham homens de fora para ajudar a ceifar ou aqui não era, não acontecia isso? INF Bem, aqui sempre houve, mais ou menos, família. (...) À roda aqui da vila, sempre havia família. Agora, nas tapadas, lá para baixo, vinha pessoal da Beira. (...) Chamávamos nós os ratinhos. E vinham lá da Beira. Esses homens vinham aqui só de propósito. Como a terra deles não dava pão, vinham só de propósito. Levavam até mesmo pão! Por exemplos, o lavrador, dizia ele, por exemplos: "esta tapada, ou este curral, tem tantos alqueires de trigo ou centeio". E de forma que eles ceifavam à meia semente. Por exemplos, se levava vinte alqueires de semente semeada, se tinha vinte alqueires semeada, eles ganhavam dez para ceifar aquilo - só ceifar, mais nada. Em E depois então é que vinham iam os outros acartar, engrelar - chamava-lhe a gente engrelar -, que isso então já se dizia em medas. Era emedado, não é? INQ Mas na terra ou junto à eira? Na terra. INF Junto à eira. INQ Junto à eira. INF Não, isso, na terra, era carregado. Chamava-lhe a gente carregado. Era fazer vinte molhos em cada monte, vinte molhos, tudo com a espiga para dentro, tudo aquela coisa assim, e (...) leva-se aquilo. Quando aquilo estava tudo ceifado e carregado, então (...) é que iam os carros, então, acartar para a eira. Faziam-se medas e, dali, ia-se tirando, (...) sim, conforme (...) os animais que eram a trilhar, não era? INQ Pois. INF Por exemplos, (...) se a eira era muito grande e que havia muita égua, muito macho, muita mula, muita coisa para fazer aquilo e muito homem... Aquilo, por exemplos, aqueles lavradores grandes, era logo ali uma quantidade de carga - chamava-lhe a gente uma carga, uma carga são vinte molhos. Que aquilo (...) era tudo carregado (...) , sim, fazia logo uma quantidade (...) de cargas. Mas, quando era assim pequeno, como a gente aqui tinha, a gente era aí quatro cargas de cada vez era como a gente fazia, sempre quatro cargas. Nós, aqui, era sempre aí quatro cargas era o que a gente debulhava.
AAL08
INQ E o que era uma gavela? Ou aqui não se usava? INF (...) Chamava-se gavela (...) ou entulho. Por exemplos, (...) é (...) um negalho que a gente tira quando anda a ceifar... Apanha, por exemplos, duas espigas ou três com as palhas e dá uma volta à manada por causa de não espalhar com o vento. INQ Pois. INF Mesmo que venha o vento, aquilo não espalha. Está a compreender? INQ Isso é que se chamava gavela. INF (...) Isso é que se chamava uma gavela. INQ Portanto, era uma manada que tivesse um atilho à volta. INF Uma manada que tivesse um negalho. Eu chamo-lhe com um negalho enrolado. Chamava-lhe a gente um negalho.
AAL09
INF (...) O negalho (...) só a utilidade que tinha era para não deixar espalhar com o vento e aumentava a paveia ou (...) a manada. Porque, se a gente começasse a ceifar e que não fizesse aquele negalho, não era capaz de apanhar tanto com um coiso. E de forma que (...) quando a gente tinha a mão cheia já - o feixe da mão cheia - atava-lhe o negalho. E em depois segurava com estes dois dedos de cima; e estes de baixo apanhavam mais pão. Está a compreender? Que até usavam umas dedeiras de propósito (...) para ser mais comprido (...) . À uma para não cortar os dedos e à outra para descer mais comprido (...) do que os dedos, para apanhar mais (...) - sim, para a manada ser maior, não é?
AAL10
INQ Então porque é que disse que as eiras eram normalmente em cima dos cabeços, era porquê? INF Por causa do vento. Porque, numa cova, nunca há tanto vento como há num cabeço, quando é no Verão. INQ Pois. INF (...) E é uma coisa: numa cova, por exemplos, (...) nesta cova, aqui onde nós estamos, se o vento viesse dali que batesse numa erva ali do outro lado, voltava para trás (...) e não era certo - não era aquele vento certo sempre a passar. E num cabeço, não tendo nada que lhe fizesse mal, o vento estava sempre certinho, sempre a passar; e limpava-se com mais facilidade. INQ Portanto o, quando se manda ao vento, diz que, o que é que se diz que está a fazer, está a...? INF A desempalheirar. E em depois, é padejar. A desempalheirar, é só palha. É que quando está a palha juntamente com o grão, (...) aventa-se ao ar - não é? - e a palha vai para um lado e o grão vai para outro. Até mesmo aquilo tem um jeito para desempalheirar. A gente tem que rodar este pulso, conforme é cada um: alguns pegam em baixo com a mão direita; outros pegam com a mão esquerda. Eu, por acaso, era com a mão esquerda cá em baixo. E a gente dava assim o jeito ao pulso (...) para ir o trigo para um lado - ou o grão para um lado - e a palha para outro. E em depois abalava com o vento. E aquilo era passado muitas vezes; aquilo não era logo à primeira vez. Aquilo ia passando. Por exemplos, e a gente começava aqui a desempalheirar e a palha ia sair aí quatro metros ou cinco mais à frente para ir-se passando, passando, até que em depois o grão ia ficando todo para trás. Quando aquilo já estava a palha toda tirada, a gente agarrava (...) numa giesta - um bocado de giesta; chamava-se uma conha - e aconhava por cima. Tirava-lhe as palhas todas por cima. E em depois, então, ficava só aquela moinha; juntava-se num monte e atirava-se ao ar. Isso chamava-se padejar. Era já com uma pá de madeira, com uma pá de madeira. Chamava-se padejar, ou para cima duns toldos (...) de linhagem ou mesmo até para o chão. INQ E, depois, dentro de que é que se guardava o grão? INF Como? INQ Dentro de que é que se guardava o grão? INF (...) Havia as tulhas; chamavam-se-lhe tulhas. (...) INQ Que eram feitas em cimento, em tábua. INF (...) Feitas em... Algumas era em madeira e outras era mesmo uma casa feita (...) com pedra e cal, (...) bem guarnecida em ar de não entrar lá assim muita humidade e guardava-se ali o grão; chamava-se tulhas. Mas as de madeira eram melhores porque não apanhava tanta humidade. INQ Pois. INF Até outras vezes, dentro de sacos, não é? Aquilo também se enchia. Também se enchia sacos e punham . Nós cá, por acaso, cá no tempo dos meus pais, era tudo cheio de sacos. Sacos grandes! Punha-se aquilo; havia uns sacos mesmo grandes que levavam aí... Muito! Levavam aí seiscentos quilos ou mais. E de forma que a gente punha aquilo assim à roda das paredes e enchia-se aquela coisa.
AAL11
INF Há quem lhe chame pios e há quem lhe chame galgas de pedra. INQ Pois. E depois, elas eram, ou essa, essa massa era posta dentro de umas coisas, não era? INF Não. (...) Aquilo trabalhava dentro duma caixa, em ferro, e debaixo era pedra e (...) com um com rodapé todo tudo em ferro, por causa de (...) não saltar a massa para fora, não é? As azeitonas caíam no meio, e em depois andavam ali à volta, (...) as galgas a passar-lhe por cima, ali apertadas, porque tinha uma caixa em ferro dos dois lados. A galga trabalhava dentro daquela caixa (...) mas, debaixo, era pedra. (...) Era da mesma pedra (...) das galgas, não é? Isso, a galga (...) e a caixa, é que lhe chamam o pio. INQ Às duas coisas. INF As duas coisas (...) conjuntas é que é o pio.
AAL12
INQ E, depois, a água ia para onde? INF (...) A água ia para o... Chamavam-lhe o ladrão. (...) Ia para o ladrão, pois. Ia para o ladrão, mas aquilo chamava-se-lhe ladrão, mas aquilo deve de ser assim também por uma coisa assim... INQ Fazia-se azeite era dali... INF Pois é. O azeite que ia, o freguês - aquilo (...) quando era assim por maquia, conforme é ainda hoje - aquele azeite que abalava, o freguês nunca tinha nada daquilo. Aquilo era para o dono do lagar. É por causa disso é que é que lhe chamavam o ladrão. INQ É que se chamava ladrão.
AAL13
INF E depois, então, aquilo era lavrado com charruas, assim puxadas até por duas ou três juntas de bois - charruas grandes que havia aí assim. Isto há (...) à volta (...) duns cem anos ou coisa assim que apareceram (...) aquelas charruas grandes. (...) Foram aqui para Castelo de Vide. Foram uns ingleses que trouxeram para cá aquilo, que eram os primeiros donos aqui do prado. Umas charruas muito grandes, puxadas por três juntas de bois, bois ou vacas ou parelhas.
AAL14
INQ E, e depois de semear, não, não passava uma...? Tem aqui fora uns dentes? INF (...) Uma grade. Pois Depois , com uma grade, uma grade de facas. As primeiras que apareceram eram (...) de madeira, com facas de madeira. E agora são as facas de ferro. São as facas de ferro. E hoje, então, há já as coisas melhores, que é uma fresa, puxada com um tractor, não é? INQ Pois. INF Isso, então, isso é que é a coisa melhor (...) para partir. INQ Mais depressa. INF Isso é que anda é mais depressa e mais perfeito, não é? É a tal grade com facas de ferro - de ferro ou madeira. INQ Sim senhor. Olhe, e que nome é que se dava a um terreno que se deixava de um ano para o outro para, quando, quando se mudava de, de semeadura, portanto, que era para descansar? INF Pousio. Chamava-se pousio. Ainda hoje se chama pousio. Há, por exemplos, há tapadas... Dantes as tapadas eram feitas só de quatro em quatro anos. Era mesmo uma tapada mesmo... Quando o senhorio arrendava uma propriedade dessas, era mesmo com o trato de ser feita - chamava-lhe a gente fazê-la - só de quatro em quatro anos. O primeiro ano era de alqueive. Era esse alqueive que a gente lavra e que a gente faz essa coisa. E o segundo ano era de seara, em e depois era de feno; em e depois era de relva para pastagem para o gado. (...) Porque dantes era ao contrário; dantes, havia muito quem trabalhasse e portanto metia aqueles preceitos. Hoje, é ao contrário. Hoje, quem arrenda uma propriedade é logo com o trato (...) de arranjar o mais depressa possível, porque estão mesmo abandonadas. E dantes, até não deixavam trabalhar tanto. INQ Pois. Não deixavam... INF Não deixavam por causa de não cansar as terras. INQ Claro. INF Claro. INQ E, e não havia uns terrenos, aqui, que eram propriedade de todos? Não, não, não se lembra ainda, que eram assim...? Que era, ninguém sabia, portanto, não tinham dono, até, muitas vezes, levavam o gado para lá? INF (...) Aqui, na nossa zona, constava-se - mas isso eu não tenho a certeza - que o prado que era do povo. Em depois, vieram os uns ingleses, compraram um bocado e puseram uns marcos e paredes e apanharam aquilo tudo ao povo. Constava-se isso, mas isso eu, ao certo, não sei. Mas já tenho ouvido dizer isso (...) . Eu ouvi ouvia falar nisso ao meu pai. INQ Claro. Claro. INF E tenho ouvido falar até a mais pessoas.
AAL15
INQ Numa propriedade, às vezes, quando não havia parede, o que é que separava uma da outra para a gente saber...? INF Uma linda. Chama-se uma linda. INQ Que era feita de quê? INF (...) Bem, de terra brava, não é? Punha-se uns marcos, e em depois, aquele bocado, como não era cultivado, deitava umas ervas bravas - não é? - e aquilo nunca se desmanchava. Até, aqui, até há uma coisa dessas. INQ Pois, ali em cima. INF Pois, ali em cima, há uma coisa dessas. Fica aquela barreirinha no meio - uma barreira, (...) um coiso no meio - com um marco aqui, outro além, (...) desviado cinquenta metros, acolá ao cimo e coiso. É a linda. E depois, cada um arranja do seu lado e fica aquela coisa que nunca se lhe mexe. Chama-se uma linda. INQ Pois.
AAL16
INQ Ó Senhor Alberto, e quando, portanto, quando semeava cereal, quando era uma extensão mais larga que quando estava a semear não abrangia só de uma vez, não fazia uns regos, primeiro, que era para...? INF Fazia as belgas. Chama-se Chamam-se as belgas. INQ Tal e qual como se chama as belgas ali para aquelas...? INF Pois, como chama-se aqui embelgar; chama-se chama-se-lhe mesmo embelgar. (...) Ainda hoje se faz. (...) Ainda hoje se faz. Mesmo até para semear a forragem tem que se fazer as belgas. Quando não, a gente não abrange. A gente, com uma mão... Mais, eu semeio (...) com dois arcos mas, mesmo assim, nunca apanho (...) a distância mais do que três metros e meio, quatro metros quando muito, quatro metros é já à rasca. INQ O que é que chama semear de dois arcos? Portanto é...? INF É fazer um arco assim, largar uma mão cheia assim, e a gente, quando é que mete a mão ao sementeiro - que como a gente anda com um... não sei se o senhor se já tem visto? -, INQ Pois, pois. Já. INF a gente enche a mão, apanha do sementeiro e aventa com ela assim; espalha no ar, não é? INQ Pois. INF E depois isso faz um arco. Faz um arco, porque começa a fazer um bico assim e vai acabar além. INQ Sim senhor. INF Mas (...) como eu semeio de dois arcos, (...) faço o arco mais pequeno, assim, ao contrário. Um vai assim e o outro, em depois, vai assim.
AAL17
INQ Portanto, quando se apanhava, trazia-se a maçaroca para casa e, depois, o que é que se fazia? Portanto, ia-se apanhar o milho à terra, não era? INF1 Pois é. Apanhar, pois, o milho. INQ E depois? INF1 Então, depois era desencamisado e punha-se a secar numa eira até que era ou debulhado ou malhado. INQ Portanto, àquilo que se tirava chamava-se camisa? INF1 Camisa, pois. Descamisada. Chama-se mesmo uma descamisada. Havia mesmo pessoas (...) que eram convidadas. (...) Aquele serviço, dantes, era sempre feito à noite. Convidava-se ali os vizinhos, aquilo tudo, (...) . Era no tempo das melancias (...) - sim, que é sempre no tempo do melão e da melancia - e comia-se ali umas melanciazinhas. Ajudar uns aos outros! Hoje, iam à descamisada dum; amanhã, iam à descamisada do outro; e aquilo (...) era assim uma coisa toda feita. INQ E dava-se algum nome àquele milho que se encontrava, quando era mais, aquele vermelho? Quando era um... Não havia umas maçarocas...? INF1 Umas maçarocas roxas. Isso aí, isso era uma festa; isso era tradição (...) aqui. INF2 Sal e beijos. INF1 (...) Quando aparecia uma com uma bandeirinha, era um beijo. Quando aparecia um com um abrado , ou (...) com lá com outra coisa... Como é que era? Uma bandeirinha era um beijo; uma roxa era um abraço. Andar por ali assim, brincar todos uns com os outros! INF2 Era uma festa, não é? INF1 Era uma festa, não é? (...) Que isso era muito difícil de aparecer uma maçaroca mesmo roxa. Mas como havia já alguns que já tinham, assim já de há muito tempo - outros até as pintavam -, levavam aquilo no bolso e quando era der : "Olha que eu tenho uma roxa"! e tal e coiso - só para se agarrarem às cachopas a darem umas beijocas, umas coisas.
AAL18
INF1 Havia um forno, aqui, que se pagava... Cada tabuleiro que se lá ia cozer, pagava-se um pão. E de forma que nós íamos sempre - era ali em baixo -, nós íamos sempre ali. Quando era cá no meu tempo de solteiro e essa coisa, (...) eu é que ia sempre levar o tabuleiro à minha mãe. Agarrava no tabuleiro... INQ O tabuleiro era quantos pães? INF1 Bem, conforme. Fazia-se ali dezassete, dezoito, vinte, quinze... Era conforme a quantidade que amassávamos (...) . INQ Pagava-se um. INF1 Pagava-se um. INQ Dava-se algum nome àquele pão...? INF1 Aquilo chamava-se uma conta. Era de vinte, já se tirava um. De vinte para cima, parece parece-me que tirava-se mais; eu não sei bem como é que... INF2 E se fossem dez ou doze, tiravam um à mesma. INQ E não davam um nome àquele pão que se dava de paga? Aqui, não sei se... Não? INF1 Bem, parece-me que...Bem, era a paga do forno. (...) Era isso que (...) parece que se fazia. Parece que eu que ouvia falar nessa coisa: "Então, já tirou a paga"? ou coisa. Era assim, era. INQ Pois. Portanto, mas a pessoa, quando ia cozer lá, também tinha que levar a lenha que era para aquecer o forno, não? INF1 Não, não. Punham eles tudo. O que é que juntavam e não podiam amassar todos no mesmo dia. Ou no mesmo dia! Um hoje e outro amanhã! Aquilo o forno levava ali três ou quatro tabuleiros, não é, até três ou quatro fregueses, e de forma que juntavam e escolhiam, mais ou menos, a hora e o coiso (...) , que era para cozer tudo para não gastar tanta lenha. Por exemplos, uma fornada dava (...) logo para todos.
AAL19
INF1 No Alentejo, nunca se comeu pão de milho. INF2 Para aqui, pão de milho, não. INQ E, e às vezes, não, não se fazia um pão que lá dentro, antes de se pôr no forno, punha-se uma sardinha ou um chouriço lá dentro? INF1 Pois, isso era um bolo. Isso chama-se bolo. Havia. Faziam. Fazia. Era um bocado de massa estendida; em depois punha-lhe punham , por exemplos, uma sardinha ou duas, ou umas rodelas de chouriço - (...) até rodelas de maçã e coisa. Aquilo dava-se um nome àquele bolo, mas eu já não sei bem como é que era. Aquilo era... Eu sei que era só com mais chouriço e sardinha (...) é que se fazia. INF2 Mas com o chouriço era melhor. INF1 Ah, pois. INQ Claro. INF1 E de forma que... Agora, como é que é que se chamava aquilo, (...) não sei. Não. O nome daquilo não sei. Isso já foi já há tanto ano.
AAL20
INF1 (...) O milho era pela ocasião (...) dos Santos. INF2 Dos Santos. INF1 Que a tradição, aqui, do almoço do dia dos Santos, que é no primeiro de Novembro, era fazer papas de milho. INF2 Papas de milho. INF1 Papas de milho. E de forma que havia lá - havia na vila - (...) umas mulherzitas que tinham um aparelho com duas pedras manual, e chamavam-lhe uma zangarilha, que era onde iam moer o milho, para fazer as papas. Aquilo só trabalhava, mais ou menos, só naquela altura, não é? INF2 Só. INF1 Naquela altura e (...) naquela época, sim, naquele dia ou próximo; naqueles próximos dias é que ele trabalhava ali. INF2 Toda a gente comia papas. INF1 E de forma que (...) iam lá moer aquilo à zangarilha. Era uma coisa manual. Eu (...) nunca vi aquilo, mas a minha mãe falava-me nisso. Chama-se uma zangarilha, era . INQ E, mas essa, essa das papas dos, portanto, de fazer papas de milho nos Santos, ainda, ainda se lembra de comer ou o senhor já...? INF1 Então, mesmo hoje ainda se faz. INQ Ah, ainda é normal? INF2 Olhe, deitamos nós um pacote só para ... INF1 Deixe lá ver que em depois fica lá tudo, homem. Fica uns dum lado e depois não se entende. INF2 Então vá. INF1 Que ele, ainda hoje, há essa tradição, cá. (...) Bem, nós cá, no tempo da minha mãe, quando nós éramos miúdos, era sempre as papas do dia dos Santos. Era sempre o almoço do dia dos Santos era papas.
AAL21
INF Mas ainda há quem dê ao moleiro... Há uns moinhos, aqui em Póvoa e Meadas, e aqui no concelho de Marvão, daqueles moinhos a água... INQ Ah, ainda há, ainda há? INF Ainda há. Ali, (...) no concelho de Marvão, ainda ali há umas coisas dessas. INQ Em, em que terras, não sabe o nome? INF Ali, assim, para o pé da Portagem, ainda há umas coisas dessas. INQ É que ali, na Portagem, não nos, já, disseram-nos que já não havia. INF Não? Que não havia? INQ Pois. INF Olhe , mas eu jurava julgava que havia ainda. Mas e se acabaram o isso acabarem foi há poucochinho tempo. Uns moinhos (...) de água, mesmo água. INQ Pois, pois. Mas era no Sever, era no rio Sever? INF (...) No Sever, no rio Sever. Isso ainda não há muito tempo. INQ Pois. Mas para o lado de Espanha ou mais para baixo? Portanto... INF Não. Ali logo a seguir à Portagem, por baixo do restaurante, aí assim. INQ Huum... Agora, acho que já não há. INF Já não há? INQ Já não há, não. Mas em Póvoa e Meadas há, há? INF Em Póvoa e Meadas, há eléctrico. INQ Ah, é eléctrico. INF Eléctrico. (...) Mas com as mesmas pedras, com a mesma coisa. INQ Pois. INF Isso aí ainda se leva para lá milho para moer. Até o rapazito - (...) se lá quiser ir -, o rapazito até é meu amigo. Se lhe falar em mim... É o Aldemar. INQ Aldemar. INF Aldemar. É lá o regedor da terra. INQ Pois. É que isso, a gente, da outra vez, é que andou ali à volta e não, não conseguiu... INF Ai sim? (...) Mas ali , eu julgava que ali não... Mas isso, se acabou, foi há muito poucochinho tempo. Num ano, não há de dois anos ou três que aquilo acabou, sim. Que era porque (...) eu lembro-me... INQ Pelo menos, eles perguntaram-nos, a gente perguntou e não, disseram que por ali já não havia. INF Talvez fosse as tais azenhas. As azenhas é que naturalmente não havia. Agora, os moinhos é outra coisa. É que uma azenha tem uma roda muito grande e coisa; e um moinho é uma da coisa... Cai a água assim, de frente INQ Pois. INF e faz moer as mós. Faz rodar, faz... INQ Pois, mas a gente, amanhã, pode lá perguntar outra vez, mas não... Não sei. INF É boa! Mas olhe que eu, eu tenho a impressão (...) que ele que havia ainda lá disso.
AAL22
INF Até ainda não há muito tempo que havia aí um moleiro - até com uma carroça - que vinha aí. E a não ser que... INQ Pois. É capaz. INF Agora, por acaso, eu também não sei. (...) A não ser que o indivíduo arranjasse para lá alguma coisa eléctrica e que viesse. INQ Mas a gente, a gente estava...Pois esse de Porto da Espada sei que arranjou, portanto, fez, tinha, mas já, já é mais antigo. INF Bem, isso sempre foi moagem eléctrica, INQ Sempre foi moagem eléctrica. INF ele ali o de Porto da Espada. (...) Ele Ali, ali até nem passava o rio, não passava nada. Que ele até ali ainda não é bem... Sim, é o rio mas (...) chama-se a ribeira de Marvão. O rio em depois começa aqui que ... INQ Mais abaixo. INF Chama-se rio cá mais abaixo, não é? (...) Mas é a ribeira de Marvão. INQ Pois. INF Mas eu tinha até coiso que ele que ainda funcionava, por ali assim, umas coisas dessas. INQ Pois, não sei. Mas, em relação ao azeite, o Senhor Alberto vende a azeitona e depois dão-lhe o azeite para trás ou vende essa...? INF Não. Eu desfaço (...) à maquia. Desfaço à maquia. Agora, esta que tenho aqui no tanque, se me derem o dinheiro que eu entendo, eu vendo-a; e se não derem, desfaço à maquia. Que aqui uma aquilo a maquia é doze por cento. (...) INQ Doze por cento para, para quem mói, para quem moer. INF (...) Para quem moer. Para quem mói . Vêm aqui buscar as azeitonas, levam para o lagar, (...) e em depois, metia-lhe metiam-lhe de maquia doze por cento.
AAL23
INQ Nesses lagares, o senhor recebe mesmo do, do seu azeite? De que levou a azeitona? INF Recebo mesmo do meu azeite, mesmo do meu azeite. INQ É? Porque, às vezes, como há, como há muita gente a levar, as azeitonas são misturadas. INF Não, não. Aquilo, em sendo assim uma quantidade assim já grande, é tudo. Aquilo chama-se uma prensada. Em dando para uma prensada, que leva à volta de quatrocentos quilos, (...) já pode o indivíduo trazer o azeite dele.
AAL24
INF (...) Isso é o edifício novo que andam a fazer agora. Mas isso ainda não trabalha e (...) onde é mesmo agora a casa dos bombeiros é cá em cima. Bom, até por acaso, os bombeiros até têm... Ali é as garagens, a casa (...) é lá mais acima, ao pé do Dom Pedro V. INQ Pois. INF Isso é que é também aí . Também tem aí têm outras garagens, agora... INQ Ah, pois têm, têm lá, têm. INF Eles têm duas instalações. (...) Agora, em fazendem o resto das outras é que fica tudo ali junto, já. Fica já ali a garagem. Fica casa para tudo, não é?
AAL25
INF1 Pois, aquele ali da vila (...) é mais pertinho; é igual, aquilo, a coisa é toda tudo igual. INF2 É o do Alexandrino. INF1 Pois, o do Alexandrino ou o outro da Provide. É perguntar pela Provide, que é mesmo por baixo do Canapé. INQ A Provide é o primeiro. INF1 (...) Lá em baixo. Por baixo, lá ao pé do Canapé. INQ Ah, o Provide é por baixo do Canapé. E o outro é que é cá de cima. INF1 (...) O outro é do Alfeu. Mas esse, lá assim mais fundo, é que é... Bem, não é mas por ser mais fundo ou coisa, isso não tem nada, não é? INQ Pois, isso não, não faz diferença. INF1 Isso não faz diferença. Aquilo tem uma escada para se descer lá para baixo. INQ Pois. INF1 (...) Quando a gente vem do Canapé para cima, é logo... (...) Está ali, faz aquela curva; a seguir à curva, está um portão; é logo o outro portão. (...) É o segundo portão. INQ Antes daquela curva grande lá em baixo. INF1 Pois. (...) Depois daquela curva grande, quando a gente sai (...) INQ Ah, depois. INF1 do Canapé, (...) faz ali uma curva - a estrada faz aquela curva, não é? Se vier para cima, encontra um portão - não é o portão que está na curva - encontra um portão à direita, e em depois é logo o outro. Que o de baixo também pertence, (...) mas é ali para o quintal. E aquele vai mesmo ter com as tulhas e mesmo com o lagar. INQ Pois. INF1 Vê logo um portão aberto - um portão grande de ferro, grande. Não é? INQ Pois, é capaz de ser.
AAL26
INF1 Isto está cheio de castanhas, INQ Ah, pois. INF põe-se assim... E de vez em quando, a gente tem que fazer assim, dar volta às castanhas. Chama-se dar volta às castanhas. Quando não, não assam. (...) Queimam-se umas e não... INF2 Isso. (...) E depois põe-se ao calor. E depois, daí a bocadinho, bocadinho a bocadinho. INQ1 Mas eles, lá em cima, o que eles fazem... Como aquilo é muito largo, as castanhas ficam todas no fundo. É assim uma coisa larga. INF1 Ah, sim. Então, é diferente. INQ2 Portanto, é como fosse um cabaço. INQ1 E depois, fazem assim. INF1 Agora, depois de assadas, nós é que é que podemos, por exemplos, pendurar isto aqui, não é? INQ1 Ah, pois. INF1 Aí num gancho e, depois... Um bocadinho para não arrefecerem! INQ1 Mas o, lá é um, é um caldeiro como se fosse o caldeiro de purgo. INF1 É boa! (...) Então eu não conheço isso. (...) O que se usa aqui no Alentejo é isto. Há uns maiores e outros mais pequenos, não é? INF2 Pois, há mais pequeninos. Há maiores mas... INF1 Ai, há uns grandes. Até há uns grandes e há outros mais pequenos ainda. (...) Este é um dos médios; dá aí para cinco ou seis pessoas, à vontade, para comerem. INF2 Pois. Não, mas este é assim pequenino.
AAL27
INF É que Aqui nós, por exemplos, (...) se nós soubéssemos... Bem, deixar a vida de todo, não. INQ Pois. INF Mas se soubesse que isto (...) que não nos tiravam (...) o valor ao dinheiro ou assim qualquer coisa, que a Caixa é que ia pagando sempre (...) o jurozito, assim coisa, eu, agora, vendia algumas propriedades e vendia o movimento da vida e ficava (...) só com umas coisitas - só assim com umas coisitas (...) assim pequenas. E o resto, depois, (...) punha o dinheiro (...) na Caixa ou no banco e ia-se ganhando algum juro. Mas em e depois, se isto, amanhã, abaixam os juros ou qualquer coisa, que isto naturalmente não está muito ... INQ Não, os juros de certeza que não baixam muitas vezes é que o... INF Crescem os impostos, não é? INQ Vão crescendo é o preço das coisas e, muitas vezes, os juros não dão para pagar tudo, não é? INF Pois. Pois. Pois, pois é. O juro não chega, não dá para pagar tudo, pois é. E a gente ainda tem medo assim. (...) Ainda tem que pensar duas vezes, porque o movimento é pequeno, não é? INQ Pois.
AAL28
INF Mas, agora, veja bem, um indivíduo a vender batatas a oito mil réis ou a dez, mesmo, para pagar seiscentos mil réis a um homem, depois, adubos e rendas de terras e essa coisa toda, quanto é que não é preciso! Não é? Quantos quilos de batatas não é preciso, só disso! E, em depois, é: a minha vinha também o é uma coisa que não pode ser lavrada com tractores; tem que ser tudo também só feito à mão do homem. INQ Pois. INF Até mesmo para cavar e tudo. Ainda o ano passado foi tudo cavado com uma enxada! INQ Imagino. INF (...) INQ Essa, essas moto, essas moto-cultivadoras não dão, aqui? Essas pequeninas? INF Para aquilo dão. Já tenho feito aquilo. Mas aquilo só serve (...) para fazer ervas bravas (...) . INQ Sim, para cultivo de coisas... INF Pois, (...) só para espalhar. Por exemplos, aquilo está assim: está aqui um arneiro de uma erva brava, grama, por exemplo - (...) é grama, que é das ervas mais bravas (...) que se encontra naquelas terras cultivadas; é de que se embravia mais é com a grama -, aquilo passa num arneiro de grama, aquilo vai a fresa, vai andando, e espalha logo aquilo tudo. Quando é no fim de dois anos, (...) está tudo cheio. Em depois, muito mais trabalho dá ainda - não é? - depois aquilo. As mondas químicas, eu parece-me que não concordo muito com elas (...) ... INQ Tanto faz mais às mondas como também deve fazer mal à, à planta. INF Pois. Pois, (...) eu não concordo com a monda química (...) . Pelo menos nas vinhas, só com Ervax é que eu ainda já tenho aí feito. Mas o Ervax (...) não mata todas as ervas. Mata só aquelas ervas mais manhosas . Aquelas ervas mais manhosas é aquelas que a gente ainda aproveita para o gado e que não fazem tanto mal. INQ Pois. INF Pois, havia de matar mas era as bravas. As que mata as bravas mata as parreiras! Ah, já está a ver que aquilo também não... Por causa disso é que eu não concordo muito com isso. INQ Pois. INF Que ele enquanto não chega lá a tal enxadinha a cavar e a escolher aquilo tudo bem e a deitar para trás para se secar com o sol, cá para mim não vai. E isso custa muito dinheiro.
AAL29
INF Eu Ah , (...) se fosse mais novo, ainda ia. Se tivesse menos dez anos, em lugar de ter sessenta, se tivesse cinquenta, a coisa até era capaz de ir. Nestes dez anos, eu havia de arranjar dinheiro para ela. Mas, uma pessoa também já tem... Depois, se amanhã começo a ser doente, ainda pior. INQ Não, e, realmente, depois, tanto o seu genro como a sua filha depois não tenciona vir para estes sítios. INF Pois, não tenciona vir para cá. Depois, tem que arrendar isto a outras pessoas. Isto os arrendamentos, já se sabe, que não há como as coisas estandem nas mãos dos donos, está a compreender? Porque este arrendamento meu, se estivesse na mão da dona estava pior, sem dúvida nenhuma. Porque ela - e o espelho está lá em casa -, porque ela (...) tem uma propriedade mesmo muito grande, que é uma herdade mesmo, e grande. Ela até tem duas herdades, uma até foi ocupada. Tinha tanto que até ocuparam uma. E a outra está na mão do filho. E Que o filho (...) é lavrador mas está muito longe. (...) Ele, este ano, até que me comprou a vinha a mim, porque ele tem uma vinha quatro ou cinco vezes maior do que a minha e não teve um cacho para comer, está a compreender? Já me encomendou vinho (...) para levar para casa. (...) Já está a ver como aquilo está tratado.
AAL30
INQ Agora, se desse umas chuvadas, assim boas... INF Fazia-me mesmo muita falta, mas mesmo muita falta. É que, este ano, se não chove, estou encravado com isto. INQ Está mal, pois. INF Está mal, está. (...) Eu, pelo menos, estou mal. E eu que tenho sempre sementes boas, tenho uma quantidade de semente de batata mas assim uma coisa jeitosa - sempre sementes novas. (...) As batatas que há na minha terra só são semeadas duas vezes: é no ano que vem e no outro ano, mais nada. Depois acaba-se logo com aquilo. INQ Há sempre sementes... INF Sempre, sempre sementes novas. Este ano, já com o medo, é que comprei menos semente nova porque também aquilo custa muito dinheiro. Aquilo custa aí a trinta mil réis o quilo e, em depois, com as que vêm ainda deterioradas e essa coisa toda, vai para aí quase para quarenta escudos, ou trinta e cinco ou coisa assim. E, em depois, para as ter aí e não ter água para as regar, também não vale a pena estar com ... INQ Isso prometeu, uma altura, prometeu que vinha. Parecia que vinha assim umas chuvas mas... INF Pois, parecia. Agora, eu dizia, agora, desta vez que... Mas isso já abalou outra vez. Agora, foi lua nova ou (...) lua cheia. Agora, abalou. A lua cheia devia ter sido ontem. Mas agora abalou. Pode ser que à lua nova que venha mais, mas dá-se em passar o tempo. É que, em depois, também, (...) se vem muito tarde, também já faz mal a outras coisas. INQ Já não faz, depois, tão bem. Tem que vir na altura, mais ou menos... INF Pois. E depois (...) já começa as árvores a rebentar; já começam vinhas e essa coisa toda e a coisa; em depois, também já não... Tudo fora do tempo também (...) não é bom. É que à altura de chover, costuma-se a dizer que: "a inverno inverna do Natal nunca faltou"; mas este ano faltou. Na altura do Natal, por exemplos, (...) no tempo da azeitona é quando pertence a chover. Porque (...) a azeitona é uma das coisas que: chove agora, e, em estando bom, (...) já se trabalha. E nas terras, não é assim. Se estiver agora uma semana a chover, duas semanas e coisa, mesmo que alivie, já não é tão depressa que a gente mexe nas terras.
AAL31
INF Eu, este ano, até pus a minha vinha no seguro, mas aquilo é muita caro. Aquilo fica mesmo muito caro. Vai-se a ver que, (...) ao fim e ao cabo, em depois, aquilo, também, que se há um azar qualquer, que se queima , eles só pagam só por para destruição (...) de trovoadas ou assim dessa coisa ou, então, queimas com a geada. Mas, em depois, aquilo para pagarem qualquer coisa, INQ É o cabo dos trabalhos. INF (...) aquilo é um cabo dos trabalhos. (...) Por exemplos, uma vinha é queimada hoje - (...) numa noite de geada, queima-se a vinha toda, como a minha se queimou há dois anos; foi toda queimada; aquilo ficou completamente destruído, está a compreender? -, mas (...) , ao fim de quinze dias, começa a rebentar outra vez. E depois chegam cá (...) os indivíduos a ver - lá os técnicos - a ver aquilo, vêem aquilo a rebentar, mas não dizem logo (...) que aquilo que já nunca mais dá nada. É que as batatas e a vinha que se me queimou há dois anos, ela deitou muita rama ainda, mas o que é que já não deitou fruto - mesmo as batatas e tudo, está a compreender? E, depois chegam: "Ah, então o que é que você quer? Então, isto está tudo verdinho", está tudo assim, está tudo assado, e tal e coiso. Mas é que o fruto é que abalou, está a compreender? E portanto, ao fim e ao cabo, mesmo aqueles que há dois anos tinham as colheitas (...) no seguro, pouco lhe deram ou quase nada. Não deu quase para o trabalho de andarem com essa coisa.
AAL32
INF (...) Era tudo com subsídios. Mesmo o adubo - (...) lá aquelas matérias químicas com que se faz o adubo - vinha tudo mais caro do estrangeiro, e o governo punha aquele dinheiro; vendia mais barato. Agora não. Estes indivíduos, agora, ainda lá (...) da coisa, parece que ainda foram até piores, eu sei lá. INQ Pois, já não há, não há subsídios para essas coisas. É o preço real da... INF Não há subsídios para coisa nenhuma. É cada um a puxar para seu lado. Uns fazer fazendo barulho dum lado, e outros do outro. No fim, está tudo aqui e a coisa não se vê ... Só o que se vê é barulho e dizer mal uns dos outros, mas não se vê nada feito. Cada vez vê-se menos coisas. INQ Pois, os agricultores, também, é que sofrem, não é? INF Pois, os agricultores é que sofrem e o povo até sofre, também. O consumidor até sofre com... INQ Claro, isso todos sofrem. É muito chato. E em relação à Casa do Povo, portanto, já, já há aqui, não há, Casa do Povo? INF Casa do Povo, há. INQ Já há subsídios também para, para as pessoas? INF (...) Mas é uma coisa pequena. INQ Pois, acho que não dá para nada. INF Pois. Então, a minha sogra ganha - e é agora, (...) agora do Natal para cá -, ganha - ganhava dois contos e oitocentos - agora, ganha três contos e trezentos, parece - trezentos. E (...) eu estou a pagar para a Caixa dos Independentes. Estou a pagar (...) um conto novecentos e cinquenta escudos por mês. Vamos lá ver. Mas isto está tão mal; há tão poucachinho tempo que isto começou. Vamos lá ver quanto é que é que em depois me... INQ Depois não sabe, depois não sabe quanto é que dá. INF Não sei quanto é a minha reforma. Não sei.
AAL33
INF1 De forma que eu fui foi mais por causa disso e por causa da Caixa. (...) Eu já tive uma mercearia, lá na vila, já aí há uns anos, porque era até do meu irmão e, depois, fui obrigado até a ficar com ela por causa de vários motivos (...) . Mas aquilo durou pouco tempo. E como descontei para aquela Caixa, também, para a Caixa dos Comerciantes (...) ... E tirei então a licença por causa de não perder aqueles quatro anos (...) que estive coiso. Que eu até lá não estive! Eu estive sempre aqui! Mas a minha mulher é que é que estava lá como empregada - lá em cima, lá naquilo. Aquilo foi o meu irmão... INQ Pois, pois. Pois. Não, essas coisas dão jeito, se for preciso. INF1 Essas, essas coisas assim. Aquilo, depois, aquilo foi para ver se safava lá a vida ao meu irmão, porque ele andava assim também um bocado mal e, depois, também havia aí uns tostões também lá e essa coisa toda. INF2 Ai, a vida! Para as luzes (...) e gás (...) ! INF1 São coisas já diferentes disto. De forma que em depois para não perder coiso, fiz aquilo assim. Eles mesmo, lá na Caixa, é que é que foi que me ensinaram aquela coisa; portanto, estou a descontar para as duas. Agora a reforma da Casa do Povo também nunca pode ser muito grande porque ele não se desconta muito - poucachinho dinheiro. INQ Pois, é a partir dos sessenta e cinco, não é, que se tem direito, ou aos sessenta, na Casa do Povo? INF1 Como? INQ Para se receber, a partir da Casa do Povo, é a partir dos sessenta ou dos sessenta e cinco? INF1 É dos sessenta e cinco anos. E a Caixa é a mesma coisa. INQ Ai também? INF1 (...) É então a partir dos sessenta e cinco anos. O que é certo é que o que se desconta para a Casa do Povo é muito poucachinho. Nunca se pode ter uma reforma em condições porque - sim, nunca se pode ter assim (...) uma reforma muito elevada -, porque descontou-se pouco. (...) Qualquer pessoa, mesmo cá no campo, podia também descontar um conto de réis por mês ou coisa assim parecida. Assim, desconta cento e sessenta mil réis. Ora, (...) cento e sessenta mil réis, (...) o que é que em depois hão-de poder pagar, não é verdade? A coisa também não está assim . Agora a outra, já com um conto novecentos e cinquenta, INQ Já é capaz de dar qualquer coisa. INF1 é capaz de já dar qualquer coisa.
AAL34
INF Há dois anos, veio um indíviduo carregar cebolas que eu vendi. (...) Não o roubaram mesmo a cavalo na camioneta? Sim, na camioneta! Mandaram parar uma camioneta - mesmo lá no auto-estrada, para lá de Vila Franca, (...) já lá na coisa, já quase chegando ao aeroporto - onde ele foi ali roubado. Mandaram-lhe arrumar a camioneta ali ao lado. (...) Mandaram-no parar; e tudo a passar, cada um para um lado, para o outro, e vêem ali os indivíduos a coiso, a roubarem o homem. Roubaram tudo quanto tinha. Roubaram-lhe tudo quanto lá tinha. INQ Imagine. INF Não levaram a carga da camioneta, nem a camioneta, mas dinheiro, relógio; tudo, tudo quanto tinha, levou tudo. Levaram tudo. INQ Parece que nas cidades e nos sítios grandes é mais fácil agora. INF Está a ver? Ali num sítio daqueles! Parece impossível, (...) mas ele aquilo lá foi feito e ninguém deu por isso.
AAL35
INF Bem, e depois, meu pai faleceu, tinha eu treze anos. (...) E então, daí, deu-se o caso, é claro, arrumei-me então à arte. Digo assim: "Bem, isto já não dá nada o campo, também". Arrumei-me à arte. Trabalhava, então, ali numa quinta do prado, ali em baixo. Trabalhei ali, à roda dos vinte anos, lá. Fazia um biscatito assim nos domingos, cá em casa, mas o mais trabalhava ali, assim de jorna. E depois então acabei por pôr loja por minha conta, até à data de hoje. Faço cinquenta e sete no dia quatorze de Junho. Portanto, enfim, cá estamos. E isto já se sabe. E então, é claro, isto aqui (...) apanha um meio muito grande - ainda é o que vale -, porque só o concelho não me governava. Apanha então o concelho de Marvão, aqui o concelho de Portalegre e vêm nas camionetas, (...) nos tractores e trazem o serviço aqui. E então aqui vou fazendo aquilo que posso. O que não posso, é claro, digo logo que não posso; mas, enfim, cá se vai a gente andando. (...) E, enfim, é claro, os meus pais, coitados... É claro, naquela altura, no melhor, o meu pai faltou-me. E depois, nós éramos quatro irmãos e ficámos só com minha mãe. E eu, como sendo o mais velho, (...) é que fui sempre o mais escravo. Mas, enfim, até à data de hoje não estou repeso. Tenho trabalhado muito; mas a gente, em tendo saúde, o trabalho não mata ninguém. Até ainda a gente anda melhor, não é? E é assim. O mais, pronto, é claro! Agora, a questão (...) disto das carroças tem um problema, por exemplo, (...) disto das ferragens... Eu tenho é agora (...) umas rodas novas para fazer e as ferragens não há maneira de virem. Estou farto de apitar o mesmo que me fornecia para cá. Pois, às vezes, podia ser a falta de dinheiro, ou coisa, ou tal. Não senhora. Quer dizer, é aquela maneira dos tipos (...) não se torcem. Quer-se dizer, em não sendo coisas assim de grandes quantidades, coisas pequenas não ligam. E em depois, pronto. Eu acabei. Não tinha aparelho de soldar. Não o tenho aqui porque a casita é muito pequenina. Tenho ali (...) no meu rés-do-chão, e uma máquina (...) , uma maquinetazita onde... Por exemplo, isto agora, vou fazer umas portas - agora afracou aí um bocado o serviço e eu tomei esse compromisso -, umas portas aqui para um vizinho. E então, agora, é o que vou fazer. Umas portas em castanho (...) e assim se vai levando. Mas, quer dizer, na tal maquinazita, dá-me para aparelhar isto. Agora corto isto nos comprimentos e vou lá; aparelho; e depois, aqui, é já só armá-lo. E então, é assim. Mas não tenho aqui. Não tenho aqui porque isto a casita é muito pequenina e, além disso, não é minha, porque a dona (...) não tem lucro nenhum em ter isto... Ela já havia de ter vendido isto (...) há muito tempo. Agora é que pôs aí os escritos mas nem sei quanto elas pedem por isto. Aquilo não hão-de pedir pouco. (...) Dentro da razão, quero eu ficar com ela. Mas se a casita fosse maior, eu, é claro, tinha aquelas maquinetas, tinha-as aqui e, enfim, aquilo, tinha tudo mais a jeito. Assim, tenho ali no meu rés-do-chão, enfim, para me safar. E então assim é que é a vida.
AAL36
INF A carroça é uma coisa e o carro é outra. (...) INQ Pois, como é, como é que é a diferença entre uma e outra? INF A diferença é o seguinte: quer-se dizer, a carroça tem dois varais, que é para o bicho entrar (...) no meio dos varais; e o outro, quer dizer, (...) tem uma vara, quer dizer... INQ Uma vara ao meio. INF Uma vara ao meio, que é para o bicho, um de cada lado. Pois. INQ E é para muares na mesma, o carro, ou é para bois? INF Não. O carro de vacas. Carro (...) para gado vacum, para vacas, exactamente. Aqui, costuma-se a dizer o carro para bois. Mas não. É para vacas, INQ Pois. INF porque, é claro, as vacas, é claro, dão as crias e, então o pessoal, quer-se dizer, tem mais vantagem nisso. INQ Pois. INF (...) E enfim. Mas isso, pouco. Há aí - que estão aí muito aqui em volta - uns três ou quatro carros desses. Enfim, os homens lá vão ainda, porque não têm tractores. E então hoje a coisa, estarem a pagar, eles tendem as coisas em casa, fazem a toda a hora, quando querem. Vão fazendo o serviço com um macho, com mais pausa. INQ Pois. INF E não estão a pagar aos outros.
AAL37
INQ Fica tudo em pau? INF Tudo, tudo em madeira. INQ Tudo em, tudo em madeira? INF Tudo em madeira. INQ Menos isto, aqui assim, que é ferragem. INF (...) Só aqui esta roda é que tem o arco em ferro e a roda. INQ Como, como é um bocado parecido com a charrua. INF Exactamente. Isso mesmo. (...) Isso faz-se aí muito até. Isso ainda se faz aí muito. Sim senhor. INQ Pois. INF Porque aquilo, é claro, as pessoas têm vantagem. Aquilo tem assim o animal... Tem vantagem por isto: quer dizer, (...) para fazer assim um rego, uma coisa, a charrua não é tão prático (...) como aquilo. E então, quer dizer, para limpar assim um rego ou emarjar assim terra (...) para géneros, assim para feijão, para essas coisas assim, para milho, e então isto, dizem eles que dá resultado.
AAL38
INF Agora, é claro, tem que se andar sempre ao mais económico, porque, enfim, as pessoas, coitados, (...) não dá a conta. (...) INQ Claro. Olhe, então, outra coisa. INF Diga, minha senhora . INQ O arado, depois, vai prender aonde? O temão do arado vai prender aonde? INF Vai prender à canga. (...) INQ Que é o senhor também que faz, as cangas? INF Exactamente. Se, por acaso, é de vacas, a canga é assim, minha senhora. Olhe, a canga é assim, se é de vacas, ou seja, de bois. Hum? Leva aqui o argolão, aqui ao meio. (...) INQ O argolão é de quê? De ferro? INF (...) O argolão é de ferro. (...) Isto é tudo em madeira. E então leva um argolão... Um argolão, suponhamos (...) que é isto.
AAL39
INQ O tendal, portanto, os tendais, à frente e atrás, não tinham uma, uma peça qualquer que fazia força? INF Ah! Então, isso é a ponte. (...) É a ponte. INQ A ponte. INF Chama-se uma ponte, (...) uma ponte. Lá em cima, tenho tem . (...) Quer dizer, é uma ponte... É uma peça de madeira com uma pequena queda . (...) Mas o carro, praticamente, não tinha. A carroça, sim. O carro não tinha isso. Porque, é claro, (...) o carro para carregar lenha e tudo e aquilo, às duas por três, dava origem partir. Bem, aqui, havia - onde eu trabalhei muito ano, ali, uns vinte anos ou vinte e dois, ou o que foi for - e todos os carros que eu ali fazia, tudo levava essa ponte. Mas esses carros acartavam assim muito era assim mais à base de sacaria. E então quer-se dizer, usavam então a ponte, aquela ponte. INQ Pois, pois. INF E então, é claro, um carro ou carroça sem ponte não sei o que parece. Descompõe. INQ Pois, pois. INF Pois. (...) Até, por acaso, abalou ontem daí um serviço. E queria ele que lhe eu fizesse (...) uma ponte em ferro. E eu digo assim: "Eh pá, então a carroça é quase tudo novo; então e vai agora a carroça em ferro ou a ponte em ferro? (...) Isso não fica bem". E fiz-lhe em madeira. E o homem: "Ai, olhe que realmente é bonito, e tal". Digo assim: "Pronto, então homem , pois eu (...) não dizia"? E compõe muito mais, INQ Pois. INF porque, é claro, uma coisa puxa a outra. Porque ou há-de ser ferro ou há-de ser madeira. INQ Claro. INF Pois. E assim é que é.
AAL40
INF Por exemplos, (...) está o limão. O limão é, suponhamos, esta peça. Isto é o limão. Isto é a taleira. E isto são as travessas. Leva quatro travessas. (...) O limão fica aí com um metro e... Sendo carro, fica com dois metros e vinte. E sendo carroça, fica com um metro e sessenta. É uma diferença muito grande.
AAL41
INF E isto é o contra-limão, o contra-limão, que é isto - leva aqui uns parafusos - que vem prender ao limão. Que o limão é isto tudo, não é verdade? INQ Pois, pois, pois. INF Pois. Vem prender ao limão. E então, quer dizer, aqui, já se sabe, isto é o contra-limão, que isso não há carro nenhum que não possa (...) ... Tem que levar aquilo. INQ Tem que ter. INF Pois. (...) INQ Mas não há uns carros que são, que é, que isto é uma peça inteira? INF Bem, isso era a carreta, minha senhora. INQ Para aqui nunca fazia? Ah, a carreta é que... INF (...) A carreta é que esse limão, esse limão é inteiriço. INQ Ah. INF (...) Por exemplo, a carreta até, por acaso, é assim uma coisa que está mesmo bem (...) . Isto é o limão da carreta. INQ Ah. Portanto, na carreta só há, só havia limão. INF Exactamente. Só um limão. Leva aqui a taleira à mesma. Leva as travessas, mas, quer dizer, isto é muito diferente. (...) Isto são toros , uns madeiros muito valentes que leva, umas peças valentes. INQ Pois. INF Porque, é claro, é o eucalipto ou o carvalho, bem, (...) qualidades de madeiras diferentes, não é? (...) E a carreta então, quer dizer, é diferente o leito da carreta. Portanto, o carro é muito mais largo do que a carreta. Porque a carreta, (...) a roda trabalha aqui, assim. O eixo anda aqui à face. E o carro, sendo assim, o limão é largo. Isto é o contra-limão. (...) Esta base toda sai para fora. Ajuda a alargar o carro. INQ Ah. INF Portanto, as carretas eram mais estreitas. INQ Mais estreitinhas. INF Era uma coisa... Porque é claro, uma coisa ao antigo, pois. E então tem essa coisa, quer dizer, diferente (...) do que sendo o carro para a carreta. Faz (...) essa diferença. INQ Pois.
AAL42
INF O próprio eixo das carretas essas antigas... Que eu lembro-me disso, ainda. Mal é, mas ainda me lembro. Ainda vi algumas três ou quatro carretas dessas aí a trabalhar. E então o eixo, por exemplo, era isto; suponhamos que era isto, o eixo. E; então isto aqui é (...) o batente. O eixo vinha assim. Vinha assim. Vinha assim aspirado à ponta. Tudo em madeira. E então, quer dizer, era assim uma parte (...) aguda, mas aquilo era um madeiro enorme. E então, quer dizer, isto metia na roda. (...) E assim é que é, mas aquilo era um chiadeiro enorme. Quer dizer, era assim aspirado que era por causa de ter aqui grossura para se aguentar. Mas em depois, aquilo era, é claro, (...) era preciso andar-lhe sempre a deitar toucinho. E até (...) os homenzitos trabalhavam com os carros e diziam: " O amaldiçoado carro come mais toucinho do que eu"! E então os gajos, volta e meia, não se queria saber do chiadeiro: "Deixa chiar para aí, que o raio que partem o carro"! E assim é que era.
AAL43
INQ Portanto, com esse copo... Isso é mais antigo do que o, a...? INF Não, o copo é mais... Bem, mais antigo, ele isto... Sabe a vantagem que há, a diferença que há? Porque todo este que é torneado, minha senhora, que é torneado ao torno, os gajos aplicam o copo. E todo esse que é feito à mão, quer dizer, já (...) não aplicam o copo. INQ Não aplicam o copo. Já aplicavam outra... INF Não, quer dizer, porque tem que ser a coisa mais prática, não é? INQ Claro. INF E então fazem um furo aqui no eixo. E então aquilo, então, fazem aquela chaveta que é para a segurança (...) da bucha.
AAL44
INF A gente, às vezes, está aí a ferrar (...) as rodas, ou porque o dia não se presta, ou porque a lenha é ruim, ou porque o ferro não aquece aquilo que faz falta, vai duas e três vezes ao lume. Aquilo é um problema. Farta-se a gente aí de fazer força, mas enfim. Agora (...) já a gente vai levando assim a coisa (...) assim com aquela calma. Não está assim com tanta pressa. E então já dá mais tempo (...) a que elas estejam ali no lume, para virem bem vermelhas, bem quentes, que é por causa de enfim... (...) INQ Mas o senhor tem que sempre fazer isso acompanhado com alguém, não é? INF Sempre. Pelo menos duas, três pessoas. Três pessoas. INQ Pois, para uns irem rodar. INF Quando são assim rodas novas, tem têm que ser três pessoas. Agora, por exemplo, como esta, (...) só duas pessoas chegam. Por exemplo, já está aqui o ferro, já está a (...) obedecer já à madeira, não é? E, então, INQ Pois. INF quer dizer... Até por acaso esta, eu (...) o que hei-de fazer (...) é tirar a (.../N) , que é porque a copa voltou ao contrário. Porque esta copa, (...) o que tem para trás tem que vir para a frente. Tenho que a meter numa prensa que ali tenho, que aquilo até também é importante . Está ali entalada, mas até, se fosse preciso, tirava-se. (...) É uma roda de ferro que assenta em cima (...) da burra. Em depois, vai esta roda para cima da roda de ferro. E vai em depois o fuso aquele. Apanha aqui a burra. Depois aperta-lhe o fuso valente. E então a gaja (...) tem que vir. Tira-se então aqui um bocado, aqui na circunferência da madeira, que, é claro, ela, como vem para a frente, é claro... E depois fecha, que é por causa deste bocado aqui, que é (...) para a roda tomar copa para fora. Porque se não tirar este bocado, quer dizer, se eu fosse a ferrar que não lhe tirasse este bocado, (...) ainda ficava pior que o que está.
AAL45
INF Chegam aí, coitados, (...) à rasca. Pronto, a pessoa sempre os desenrasca. (...) Olhe, até, por acaso, estive a acabar um serviço que é a carroça do Aleixo, que abalou há bocado - havia de ser aí umas dez horas. (...) E digo assim: "Então o tipo, daqui a nada, vem ver do serrote e não está"... Lá fui então a ver (...) , por causa dele, de lhe ser agradável. Mas , é claro... Até porque é interessante: o homem nem tem carroça, nem coisa nenhuma; ele nem é cá freguês. Mas só para lhe ser agradável... Enfim, a gente costuma-se a dizer: "do bem vem tudo".
AAL46
INF Passa-se-me cada uma também interessante. Chega-me aí um senhor a rogar-me parafusos e fusos de carroça. Digo: "Olha, então isso está já agora por aí acabado. Como é que é"? Mas o senhor era tão delicado! Que era (...) da Ponte de Sôr. E o homem diz assim: " Oh diacho, então venho cá acima (...) e o senhor não me fica com coisa nenhuma"? e tal. Digo-lhe Digo : "Ouça lá, então o senhor mande-me lá vir (...) uma caixa (...) de fusos", e tal. E diz o homem assim: "Sim senhora, isso é já". Bem, é já, mas aquilo veio mais depressa que o que eu julgava. Manda-me aquilo pelo Caminho de Ferro. (...) Uma caixa tão pequena! Mas nunca calculei que o homem que... E ainda fui ali algumas duas vezes à Central procurar (...) por a encomenda - (...) por a encomenda dos fusos. Afinal, dá-se o caso... E dizia-me assim (...) o homem da Central: "Não, não há lá nada, amigo Albino, não há lá nada". (...) Ele não há lá nada, mas havia! Paguei cento e setenta escudos (...) de estar lá uma coisa tão pequena, uma caixinha assim, de estar lá só, parece-me, cinco ou seis dias. Digo assim: "Olha já me abala . Jurei de nunca mais"! (...) Têm custado a gastar. Eu vou-os gastando assim, agora...
AAL47
INF1 Isto é que lhe eu chamo a apara (...) e isto é já a fita. Isto é a fita, por exemplo, que sai (...) da garlopa, ou seja, do rebote. Portanto, cá está a fita. Isto (...) já se não pode chamar apara. Porque isto não é apara; isto é fita. INQ Pois. Pois, pois. Claro. INF1 Pois, exactamente. Porque é claro... Eu encontro assim, não sei. Além de falar um bocado à alentejano, mas, é claro, encontro cá a à maneira assim. INF2 Eu também acho. (...)
AAL48
INQ E o que é o caruncho? INF Ai, o caruncho é a madeira que apanha humidade, minha senhora. Quer-se dizer, eu , por exemplo, lá tenho umas tábuas, que é para fazer um rebote reboque , e aquelas tábuas, quer dizer, estão assim em cima umas das outras. Não estão bem secas. E então estão assim em cima umas das outras, mas elas não deviam de estar assim. Havia de estar, por exemplo, um sarrafo aqui, outro aqui assim, (...) e ir colocando, fazendo este trabalho para entrar o ar, INQ Ah, Ah! Pois. INF para não criar o caruncho. (...) A madeira assim toma aquela humidade, e aquele caruncho nunca mais sai. Fica a madeira estragada. INQ Pois. INF Quer dizer, fica carunchosa, uma coisa assim... E arde . Tira a resistência à madeira. Tira, exactamente, tira. Porque (...) o ar é que é que seca a madeira. O ar é que é que seca a madeira. E então é assim.
AAL49
INF Exactamente. INQ Olhe, e como é que se chama aquele sítio onde se, onde se põe os pés na escada? INF Ai, aquilo são os degraus, minha senhora. INQ Chamam-se sempre degraus? INF Degraus, sim senhora. INQ Nunca ouviu chamar outra coisa, aqui nesta zona? INF (...) Não. (...) É o degrau, é o degrau da escada. Está (...) o degrau redondo que é essa escada (...) de se colher azeitonas... Não é verdade? INQ Pois, também é degrau? INF (...) E está esta escada assim... Quer-se Quer dizer, tem o degrau, quer dizer, (...) o degrau largo já. Não é? Há até ainda mais largo do que isto. Isto fi-la eu - porque (...) a escada que estava aí era de pinho -, isto, duns bocados de castanho, dessas madeiras velhas que, às vezes, trazem aí para ir queimar. E fiz então esta escada em castanho. Pronto, já não voltou o bicho. Isto, deu-lhe aqui estes buracos, (...) isto foi a madeira que esteve com a casca. Mas daí já não passa. INQ Claro. INF Já nunca dá; o castanho nunca dá mais o bicho.
AAL50
INQ1 E antigamente, para acartar pedra, não havia umas coisas que se arrastavam pelo chão? INF1 Ah, isso são os arrastões. (...) Isso é assim. (...) Isso é um arrastão. É um arrastão... Quer dizer, é assim neste processo. Olhe. Compreende? Suponhamos isto. INQ1 Pois. INF1 Hum? E então isto tem aqui assim uma argola. Ou seja, com uns arames faziam aqui um furo. E então, punham aqui as pedras. INF2 E arrastavam. É verdade. INF1 E então, punham ali uma junta. E então, aquilo levava ali aqueles coisos; os paus é que (...) ia arrastando aquilo. Chamam-se arrastões aquilo, que é uma coisa de arrastar... INQ2 Pois. INQ1 Nunca se chama zorra, por aqui? INF1 Não, não. Eu cá no meu ver... (...) Está uma outra coisa, mais tarde, que em depois deu em haver, uma zorra com as rodas muita baixinhas INQ2 É. INF1 para carregar aquelas grandes pedras, com as rodas assim... Olhe, ainda não há muito tempo que arranjei uma, uma zorra, ali (...) para a Aline, é verdade, com as rodas muito baixinhas. Digo: "És zorra e bem zorra". Então, pois! Ah, ah! Deu-me um trabalho aí a forrar as boas das rodas. Digo assim: "Eh pá, vocês com a falta ... Muita zorra para ali há, ainda"!
AAL51
INF1 Como aqui nesta área... (...) Só está aí um em Alpalhão. E pronto, é o mais próximo, o mais, pronto. Em falandem no Albino carpinteiro das carroças, pronto, deixa que toda a gente (...) vai ter com ele. É assim. INF2 Não há outro, se calhar.
AAL52
INF E ele é que foi a origem (...) de arranjarem aqui (...) esta vila. Isto é uma vila. INQ Pois. INF E então, pôs-lhe ele, um dia que esteve cá, e quando... Ele, mataram-no (...) quando daqui abalou. Em Portalegre é que o mataram. Este. Esta estátua (...) que ali está. E pôs a isto Castelo de Vide.
AAL53
INF E diz assim (...) então, o tal poeta: "Oiça cá, como é que é a sua graça"? - a sua graça, como era o seu nome. "Sou fraquelente", disse-lhe o tal carpinteiro. "Sou fraquelente". "Está bem. Então, ouça lá, ó senhor fraquelente, eu vou-lhe aqui (...) a pensar uns estudos à sua vida". "Ah, faz favor", e tal. "E o senhor será capaz de me responder, depois de eu dar os meus ditos, as minhas palavras"? "Ah, isso é que não sabemos. Não sei como o senhor fala. Agora em o senhor falando, pode ser que eu lhe saiba responder". "Bom, então vamos experimentar", o poeta dizia para o outro. E começou ele, então, o poeta - tome sentido agora: "O que faz um fraquelente de roda deste madeiro, empregando as tuas forças quase há um ano inteiro"?
AAL54
INF E depois, morreu a mãe. Morrendo a mãe, ficaram os dois, um que estava a casa do pai, do padrinho, e outro estava a casa (...) da mãe. (...) A rapariga é que estava a casa da mãe; o rapaz é que foi para casa do padrinho. E depois, pensou ele, pensaram eles os dois, depois que morreram o pai deles os dois, o pai e a mãe, ajuntaram-se ajuntarem-se os dois irmãos. O outro veio lá de casa do padrinho - o padrinho também faleceu, de qualquer maneira -, ajuntaram-se os dois. Estandem juntos os dois, lá pensaram eles a fazer o seguinte: a fazerem um assinado, (...) um assinado à maneira de um testamento, um assinado qualquer, para quando... Ele qualquer deles alguma vez havia de morrer. Ou um ou outro, não era? Até, por acaso, podia-se dar o caso de morrer morrerem no mesmo dia. Mas não, não se deu. Ora, não se dando, e morreu - e (...) lá fizeram e foi lá fazerem a tal escritura, assinada pelos dois -, morreu a rapariga primeiro. Ele, com o desgosto, lá foi ao acompanhamento (...) da irmã e tal e tal. Mas ela ficou lá e ele voltou. Pois, que ele ainda estava vivo, voltou.
AAL55
INF Vamos embora aí por esse mundo fora. Vamos embora, que isto, se ali vamos para a nossa vila, para a nossa terra, isso é aí um falatório medonho.
AAL56
INQ Quando há uma trovoada, como é que se chama aquela luz? INF A gente dá-lhe cá uns poucos de nomes. É um relâmpago, é uma faísca, é um corisco, é um raio, é... Enfim, diversos nomes. INQ Mas é tudo a mesma coisa? INF Ah, (...) há quem diga (...) que é diferente uma coisa da outra. Que há aí algumas que são diferentes. (...) Agora eu é que não sei se são diferentes nem se não são. INQ Mas o senhor diz de uma maneira quando aquilo cai em cima de uma casa ou em cima de uma árvore? INF Olha , lá caiu uma coisa ruim. INQ O que é que caiu? INF Uma coisa ruim: uma faísca. Pois. INQ E quando é só assim no céu? INF Oh, isso são os que não têm força para vir cá abaixo. INQ Também se chama faísca? INF Também. Pois bem, (...) abriu aquela coisa, além, num astro, mas não teve força e (...) ficou no meio. Apagou-se lá em cima.
AAL57
INQ1 Se a gente chegar lá assim com a mão, sem jeito, aquilo pica. INF Não pica. O do cravo não pica. INQ1 A rosa. INQ2 A rosa. INF (...) Algumas picam; há muitas que picam, mas há outras não. INQ1 Tem o quê? O que é que pica? INF (...) Têm uns picozinhos. Pois bem, (...) isso são poucas; há poucas as que têm isso esse ...
AAL58
INQ Ouça lá, onde é que os coelhos e assim esses bichos, onde é que eles costumam criar? INF Costumam a criar no chão. Fazem um buraco no chão, um buraco, e depois fazem lá a criação debaixo (...) e tapam. INQ Sim senhor. Olhe, e assim bichos como a raposa e isso, onde é que eles se metem? INF Isso, metem-se nos covis, ou (...) nesses canchos, (...) nesses pedregulhos, ou mesmo no meio do mato, onde queira que há muito mato (...) . INQ Pois. E esses... Está bem, mas costuma haver nesses sítios, por isso é que é muito difícil entrar lá dentro porque aquilo está cheio daquelas plantas todas cheias de picos. Como é que aquilo se chama? INF Não sei, não sei; eu não sei o que é, não sei. INQ Não conhece as silvas? INF Ah, então mas isso... Ai, (...) isso é também... Tem razão , (...) também dá uma coisa que se come, é verdade. Ora, mas então a gente! Estava muito longe (...) de eu agora explicar isso. INQ Eu estava-lhe a dizer que era brava. Aquilo não nasce aí em qualquer terreno que fica para ser cultivado? INF Pois. Pois é. Até a fazerem mal. E, às vezes, também fazem bem, sabe? INQ Pois. INF Pois. (...) Então, (...) há é que dizer que é a amora. É a amora que nasceu na ponta da silva. Deu a flor e depois deu a amora. E aquilo também se come. Ora, mas eu agora, ia lá agora (...) para as silvas!
AAL59
INQ Olhe, como é que se chama aquela pessoa que não vê? INF Será cego. Será assim que eu estou quase também, senhor. Eu também vejo muito mal! Eu, se soubesse ler, estas letras não era capaz de as ler. Não sei ler, mas se soubesse, isto (...) não era para mim já. Já vejo muito mal. Não vê, é a idade, também já é muita, homem! Um homem em tendo setenta e quatro anos, ou próximo dos setenta e cinco, já não há nada que não se lhe chegue.
AAL60
INQ O que é que estou a fazer? INF Agora está a chupar o cigarrão. INQ Como é que se chama isto? INF Isso é um cachimbo. Usa-se pouco já isso agora. Já se usa pouco. Mas isso não deve de fazer tanto mal (...) como a fumar o cigarro.
AAL61
INQ1 Olhe, como é que se chama aí uma terra que fica aí durante um ano sem ser trabalhada? INF Embraviada. INQ2 Como? INQ1 Não, mas é de propósito. INF Sendo de propósito, às vezes ou ele não há aí (...) quem a fabrique e depois a terra embraviou-se. INQ1 Não, mas quando se deixa uma terra de propósito para a terra descansar? INF Ah, então isso é a descansar. Está a terra a descansar para depois dar um produto melhor.
AAL62
INF Às vezes, até havia umas ervas do campo que a gente... Pois bem, a fome, às vezes era já muita, ia a gente... (...) Chamavam-lhe pialhos, pialhos duma coisa (...) ... Também se conhece por erva azeda. Ia a gente, comia aquilo e roía aquilo. Chegava-se a um ervilhal aonde havia haviam ervilhas - conhece o que são as ervilhas? -, era colher e toca de comer. Grãos e tudo. Hoje - então pois hoje! - (...) alguém faz essas coisas? Isso hoje já não; já ninguém... Hoje já ninguém trata (...) desse assunto. Ninguém, ninguém. Roubava-se muito. Desde que houvesse, por exemplo, uns figos ou uns cachos (...) ou (...) uns melões, umas melancias, roubava-se muito. Hoje, o pessoal não sei se anda mais abastecido e (...) não se frequenta qualquer coisa que se roube. Nem a uma vinha, nem a uns figos, nada; nada disso frequenta já. E noutro tempo, não escapava nada. Aquilo era, desde que a pessoa pudesse, figos e cerejas. Ai eu! Ainda levei algumas sovas! Ainda levei algumas sovas, (...) que me apanhavam às cerejas - doutra gente, está claro! Ora pois , tudo aquilo pertencia tudo ao mesmo, a haver fome.
AAL63
INQ1 Mas depois o que é que se tem de fazer às castanhas? Põem dentro de uns sacos e depois? INF Pois, e depois vai para dentro do secadeiro, essa que é seca. INQ1 O que é o secadeiro? INF (...) Um secadeiro é uma casa, uma casa com um sobrado, tudo aos buraquinhos, e faz-se um lume lá debaixo, para se secar. Está ali, por exemplo, dois meses ou assim... INQ2 Sempre com o lume por baixo? INF Sempre com o lume por baixo. No fim dos dois meses, está pronta (...) . Dantes, pisava-se. A gente ali com um cabaz, com um cesto assim redondo, botava-se para ali uma taleigada e toca de pular ali, dentro daquilo, para se tirar. Depois, aquilo moía-se, saía aquela moinha, a pele. Saía pelos buraquinhos (...) do cesto e ficava a castanha limpinha ali dentro do cesto. Pois. Era o trabalho que dava. Mas, hoje já não... INQ2 Mas essa castanha era guardada? INF (...) É guardada. (...) Fica também duns anos para os outros. Mas, quer dizer, em ficando duns anos para os outros, dá-lhe em dar um bichinho que lhe chamam a ponilha. Dá-lhe em dar aquele bichinho e a castanha parece que se põe assim um bocado descorada, põe-se assim um bocado diferente (...) da cor natural. Pois (...) . Mas há aí certa gente que sabem tratá-las. Quando é o fim dum ano, estão iguaizinhas às novas. Mas é preciso uns tratamentos. Os tratamentos é que não sei como são. Não sei o que lhe fazem. Mas fazem-lhe uns tratamentos quaisquer. Dão-lhe umas voltas, umas vezes para ali e depois para aqui. Dão-lhe aquelas voltinhas. Aquilo depois, por fim de tempos, por fim de um ano, rendem a mesma coisa que rendem as novas. E a vista é a mesma. Mas é preciso tratá-las. Se não as tratar, aquilo levam caminho. Pois, assim é que é.
AAL64
INF Estive a servir em dois patrões. De ambos os dois tinha cabras. E depois, estive num - foi onde estive primeiro -, primeiro, comecei a guardar os cochinos - porcos, com sua licença -, e depois passei a guardar cabras, mais tarde. E depois passei a trabalhar lá na casa: fazer serviço, tudo, a regar, a regar uma horta, ceifar, ceifar trigo... Topava àquilo que calhava; topava a tudo. E depois, dali mudei para outras. Estive então lá dois anos a guardar cabras. E depois, no fim dos dois anos, saí; vim-me embora. Comecei então a trabalhar assim no campo. A minha vida tem sido assim de limpeza de oliveiras... É o que eu tenho feito também mais é isso. Limpeza de oliveiras, podar; é o que tenho feito mais é isso.
AAL65
INQ1 E quando foi da guerra de Espanha, como é, aqui, aqui como é que era? INF1 (...) Nunca se aqui conheceu nada. INF2 Aqui nunca se conheceu nada. INF1 Ouvia a gente dizer "fazem isto, fazem aquilo", mas a gente, como nunca viu, pronto, (...) não sabe nem dizer. O que é que (...) quando era a à noite, a gente aqui, portinhas fechadas logo à noitinha, logo fechadinhas, à noitinha. INQ2 Mas porquê? INF1 Tinha a gente medo, não viesse (...) pessoal (...) que vinham fugidos, e que chegavam, por exemplo, aqui... Ou que queriam mal ou queriam que a gente lhe desse coito ou assim. E a gente não, pois bem, nem ninguém queria dar coito a essa gente. Pois claro, (...) era também contra, naturalmente, cá (...) à nossa nação (...) . Mas houve aí eu vejo que muita gente ainda aí que fugiram aí para baixo. A gente ouve dizer que fugiram para aí. Não se sabe se era é nem se não. O mais, nunca a gente ouviu dizer, aqui assim ... Nunca dizem mais nada, lá da guerra. Ouvia a gente dizer: "Hum, (...) houve aqui um combate, houve além, fizeram isto, fizeram aquilo".
AAL66
INQ1 Dantes havia aqui muitos contrabandistas, não havia? INF1 Havia muitos. Eu também ainda fui. INQ1 Também? INF1 Ainda. No tempo do azeite, também ainda fui. Mas eu fui pouco tempo. Ainda bem não, (...) acabou-se o dinheiro, acabou-se (...) o negócio. INQ1 Como é que era? Ia lá levar o azeite para lá? INF1 (...) Íamos levar aqui. Íamos buscar lá para cá. Pois. Íamos buscar ali, aonde lhe chamam as Hortas, Porto de Roque. Aí é que o íamos buscar, de noite, às escuras - noites muito escuras! INQ2 Então, e não tinham medo? INF1 Ora, medo!? Tínhamos medo mas era dos bonés, dos guardas. O mais, lá assim de medos, não tínhamos medo. Se apanhávamos aí cada molha aí por essas serras! Pois, era isso. INQ1 Mas ia um homem sozinho ou iam muitos? INF1 Íamos muitos; chegámos a ser cinquenta. INQ1 Todos juntos? INF Tudo enrabeirado uns atrás dos outros. Tudo! Aquilo parecia já só uma chibatada. Aqui se esbarrondava (...) uma pedra, além outra. Pois bem, a gente (...) por aqueles campos fora, por essas serras. INQ1 Passavam por sítios onde sabia que não havia guarda, não é? INF1 Pois. Ora, mas eles, ainda bem não, (...) lá chegavam ao pé da gente. Aquilo, ainda bem não, era uma derrota. INQ2 E o que é que faziam? INF Ora, tiravam-nos (...) os coiros. E corriam atrás da gente para nos apanharem. INQ1 Tiravam o quê? INF1 Os coiros, onde a gente trazia o azeite. INQ1 Dentro do quê? INF1 Dentro duns coiros. Com umas peles de cabra é que trazíamos o azeite. Pois, era umas coisas assim; eram as peles das cabras e depois preparavam-nas para a gente trazer o azeite. INQ1 Mas eram as peles inteiras ou era...? INF1 Pele inteira. Pois, era a pele inteira. Até mesmo propriamente nas patas. Até, por exemplo, assim ao meio da pata e depois eram atadas e vinha até mesmo (...) onde era a cabeça, também. Chamavam-lhe um coiro. Lá trazia a gente aquilo às costas. Pois. Ia a gente buscá-lo. INQ1 Compravam lá e vinham vender cá? INF1 Pois. INF2 Foi sempre na pobreza. INF1 Era o tempo da pobreza, naquele tempo (...) ... INF2 Por isso é que se chamava a pobreza. INF1 Pois, era o tempo da pobreza. Pois. (...) Foi só o contrabando que usei foi aquele. E foi pouco tempo. Foi aí só uma questão aí de dois meses, talvez. Pouco tempo. Ainda bem não, tiraram-nos os coiros, olha, acabou-se. Acabou-se o negócio.
AAL67
INQ Vai muitas vezes a Marvão? INF1 Agora, já há uns poucos de anos que não vou. Paga a gente as contribuiçõezitas, manda pelo correio. Aquilo, (...) custa-me muito a andar. Sabe? INF2 Pagar a forada. INF1 Custa-me muito a andar (...) ... Tenho uns defeitos. Sou quebrado, sabe? E depois, custa-me também assim a andar. E depois, dá a gente qualquer coisa ao correio e o homem faz lá isto tudo (...) muito bem, muito de boa vontade. É um correio, um homem muito fielzinho, e faz lá estas coisas. Ora, mas isto, pouca gente lá vai, a Marvão. Ah, muitas vezes tratar assim de outras vidas quaisquer, de outras coisas, lá vai.
AAL68
INF Um O marvanense fala precisamente como nós aqui falamos. Um O marvanense. Santo António das Areias fala precisamente como nós falamos. A parte norte do concelho, Beirã, é aqui como nós. INQ Que vai até, que vai até aonde, até Nisa, não? INF O quê? INQ Essa parte norte. INF (...) Essa parte norte chega até à Póvoa, um sítio chamado a Póvoa (...) . Pertence até a Castelo de Vide. A Póvoa é uma freguesia. É até aí. Mas esses já arrastam. Não é? Agora, a Escusa, sendo do mesmo concelho e da mesma freguesia, é que faz diferença o sotaque, a maneira de pronúncia (...) aqui da nossa. INQ Pois, e para sul? INF Para sul, também . Mas isso já pertence (...) ao concelho de Portalegre. Aqui São Julião.
AAL69
INQ Quando há ainda umas maiores, uma coisa ainda mais carregada do que a neblina, portanto, que nós, que se deixa de ver o sol, diz-se que está? INF (...) Já está o céu nublado. São nuvens: " (...) Hoje há nuvens; hoje está o céu nublado". Ele aqui nem se diz nublado. Eu cito-lhe até a palavra que aqui se emprega: " nuvrado". O pessoal aí, o corrente é: "Ah, o céu hoje está nuvrado; hoje está nuvrado".
AAL70
INF Eh, nós, é claro, as castanhas... Não havia comboio para Cacilhas, não é? E nós despachávamos a Santa Apolónia... Era acompanhada por um guarda-fiscal até ao o Terreiro do Paço e dali metia-se num barco e ia (...) para Cacilhas. INQ Mas os barcos que ligavam Lisboa a Cacilhas quais eram, eram aqueles à vela, era? INF Eram os cacilheiros, eram. Ainda hoje (...) . Hoje o que são é maiores, mas dantes eram uns barquitos pequenos. INQ Já havia, na altura? Mas a motor ou à vela? A motor? INF A motor. A motor. Isso, à vela, era raro (...) ... Às vezes, assim nos domingos, é que se juntava por aí (...) uma rapaziada e metiam-se num barco à vela para irem comer uma caldeirada à outra banda. Mas era quase sempre (...) um vapor.
AAL71
INF E nas noites de temporal, quando chovia muito e que a ribeira tomava água, eles atiravam com os barris para a ribeira e a ribeira trututututu. E quando passavam, passavam ali às portas, (...) ao Aqueduto das Águas Livres, não é? E a guarda não sabia se era o barril nem se era uma pedra que vinha a rebolar trazida pela enchente, por ali abaixo.
AAL72
INF Tanta coisa, tanta coisa que a gente viu. Depois Pois havia aí o Ferro de Engomar e eram Os Charquinhos e ele ainda havia um outro, que eu não me recordo (...) ... Parece-me que eram três restaurantes. E era para ali que vinha a estúrdia... A estúrdia de Lisboa era precisamente para esses, Quebra-Bilhas e companhia. (...) Ah, era o Ferro de Engomar. Havia um restaurante também ali em Benfica que era o Ferro de Engomar.
AAL73
INF Ora então, nós estávamos aqui em Portalegre e daqui fomos para Lisboa. Estivemos ali em Moscavide, à entrada de Lisboa, à espera (...) que aquilo houvesse a revolta, mas não houve. Aquilo ficou assim, sem efeito. Ficou sem fôlego.
AAL74
INQ Olhe, e quando está muito vento, como é que se diz? INF Cá no nosso sítio, é um 'andaval' de vento (...) . Ainda esta noite, ele passou um grande (...) ar de vento. Não sei se foi toda a gente que o ouviu, mas houve (...) uma hora ou hora e meia que foi uma grande 'andaval' de vento, esta noite.
AAL75
INQ Olhe, quando depois de chover aparece assim um arco... INF Chama-se cá na nossa terra, esse arco, um arco-de-velha. É um arco... Outros chamam-lhe um arco-celeste; outros chamam-lhe diversos nomes. Mas, cá no nosso sítio: "Olha, é um arco-de-velha; olha um arco-de-velha"! Aquele arco azul, não é? INQ Por que é que lhe chamam, por que é que se dá, chamam o arco-de-velha? INF Coisas que eu não compreendo. Não compreendo isso por que é que lhe chamam, se é por ser muito antigo (...) , se por que é. (...) Por isso é que eu não compreendo. Não lhe sei fazer essa explicação por que lhe chamam um arco-de-velha.
AAL76
INQ1 Veja lá se se lembra. Como é que é? Olhe, ali na, nas caleiras há muito. Há além a coisa aí na Escusa. INF Há cardos. Aquilo há cardos. INQ1 Não, mas é uma coisa que faz assim umas moitas. INF Ah é?! Então, eu conheço toda a erva do campo! INQ2 Às vezes se serve... INQ1 Aquilo não é uma erva, aquilo é maior que a erva. INQ2 Às vezes põem assim até para, para dividir uma, um campo de outro. Põem aquilo para as pessoas não passarem por ali, porque aquilo pica. INF O que põem ali para as pessoas não passarem umas por outras são balsas. São as balsas.
AAL77
INQ Olhe, e aquele, um que, que dizem que quando vai a voar que está a cantar, quando está parado, pára no ar para cantar? INF Um que Que pára no ar para cantar? Ora, o cuco, esse vai sempre a voar. INQ Pois. INF Mas isso é o milhafre - chama-se cá um milhafre - é que pára, aos bocadinhos.
AAL78
INF Há umas pousa-louras grandes, brancas. INQ Como é que é que se chama? INF Pousa-loura. Outros chamam-lhe outros nomes, mas a gente chama-lhe uma pousa-loura. INQ Que nomes é que lhe chamam mais? INF Ah, a gente é o nome que lhe dá é este. Mas há (...) quem lhe dê outros nomes. Quando são pequeninos, isto é uma boa-nova. Dizem: "Olha uma boa-nova", quando são pequeninos. Em sendo grandes, é uma pousa-loura grande.
AAL79
INQ Pessoas que vivem aqui nessas terras à volta, Nisa, Tolosa, Portalegre, quais são aquelas que têm uma maneira de falar diferente desta? INF Ah, então, são todos. Todos têm uma maneira (...) de falar diferente daqui de Alpalhão. INQ E assim parecido com Alpalhão não há nada? INF Parecido com Alpalhão, (...) que eu acho ache é Montalvão. Montalvão é que é assim um bocadinho parecido aqui com Alpalhão. Se houver aí houverem de falar mais mal, talvez seja sejam ainda eles, (...) os de Montalvão. INQ Parece-se muito com isto? INF Parece-se com isto. INQ Mas mais diferente daqui qual é? INF O mais diferente daqui? Deve de ser Nisa. Nisa deve de ser o mais diferente daqui. INQ Mais diferente que os de Portalegre? INF Mais diferente e bem mais. Bem, os de Portalegre falam melhor do que nós, não é? INQ Mas os senhores e os de Nisa compreendem-se perfeitamente? INF Ah, a gente compreende, pois. Isso Se A gente compreendemos ele bem.
AAL80
INF Olhe, eu, eu no campo andei pouco assim de noite, não é? Mas alguns chamam-lhe a estrela-boieira... Também há uma estrela... INQ Isso é a da manhã. INF Pois, uma estrela-boieira, que lhe chamam.
AAL81
INF Pois, (...) põe lá ali este figo ao sol para que se ele seque.
AAL82
INQ1 E como é que se chamam às pedras que há nas ribeiras e nos ribeiros para se passar de um sítio ao outro a pé? INF A pé? São passadeiras. INQ1 E aquelas pedras que há na, aos lados do, dos ribeiros e dos rios também, aquelas pedras muito redondas, como é que se chamam? INF São lages. INQ1 Aquelas assim, redondas, pequenas? INF Malhões. INQ2 Malhões? INF Sim senhora. INQ1 E aquelas pequenininhas, assim, que parecem umas batatas? INF Pois, essas é que são os malhõezinhos, que a gente lhe chama, não é? (...) São malhões pequeninos e os outros são malhões grandes.
AAL83
INF Bem, cá, o pastor em andando a guardar (...) as ovelhas, que leva ali para além umas poucas, dizem assim: "Ah, já se atalharam as ovelhas". É um atalho.
AAL84
INQ E aquilo que o padre tem na missa, como é faz, como é que se chama a isso? INF Isso é uma esquiloa. Isso parece-me que lhe dizem uma esquiloa, isso do padre.
AAL85
INQ1 Como é que se chamava aquela coisa assim inclinada para onde o leite, onde se, onde se fazia a massa? INF O parreirão. Um parreirão. INQ1 E aquela, aquele, aquela tábua que se punha em cima da, dos cinchos? Uma coisa para fazer peso, não era? INF (...) Por o Para o queijo grande, não é? Que lhe punham até uma pedra em cima... INQ2 Sim. INF Tinha um rabo. INQ2 Pois. INF (...) Eu não sei como se isso chamava. INQ1 Não sabe o que é a francela? INF (...) Isso! (...) Era isso. INQ1 Como é que é? INF Uma 'pracela' ou não sei quê, ou uma francela ou... Ele era qualquer coisa assim. A minha mãe toda a vida fez queijo. Mas eu já me não recordo.
AAL86
INF Pois, um rebanho de porcos chama-se (...) um rebanho de porcos, não é? INQ1 Ainda há bocado disse que se chamava uma...? INF Ou um povilhal. INQ1 Uma vara. INF Ou uma vara, pois, ou uma vara de porcos. (...) Em sendem muitos, já se lhe chama uma vara. INQ2 Olhe, e quem tem um porco em casa, como é que chama por ele, quando vai dar de comer? "Ah!...", como é que lhe, como é que tratam o porco? INF (...) É "ficáficáficáficá" é que lhe chamam. E os porcos sabem, não é? "Cá"! E vêm logo a correr para o pé da gente.
AAL87
INF O magarefe é o que vende a carne. INQ1 É o que vende a carne? INF É o que vende a carne é que se lhe chama magarefe. INQ2 O do talho? INF Do talho.
AAL88
INF Quem manda fazer casas agora, (...) são placas de cimento. Não levam estes barrotes. Quer dizer, (...) levam essas vigas assim (...) de cimento. E depois, fazem a placa. INQ E depois, aqui assim, leva outras atravessadas, mais fininhas? INF Pois, isso aí é o forro. Chama-lhe a gente o forro do telhado. INQ O forro é depois as tábuas para tapar. INF Por cima é o telhado, não é? E depois, leva um forro. Ou que seja placa de cimento, é placa de cimento, e que seja um forro, é as tábuas todas unidas umas às outras. INQ E como é que se chamam aquelas tábuas muito fininhas que depois se põem aqui para pôr as telhas em cima? INF É o forro. Chama-lhe a gente o forro, cá. INQ E o forro é feito de quê? INF De eucalipto ou de pinheiro. INQ Mas são tábuas grossas? Não são. INF Não. São assim estreitinhas. Assim. INQ Como é que se chamam essas tábuas estreitinhas? INF Isso agora não lhe sei dizer.
AAL89
INQ1 Olhe, às vezes, assim nos currais e isso, há uma coisa que corre, como é que se chama? INF Isso não sei como se chama. INQ2 Não tem esse fecho-pedreiro, aqui? INF Agora assim como aquele além, é o fecho-pedreiro. A minha tem tem ele tem-na . (...) INQ1 É aquele destas portas, aquele que desce. Mas há... INF Pois, ainda tem o que tem de cima. INQ1 Parecido com aquele, portanto, que corre assim numas coisas, mas que faz um corte ali. INF Esse não sei; esse não sei como é. INQ1 Não é o ferrolho? INF Então, mas ele um ferrolho não é assim. O ferrolho não é assim! Cá, um ferrolho é dum portão. Mas não é assim que se fecha! INQ1 Pois.
AAL90
INQ Eu quero que você...? INF "Feche a porta". (...) O meu gaiato, quando entra ou que sai, por causa de não entrarem as moscas é que eu digo: "Fecha a porta".
AAL91
INQ Os travesseiros estão dentro duma coisa branca... INF Pois estão. INQ Se é preciso mudar, fazem o quê? INF Então, é o chumaço. INQ Isso o chumaço é a parte de dentro. INF Pois. INQ Mas a parte de fora? INF A parte de fora é o travesseiro. INQ Aquilo que se põe, que se muda, que depois se vai lavar? INF É para fingir o travesseiro. (...) É o travesseiro. Chama-se a gente o travesseiro. É o travesseiro. INQ Não lhe chamam fronha? INF Não. As fronhas é as das travesseiras.
AAL92
INF Bom, a lua, às vezes, leva circo, não é? Diz a gente, (...) quando o circo é de perto: "circo de perto, água de longe"; (...) quando o circo é de longe: "circo de longe e água de perto". Um acto que a gente tem de dizer, cá , quando vê o circo da lua. INQ Portanto, o sol dá luz de dia, não é? INF Dá luz de do dia. INQ Mas a lua também dá outra luz que se chama como? INF Dá. O luar. INQ E além do, da lua e do sol, de noite, da lua, de, o que é que se vê de noite no céu? INF As estrelas. INQ Há uma que, que é a que aparece... INF É a estrela-da-manhã (...) e há a estrela... Bom, ele há várias estrelas, não é? INQ Então diga lá as que conhece. INF Conheço?! É por ouvir dizer! Conheço: há a estrela-popular; há a estrela-da-manhã; (...) há o sete-estrelas. Bem, ele há lugar que há (...) tanta estrela! INQ E que mais?
AAL93
INQ1 Então, aqui a primeira a aparecer de tarde é a estrela-popular, é? INF Eu julgo que sim. (...) Quem dorme no campo é que observa essas... Toda essa gente, os pastores, que ainda (...) sabem (...) quando é a Páscoa, de sete em sete anos, lá pelos estudos deles, esses é que conhecem as estrelas todas, porque não têm relógio. Não era a vida deles! INQ1 Olhe, e a, e no Verão vê-se assim a, a, no céu assim uma coisa branca, parece uma nuvem mas é de estrelas. Vê-se de noite. INF De noite, uma coisa branca? INQ2 É quando o céu... INQ1 Esbranquiçada. Parece uma nuvenzinha. INQ2 Quando a noite está toda limpa, a, a gente vê assim... INF (...) É o carreiro-de-santiago. INQ2 Mas espere. E há outra que estão assim, que são três, três estrelinhas juntas... Não dá um nome? INF Ele há o sete-estrelas; há o cacheiro. INQ2 Diga? INQ1 O quê? INF Cacheiro, não é? INQ1 Cacheiro? INQ1 Não sei qual é essa. INQ2 Como é que é o cacheiro? Sabe? INF Não sei explicar. (...) Eu de luz percebo pouco. É claro! INQ2 Nunca ouviu falar nas três-marias? INF Ah, as três-marias (...) ! É. É as três-marias! Eu já tenho 'ouvisto' falar (...) . É as três-marias, é. Então, (...) já tenho 'ouvisto' dizer muitas vezes isso (...) .
AAL94
INF1 Um barranco, (...) palavra que tenho 'ouvisto' dizer... INQ1 E um que é barranco assim? INF2 Eu não sei. INF1 Bom, isto é... Quando pode estar está uma lagoa e passar um carro e " (...) tal é o barranco que aqui está"! ou o atoleiro ou... INQ1 Depois é assim, é que fica muito a descer ou é que, a direito e depois está assim com, com água, lama? INF1 Ou que a gente vá (...) ... Que vá a descer ou que vá por um caminho manhoso: "Tal é (...) os barrancos que aqui estão"! Um caminho sendo ruim: "Tal é os barrancos que estão aqui nesse caminho"! INQ2 Barroca, o que é? INF1 Barroca? Barroca é... Às vezes, aí dumas hortas, estão as barrocas a correrem: "Tal é, está aqui uma barroca". INQ1 Isto... Mas como é? INF1 Diga? INQ1 Como é? INF1 É (...) uma coisa, (...) uma vala qualquer estreita com que corra água, chama-lhe a gente uma barroca. INQ1 Olhe, por exemplo, quando chovia, e o senhor saía lá para, para se abrigar, debaixo havia assim umas pedras, que o senhor metia-se lá debaixo, como é que chamava àquilo? INF1 Quando é que chove, que há pedras que a gente mete lá debaixo, chama-se (...) uma toca. Mas nós aqui temos... INQ1 É uma? INF1 Temos outro nome... INQ1 Também tem assim uma pedra... INF1 Uma lapa.
AAL95
INF Conheço a salva-brava. Conheço a pimpinela. Conheço erva-de-são-roberto. Conheço a das sete sangrias. Conheço a salva-brava. Bom, em ervas... (...) Erva-cidreira. Ah, ele há tanta qualidade de erva! Conheço a erva-das-sete-sangrias. Ele há muita qualidade de ervas que a gente... INQ Há aquela... Depois é ervas e... Macela, também conhece? INF Ah, conheço a marcela. INQ Olhe, e há uma outra que, que faz mal ao gado, quando, quando o gado come, até parecido com a... INF (...) Há uma que faz mal ao gado que não me lembra o nome dela. (...) É a tal erva, uma espécie de erva-dos-lagartos. (...) Ele dão-lhe outro nome - que faz muito mal ao gado, que está às vezes no meio do feno, que eles até têm medo de gadanhar aquele feno - mas é que eu não me lembro do o nome dessa erva, agora.
AAL96
INQ1 Olhe, e uma que dá umas baguinhas vermelhas todas juntinhas, assim um cachinho... INF1 Vermelhas? (...) Vermelhas quase encarnado? (...) É a gorra de travisco. INQ1 Como? INF1 (...) É o travisco. INQ1 Travisco. INF1 Umas baguinhas redondas. INQ1 Sim, mas em cachos? INF1 (...) Algumas têm cacho. (...) A flor até é branca. E quando dá, dá logo uma quantidade delas juntas. Nós aqui (...) é a baguinha. Pois. INF2 Também há uma que a gente vai (...) ... INQ1 E tem picos? INF1 A baguinha? INQ1 Tem picos? INF1 Ah, espere aí. Há outra que dá baguinha. (...) É o esfrunhador. Mas (...) que nome tem esse ? Então essa também tem baguinha encarnada. INQ1 Mas tem picos essa que a gente está a dizer... INF1 Tem picos, tem. (...) A gente aqui (...) chama-lhe o esfrunhador. Sei lá. INF2 Ah, é essa mesmo . INF1 Mas ele, ele tem outro nome. INQ1 Pilriteiro? Pilriteiro? Não. Nem conhece pilriteiro? INF1 Não conheço. Nós aquilo (...) é o que vai-se buscar para esfrunhar. Aquilo é o pau comprido, (...) e tem a folha sobre, (...) quer dizer, larga, e depois aguça e depois tem um bico ao cimo da folha. Picam, vá. Aqui é só o esfrunhador, o esfrunhador.
AAL97
INQ E aquelas árvores que estão aí perto dos rios, que têm assim os ramos a cair assim para dentro da água? INF Bom, isso próximo dos rios pode haver freixo, pode haver a faia, (...) pode haver o choupo. INQ Sim. INF (...) Há o amieiro. Ele há (...) ... Isso (...) é tudo árvores que estão à roda das ribeiras. INQ E o salgueiro? INF Há o salgueiro. Bom, o salgueiro, em geral, esse então, quase todas as ribeiras têm muita obra (...) do salgueiro. Esse não é plantado, esse nasce lá, na água . INQ Ai nasce? Os outros são todos plantados. INF Por exemplo, o freixo. (...) A faia, parece-me que essa também nasce.