UNS01
INQ1 E o homem que as guardava? Essa boiada? INF Chamavam-no boeiro das vacas. INQ2 O boeiro. INF Era o boeiro. INQ2 E os pastores das cabras e os pastores das ovelhas? INF É o que agora aí anda na serra. Olhem, em tempos, (...) metiam boeiros a guardar (...) as vacas. Chamavam-nos boeiros. Agora botam-nos à mata e vão para onde querem. Às vezes vêm aqui ter às manadas. Dão aí cabo do que cá há feito. INQ2 Pois é. INF Isso havia de ser... Isso havia de ser proibido! INQ2 Pois. INQ1 Claro. INF Ou porem-lhe um pastor. INQ2 Pois claro. INF Porem-lhe um boeiro. INQ2 Agora já não há, não há boeiros? INF Não há. Não há. Não... Ninguém... INQ2 Põem as ca-, as ove-... Põem as vacas lá para cima? INF Botam-nas à mata para a serra e para lá andam. Os senhores se forem lá em cima onde chamamos (...) a Torre e ali a serra, vê lá mais de trezentos ou quatrocentos bezerros por aí afora. INQ2 Sozinhos? INF Sozinhos. INQ1 Pois. Mas o senhor disse que elas estavam na mata e depois que vinham ter às manadas... INF Vêm aqui ter às manadas ao terreiro. Falta-lhe lá a comida, vêm à pergunta dela. A mim, aqui, têm-me eles dado, de Inverno, bastante prejuízo. INQ1 O que são as manadas? INF É manadas de bezerros. Os bezerros. INQ2 Os bezerros, não é uma boiada? INF Não é? É, é uma boiada de bezerros. (...) Chamam manadas e chamam boiada. INQ2 Boiada. INF " (...) É uma boiada de bezerros que aí vem! Vem dar prejuízo"! (...) O outro ano até aqui as hortas comeram, e couves, e tudo. E a gente ainda os vai avisar, ainda ameaçam para bater. Está a ver como anda isto? É assim.
UNS02
INQ1 Não tinham um rapazito mais novo que ajudava a?... INF Às vezes levavam. Quando eram muitas, tinham que levar um ou dois. E um só (...) não lhe dava volta. Agora quando tinha poucas, aí cinquenta ovelhas, cem, ou cento e cinquenta, um só manobra. INQ1 Um só manobra? E esse rapazito, como é que chamavam a esse rapazito que ia ajudar? INF Ajuda. É ajuda (...) do pastor. INQ1 É ajuda do pastor? INF É ajuda. INQ2 Portanto, eu posso dizer que aqui em Unhais era uma terra onde havia... Não havia só um pastor, havia muitos?... INF Não. Havia diversos, havia muitos. Então... INQ2 Muitos quê? INF Muito pastor. E (...) muito criador (...) de cabras e de ovelhas. Mas mais de cabras. Olhe, só aqui havia mais alguns oito ou dez, só aqui com cabradas, olhe, aqui metidas nestes palheiros. Iam para a serra. INQ2 Então, qual é a diferença entre o pastor e o criador? INF O criador (...) é o dono (...) das cabras. INQ2 O dono. Não ia com elas para cima? INF O dono, às vezes, quando não (...) havia pastor, ia ele, ia o dono. Ou quando não tinha posses para pagar ao pastor, guardava-as o dono. INQ1 Pois. INF Logo nós éramos os donos da cabrada. INQ2 Pois. INF Que eu tinha mais irmãos, éramos alguns quatro ou cinco irmãos, o meu pai tinha uma cabrada de cento e cinquenta cabras. Era sempre o que tínhamos. Tínhamos em cima (...) , detrás daquele cabeço – temos lá uma propriedade –, tínhamos lá essa cabrada. Tínhamos ali a cento... Sempre uma cabrada grande! Era sempre! (...) INQ2 Eu posso... Diga. Eu posso dizer que o senhor e os seus irmãos eram todos quê? Eram todos?... INF Todos trabalhadores do campo e guardaram (...) as cabras. Ora ia eu, ora ia um irmão meu, ora...
UNS03
INQ1 Então e isto aqui que pica muito? INF São silvas. E urtigas, olhe. Isto morde. Isto morde muito (...) ... INQ1 Já me morderam aqui nas pernas. INF São urtigas. É, é. Isso mordem muito. INQ1 Então e só há urtigas destas que mordem? Não há umas que não mordem? INF Não. As urtigas mordem todas. INQ1 Mordem todas. INF Todas. Todas elas mordem. (...) Isto é tudo urtigas, olhe. Isto. INQ1 Pois, pois. INF E isto, olhe. Mordem. INQ1 Olhe, e o que é que está ali, ao, ao meio? Aqui, esta planta que sai aqui fora? INQ2 Eu mostro. Esta? INF Fetos. INQ1 E para que é que serve os fetos? INF Os fetos, roçam-nos para estrume. INQ1 Só para estrume? INF Cortam-nos para o mato, para estrume. INQ2 Senhor Délio, era esta que dá a folha assim e dá isto para cima? INF Esta, esta que dá esta folha, vou agora ver... Deixe lá ver a outra. INQ1 Dá a outra, João. INF Isto quer ver? INQ1 Ai! Olha, lá me está ela a morder! INF Olhe que isso mordem. Mordem. INQ1 Morde mesmo! INF Mordem. Dizem que fazem bem ao reumático, mas a mim não me fazem bem. INQ2 É... Acho que essa é que é a tal leituga que a gente fala... INQ1 Espera aí, deixa lá ver. INF Vê! Está a ver? Esta já é outra qualidade que não é essa. INQ1 Mas é leituga?... INF Também é leituga. Também. Também é leituga. INQ1 Essa também é leituga? INF Agora os leitugões é daqueles que têm (...) muita flor, que espigam para cima e tem por baixo as folhas pequeninas. INQ2 E o leitugão e esta leituga também dão uma bolinha branca que parece um pelozinho?... INF Dão, dão. É um pelozinho mesmo. Há-as por aí. Há aí muitas. INQ2 Pois. INF Há-as por aí muitas. INQ1 Sim senhora.
UNS04
INF Primeiro a gente faz a eira. INQ Rhum-rhum. INF Primeiro põe lá é o restolho na eira. Depois de ele actuar, rega; e depois passa-lhe – (...) chamamos um burro – uma giesta grande, com uma pedra de cima a arrastar, a compor os barranquinhos que fez a água na eira. E depois a gente só lá vai sovar com os pés; depois de bem sovada, varre-a; depois (...) de a varrer, amassa uma pouca de bosta das vacas numa poça, e corre-a com um vassouro de fetos para ficar aquilo tudo barrado, a eira toda barrada, que é para quando se malha o pão, não fazer areia, não ir o pão com areia. Depois (...) de ela barrada, (...) de seca, varre-se, estra-se o pão; depois de se estrar o pão na eira, vão então os homens e malham-no. Depois de o malharem, tiram a palha; depois de tirar a palha, varrem o pão. Acoanham o pão. Depois de acoanharem o pão, varrem o pão; e depois já erguem o pão; depois medem-no com meio alqueire para o saco. (...) É o trabalho da eira.
UNS05
INQ1 Vai ordenhar o?... INF1 Sim. INQ1 A vaca, a cabra? INF1 A cabra. INQ1 E que é que sai? Sai o?... INF1 Portanto, o leite. A gente traz para casa, coa-se, para tirar alguma impureza que venha, não é? INQ1 Rhum-rhum. INF1 Caso esteja muito frio, amorna-se um bocadinho, põe-se o coalho, espera-se ali uma hora, conforme o tempo e a quantidade de leite que (...) for. Depois tem-se (...) o acincho e a francela. A gente vai botando o (...) ... INF2 A coalhada. INF1 O leite em estando pronto, depois fica a coalhada. A gente vai botando, vai espremendo, vai espremendo, chegou a uma certa altura, vira, (...) acalca mais um pouco, bota-se sal. Há quem bote (...) logo dos dois lados; há quem bote dum lado e depois daí por um bocado bota do outro sal. Queijo feito! Prontinho a comer! INQ2 E a francela como é que é? É de madeira? INF1 Sim, sim, de madeira. É, é. INQ1 Mas é assim uma coisinha pequenina? INF1 É assim sobre o comprido e depois termina assim em bico. INQ1 Rhum-rhum. INQ2 Rhum-rhum. INF1 Termina em bico que é para o soro... Porque aquele líquido que sai da coalhada é soro; e então, para sair, está uma vasilha a aparar por baixo. INQ2 E o soro depois o que?... INF1 O soro, bom, há quem goste de comer; há quem aproveite para os animais, para os cães, para os porcos. INQ2 Rhum. INF1 E o de ovelha – acho que é de ovelha – dá para fazer requeijão. Mas tem que levar outro leite, não sei, acho que é de vaca. INQ2 Não, mas aqui não fazem?... INF1 Não tenho conhecimento. INQ2 Não? INF1 Porque praticamente (...) quem tinha mais gado era lá em baixo (...) a Quinta da Varge, e agora como não têm, não dou conta. Só sendo que comprem para fazer.
UNS06
INF1 Pois nós, na nossa casa, nós tínhamos... O meu pai que Deus tem levava as cabras para muito longe, para a serra. Para se acartar o leite era tudo às costas. Nós tínhamos um cantarão muito maior que aquele. E então, o meu irmão falecido, ele ajudava-me àquele cântaro de leite, (...) e nós, onde passava, transitava assim mais pouca gente, mas quando chegava ali – chamava-lhe aos Pesos da Presa –, aí então já estava sempre gente a passar. Eu, durante aquele caminho para cima, ele não passava ali ninguém, ele não me desajudava, porque se me desajudasse já me não ajudava. Às vezes vinha à rasca, à rasca com aquele cântaro cheio de leite! Quando chegava então ali àqueles Pesos, já então pousava porque já estava sempre gente a passar, já me ajudavam. INQ Pois, pois. INF1 Que aquele cântaro era muito grande! Os homens viam-se à rasca para lhe dar aguento . E eu, pronto, também o trazia mas aquilo era carga de mais para mim. INQ Pois. INF1 Mas pronto, lá vinha com ele, à rasca, à rasca. Quando então ali chegava àqueles Pesos, pousava, lá estava um pouco a descansar. Depois logo passava gente para me ajudar, lá então trazia o leite. Mas era tudo às costas, não era como agora! INF2 Assim como aqui, lá de cima... INF1 Agora já, pronto, já há burros, já há cavalos, já há, prontos, já há estes animais. INQ Pois. Claro. INF1 Já transportam.
UNS07
INF1 Na antiga lei, quase tinha tudo cabras. Olhe, aqui neste bairro: eu (...) fui aqui nascida e cá fui criada (...) e cá estou ainda hoje. INF2 Já me lembra de fazerem a Penteadora. INQ1 Pois. INF2 Ali. INQ2 Aquela fábrica? INF2 Aquela fábrica. INF1 Tudo tinha cabras. Ali era tudo a eito. Tudo tinha cabras! (...) E uma vez... Não havia assim muitos lobos, (...) não era como agora. Agora botam o gado à malta e, felizmente, (...) não há nada. INF2 Então olhe lá... INF1 Só se houver assim cães bravos e assim, é que vão atacar. INQ1 Pois. INF1 Mas naquele tempo havia muito lobo. E eles então, uma época, um malandro dum lobo, deu conta da cabrada ao meu pai, levava-lhe tudo a eito. INQ1 Ah! INF1 Olhe, era ali – pronto, os senhores não sabem –, ali da ribeira de Estrela, dos Pesos da Presa até aqui à Fonte Segunda, já aqui perto da casa do senhor doutor Demócrito, era até aí. Olhe, passavam (...) as do vizinho, não lhe mexia; passava outro, não lhe mexia; vinham as nossas no meio – pumba! –, tinham que apanhar. É como é que se conhecia já pelos chocalhos – chamava-lhe a gente a louça –, era como é que já se conheciam. Tinham que esperar ali, bumba! Olhe, já era preciso (...) duas pessoas para passarem as cabras. Se o meu irmão ia com elas, o meu pai tinha que o lá ir esperar. INQ1 Pois. INF1 Se o meu pai ia com elas, o meu irmão tinha de o lá ir esperar. Pronto! (...) Se viesse o gado sozinho, se o pastor viesse de trás, avançavam diante; se o pastor viesse diante, avançavam de trás. De maneira que levou-nos ali muita cabra, mas muita cabra! Olhe, um belo dia, vinha lá o meu pai, vinha lá o meu irmão, mas traziam lá uma coxa, ficou para trás – já aqui perto, aqui das Termas! Ficou para trás. Olhe, quando foi de manhã, foi o meu pai com elas – o meu irmão foi ao mato – encontrou... INF2 O mato é isto. INF1 Encontrou assim no caminho, donde a agarraram, lá tudo. Disse assim : "Então que raio! (...) Já sei. Foi a cabra que o Demétrio ficou para trás e apanharam". Mas como era muito grande, ele andava refeito, não a comeu toda. Não a comeu, foi enterrar: aqui enterrou um bocado, além enterrou outro, além enterrou outro, tinha-a assim enterrada. O meu pai andou a ver, disse assim: "Isto não pode ser! Então fico sem nada! Leva-me a cabrada! Realmente são muitas mas leva-me a cabrada". O meu irmão tinha ido (...) ao mato, e eu digo-lhe assim: "Ó Demóstenes, olha hoje não vais mais ao mato". "Então porquê"? "Então os lobos (...) ainda nos agarraram a cabra coxa"! "Não me digas"? "Então tu não 'vistes' em baixo, à Fonte Segunda, que está lá"?! "Oh, não reparei"! "Olha, tem um bocado enterrado em tal lado, em tal lado", lá lhe estive a dizer. "E tu agora botas o molho do mato na loja e vais ver se arranjas um bocado de veneno, porque isto (...) não pode ser"! Meu irmão então assim fez. Disse-lhe: "Olha, se cá não arranjares, vais ao Paúl"! Cá, (...) antigamente, não havia farmácia! INQ1 Pois. INF1 Nem agora mesmo vendem aquilo, vá lá. Lá foi então à primeira casa, que era uma loja que havia, um barbeiro que aí havia, esteve-lhe a contar, logo lhe arranjou. Ele veio para cima, foi ter com o meu pai: "Já arranjei"! Olhe, não queira saber: à noite, tiveram que avisar os pastores todos para fecharem os cães, porque era um perigo! INQ1 Pois. INF1 Lá avisaram... Lá fecharam os cães. Fizeram então assim umas postazinhas, arranjaram uns casquinhos dumas telhas, abriram então aquelas postas e meteram-lhe então o veneno no meio; e então em volta das telhas, botaram-lhe uns bocadinhos de carne, que era para ele ir comendo aqueles bocadinhos para chegar ao da telha. Pronto! Os pastores lá fecharam os cães, eles arranjaram aquilo. Ao outro dia de manhã, o meu pai e ele (...) alevantaram-se até eram quatro horas, mais um vizinho que aí estava, e foram então para ir ver daquilo, se ele tinha comido ou não, para levantarem, para esconderem, por causa dos cães. Eles então, o primeiro sítio donde foram, faltava então uma postazinha (...) na telha. Mas estava ao lado. Mas (...) um bocachinho! E diz o meu pai: "Não veio cá. Isto foi rata que aí veio"... E estava uma açude perto. "Isto foi rata, caiu para a açude"! Pronto! Tornaram a avisar os pastores para fecharem os cães esse dia. Lá tornaram a fechar os cães, tornaram a pôr o veneno. (...) À noite, estávamos então – chamava a gente ordenhar as cabras – lá para essa dita lata. (...) A gente chamava-lhe uma caldeira. Era uma caldeira grande. Era assim ali ao pé do infantário que hoje temos. E quando lá vínhamos – eu também lá vinha; (...) vinha lá eu, vinha lá o meu pai e vinha lá o meu irmão –, quando chegáramos assim (...) à estrada, começam dali a chamar: "Ó Demóstenes! Ó tio Deobaldo"! "Então quem é que está a chamar"? Eram então outros pastores que ali iam e disseram assim: "Olhe, o lobo está morto no Tapado" –, que era aqui para cima. "O lobo está morto no Tapado". Olhe, não queira saber: o meu pai largou logo a lata, e foi assim: "Pronto! Levai o leite para casa. Vinde em baixo ter com uma broa e com um queijo fresco para comerem"! Pronto, assim foi. Lá foram levar o queijo fresco (...) e a broa. Então juntou-se o meu irmão mais uns pastores e foram-no buscar aqui para o povo. Ai, não queira saber: o lombo dele era isto! Ai que grande bicho, ele metia medo! Lá o trouxeram (...) . Pousaram-no ali assim em frente daquelas casas, ali naquele largozito – que a gente morava ali –, trouxeram-no, puseram-no ali... Ai! Estava morto mas toda a gente afastava dele. E depois dormiu então ali (...) num quintal. Os cães então em toda a noite sempre lá a ladrarem, a ladrarem, nem deixaram ali dormir ninguém. INF3 Era bicho bravo! INQ1 Claro. INF1 De manhã depois o meu pai levou-o lá para baixo para em frente da igreja, que estava lá um adro... INF2 E chegam muito de Verão. INF1 Estava lá um adro, penduraram-no lá, assim no adro, diz que toda a gente afastava dele. E era para o esfolarem. E depois (...) lá o Presidente da Junta, que não havia cá lugares, ou que fosse o regedor, para o meu pai: "O senhor vai esfolar o lobo, olhe: há galinhas na rua, cai uma pintinha de sangue, vai uma galinha, apanha; olhe, fica sujeito às consequências (...) que houver". O meu pai disse assim: "Se assim é, pronto! Vamos embora com ele para as moitas"! E depois lá o enterraram, lá se consumiu. Pronto! E por isso já foi (...) um descanso. INQ1 Pois claro. INF1 Realmente era preciso guardar porque havia mais e assim... INQ1 Claro. INF1 Era preciso guardar. Mas já não atacaram a cabrada como atacou ele naquela altura. INQ1 Pois.
UNS08
INF1 E a mim os lobos fizeram-me a meter (...) , com licença de vocês, com o cu atrás (...) – em cima, num prédio. Estava lá a dormir mais o meu pai e o meu irmão – que ainda aí está – e eu tive medo. Se não tivesse medo, dizia que não tive, mas tive medo. Estávamos lá a dormir e quando, lá pela noite adiante – a gente lá em cima deitava-se mais cedo que aqui –, lá pela noite adiante, começa o cão: "Ui, ui, ui, ui, ui, ui"! Acordaram-me: "Ó meu pai, andam aí os lobos". E diz ele assim: "Andam, andam"! Botaram-se-me ali às cabras na da Rosairinha – era um lameiro que lá estava... "Eu vou lá ver"! Então eu levanto-me, tranquilo... Eu ia desarmado, (...) e levanto-me, abro a porta (...) ... Quando eu abri a porta, ao mesmo tempo que abri a porta, saltaram para de cima do cão, que o cão que estava ali à porta. E o grande ladrão quando me vê a descer ali, em ceroulas, com a vela, quase que lhe parecia que eu que era alguma ovelha branca e deixa de morder o cão, direito a mim. E quando ele veio também é que eu tive medo. INQ Claro. INF1 Fico a meter ao cu atrás – ao cão já o traziam debaixo –, ao cu atrás, e disse: "Ó meu pai, acuda-me aqui"! Lá se levanta o meu pai e um irmão que eu ainda tenho – sim, ele éramos quatro, agora já somos só dois –, e lá vem o meu pai e meu irmão, e vimo-lo escapar aí (...) , aqui por este lado (...) do nascente. O cão esteve-se ali um pouco a confranger, rompeu por aí abaixo, saiu de lá com outro: um veio fazer frente à corte; e o outro andava lá com umas milhas , ou maçarocas, (...) ou figos, que havia lá naquele tempo. Mas a gente era: "Olha os ladrões"! Olha, aí diz o meu pai: "Olha que foram os que me ali deitaram às cabras, aqui na da Rosairinha. Deitaram-se ali às cabras e ele não levaram nem uma! Vá lá, ainda tive sorte"! Bom, deitáramos então, mas já estávamos ali muito tempo sem dormir, porque era lá na serra, já tínhamos dormido. E o cão estava sempre: "Oh, trrr-trrr"! INF2 Era um sinal. INF1 Porque era lá muito batido deles. INF2 Era um sinal. INF1 E uma bela altura, o cão dormiu. Nós depois quando lá não dormia ninguém, metíamos o cão lá no palheiro, para eles não lhe morderem. Mas certa altura não metêramos lá o cão, viéramos embora. Os ladrões foram lá, roeram a metade da porta e depois, com licença de vomecês, não puderam vingar no que lá viam, cagaram lá. INF2 Cagaram lá à porta. INF1 Cagaram lá à porta, lá estava uma merenda. E lá estava (...) a porta toda roída. Depois comprámos-lhe até uma folha de zinco, 'pusémos-a' lá, que lhe ainda lá há-de estar. Porque o nosso gado, o nosso e o desse ali, estava num ermo. INF2 Estava muito longe! INF1 Era muito longe. (...) De Verão e de Inverno lá estavam na serra. Só de lá vinham quando a neve era muita. E talvez os senhores vissem agora aqui há uns dois anos ou três, (...) os helicópteros a acartar as vacas INQ Sim, sim, sim. Claro, vi, vi! INF1 (...) da serra para baixo. INF2 Da serra para baixo. INF1 E agora tornam lá a andar.
UNS09
INF1 E só uma vez, a mim, levaram-me umas poucas de cabras, os lobos. Trazia lá o meu rapazito com elas e uma filha (...) que já está sepultada. E diz lá tu. INF2 Ela nessa altura não andava lá. Eram os pequenos que lá andavam. (...) Era o meu mais velho e o outro do meio, mas ainda eram pequenitos. INQ Pois. INF2 E eles, pronto, coitadinhos, viam. Uma vez diz que viram agarrar (...) ... Um lobo agarrou uma cabra. Eles não sabiam. Diz que era um cão que andava a brincar com uma cabra. INQ Ah! INF2 E nessa altura não trazíamos lá cão e os pequenos, à noite, quando chegaram a casa, diz que faltava lá a cabra de Alvoco, (...) que foi um cão que andava a brincar com ela, que meteu com ela para trás duma parede. Comecei assim a berrar com o meu homem por lá não trazer cão e assim. E ele disse para me calar, que faça mesmo para me calar, por causa das crianças não terem medo. INQ Pois. INF2 Mas, pronto, nessa altura foi só uma. Mas depois, uma bela ocasião, nós tínhamos assim umas vaquitas noutra fazenda cá mais abaixo, e ele as cabras estavam mais acima e ele largou as vacas, meteu-as na loja e foi para ir procurar os pequenos, que estava muito frio. Mandou-os embora. Só que as cabras já lá não vinham todas. Meteram-se os lobos nelas, mataram-nos quase tudo (...) . INQ Tchii! INF2 Deram-nos um destroço que eu sei lá. Eles eram pequenitos. (...) Olhe, foi vésperas do Natal. INQ Pois. INF2 Andáramos... Depois, dia de Natal, andáramos por lá todo o dia a ver (...) se achávamos. Lá acháramos algumas, umas mortas, outras já comidas, outras tal, outras já as não víramos. Eles eram assim pequenitos, coitadinhos! Eu, nessa altura, até ia dando em doida. INQ Pois. INF2 É assim. Depois a gente acabou com elas e ficáramos então com umas vacas. Hoje, infelizmente, olhe... Às vezes, o meu homem põe-se assim: "Oh! Guardei vacas, tive cabras, agora encontro-me com umas galinhas"! "Então olha, deixa lá, não podemos, pronto"! INQ Pois claro. INF2 Não se pode, não se pode! Passáramos assim muitos tormentos para criarmos quatro filhos que tivéramos, passámos muitos tormentos! (...) INF3 Era só o que dava o campo! Coziam a broa. INQ Claro. INF3 Pronto. Criavam o milho, tinham broa. Era o feijão, batatas, era o que dava a terra é que comiam! INF2 Nós não tínhamos emprego. INF3 Era o que dava a terra é que comiam! INQ Pois, claro. INF3 Era assim. INF2 Nós não tínhamos emprego, nem eu, nem ele. E, felizmente, tivéramos quatro filhos, nunca tiveram fome. INF1 Era tudo à sombra do sol. INF2 Pão, feijão, batatas, sopa, nunca tiveram fome. INQ Pois. INF2 O que é, mimos, coitadinhos, não os tinham. INQ Pois claro. INF1 Não tinham lá brinquedos como agora. INF2 Mas trabalháramos muito, muito, muito! E então as nossas fazendas era tudo aqui para cima. E a gente para por lá levar as crianças, e assim, passáramos muitos tormentos para os criarmos. INQ Claro. INF2 Olhe, uma vez, 'tínhamos-os' lá assim todos os quatro, ainda eram pequenitos, e queríamos vir embora para baixo. Estava o tempo muito mau, chovia muito, e frio! E digo assim: "Ai, Jesus! Então como é que nós havemos de levar as crianças"? E o meu marido disse-me assim: "Não te aflijas! Eu os levo"! Olhe, meteu-os adentro dum cesto, tapou-os com uma manta, trouxe-os às costas. INQ Pois. INF2 Lá vieram todos contentes, coitadinhos! INF3 Os quatro! Os quatro às costas! INF2 Lá os trouxe todos dentro dum cesto. Eles então vinham todos contentes! Era assim, olhe! Mas nunca desanimáramos com a vida! INQ Pois claro. INF2 Nunca desanimáramos! À noite vínhamos para casa, acendíamos o lume, olhe, cantávamos, fazíamos o comer, os pequenos muito humildes a nós. E nós a eles, pois claro! Tinha de ser mesmo. INQ Pois. INF2 Nunca desanimáramos com a vida! INF1 Então pensa que em minha casa que havia lá um banco para se assentarem?! INF2 Oh, não tinham! INF1 A princípio?! INF2 Não tínhamos! Assentavam-se no chão. INF1 (...) Estávamos ali como os ciganos. Uma fogueira acesa em volta. INF2 Uma vez estavam lá no chão, assim sentados, e entrou lá a madrinha e disse assim: "Ai, então não têm cá bancos para sentar"? E (...) eu disse-lhe assim: "Olhe, a gente (...) para lhe encher a barriga, olhe, não se chega a nada"! E ela disse: "Olhe, está lá o meu Demócrito, deixe-o lá abalar, tenho lá madeira na loja, já lhe cá trago uma tábua". E levou-me. Ele levou-nos lá uma tábua. Só que o meu homem pensou, diz assim: "Olha, se formos a fazer um banco, é um, dois. Espera aí que eu já digo"! Foi buscar assim (...) umas pedras espalmadas – chama a gente umas lascas – 'pôse-as' no chão, pôs-lhe a tábua de cima, já se lá assentaram. INQ Ficou o banco. INF3 Sentaram-se todos. INF2 Já se lá sentavam na tábua.
UNS10
INF1 (...) A gente lá (...) onde eu andava, a gente tinha ali a cabrada e às vezes dizia assim: "Tal cabra não a ordenhei"! Às vezes punha-me até adiante para o meio do açude. "Tal cabra não a ordenhei"! Com o mesmo calo que a gente tinha... "Agarrariam-ma os lobos? Eu não dei conta de nada! Ó meu pai, tal cabra assim-assim, não a ordenhámos, pois não"? "Não". Ao outro dia fôramos para cima, lá para cima – que daqui para lá é um bocado bom – e a cabra não estava lá. "Homem, então eu não dei conta de os lobos se deitarem a ela, afinal o que foi feito da cabra? Às vezes podia-se entalar lá nalguma giesteira e estar por lá entalada"! Fui para lá, a ver, a ver, nem berrar, nem nada! O que é que se resultou? Tínhamos lá uma pereira, tinha e está, numa mina, subimos nós ali uma valada que é (...) da altura deste castanheiro... INF2 Tem alguns três metros de altura (...) ... Ai, mete medo! INF1 É, aquilo mete lá medo! E o que para lá cai, lá fica. Mas ao cabo da mina, ficou assim um bocado por moçar . Ficou uma bancada por moçar . A água saiu. E de maneira que... Pronto! Em volta ali da presa, havia assim comer: toros, erva. A cabra esteve, esteve, escorregou e foi para lá para dentro. Foi para dentro, arrastou-se para diante, foi lá para essa tal bancada. Mas cá aquilo não se via. Pronto. E descuidáramos. Ao fim de oito dias... Por isso, às vezes, já digo para a minha gente: "À fome e ao frio, custa a morrer desde que haja saúde"! A cabra esteve ali oito dias. Sem comer e sem nada. O que lá tinha era água com fartura. INQ Já não é mau! INF1 (...) Isso aí de ele água tinha lá com fartura. A água estava por aqui assim e ela estava aqui nesta bancada. Pronto. E eu a ver, vinha lá a passar por aí abaixo e sinto-a berrar. "Olha"! Estava lá um irmão (...) que tenho: "Ó Delmiro, olha que a cabra está aqui na presa". "Está"? Eu vou então por aí acima, por aí acima, e ele chegou lá, botáramos à presa e lá estava ela. Mas era só a caveira. Era só a caveira. Já era preciso (...) pegarem nela. Depois tive que pô-la cá fora, já não tinha fortaleza nenhuma! Oito dias ali, homem! INQ Pois. INF1 (...) Bom, leváramos aquela para baixo, e lá veio para o meio das outras, pronto! Uma certa altura, o irmão que eu tinha, que era o mais velho (...) ... Porque era para trazer um saco de batatas às costas, mas ele não podia, deixou lá as batatas e veio-se embora por aí abaixo. Minha mãe exaltou-se lá com ele: "Eu já vou buscar as batatas"! Era de noite. E rompe (...) por o caminho acima e foi lá em cima lá ter (...) para trazer as batatas. Chegou lá: "Ora, já é tão tarde! Já não vou"! Deitou-se lá (...) na palha. Abriu a porta, ele foi lá para a caniçada. O que é que se resultou? Que estava a 'escandelecer' e dá-lhe a vontade de verter águas. E quando se ele alevanta, abre a porta, estava lá o lobo assentado, no estendedouro, em frente da porta. E dizia então ele: "Foram dois que tiveram medo: fui eu e ele". Quando ele lhe abriu a porta, o lobo estava assim a olhar de lado. O meu irmão encarou com ele, diz que lhe dava a lua no peito. Tinha o peito saliente. Que lhe dava a lua no peito. E vai então o meu irmão: "Ó rapaz, que estás aí a fazer"? Quando lhe assim disse, virou-lhe aos quartos traseiros e botou-lhe para lá uma mancheia de areia para cima, a esgravatar, que até sentiram as areias na porta, dizia ele. Ó rapaz, aquilo é que ele parece que levava lume a fugir! Naquela altura, ponto final.
UNS11
INF1 Aquela manteiga, pronto! A gente não tem máquina... INF2 E onde se deitar o leite... INQ1 Espere. INF1 A gente não tem máquinas para isso. Mas antigamente estavam cá algumas três, quatro desnatadeiras. Isto era o leite (...) das vacas, que as cabras não. INQ1 Sim senhora. INF1 E a gente ia lá, botava o leite àquela máquina, saía (...) a nata por um lado, e o leite saía por o outro. INF3 À volta. INF1 E depois havia: a gente juntava aquela nata numa panela toda a semana; ao fim-de-semana, havia então outra máquina para se fazer a manteiga. A gente deitava para lá aquelas natas e estava um bocado assim a bater, e saía então a... INF3 Era no tempo da escravidão! INF1 Faziam então a manteiga. E aquelas senhoras iam vender a manteiga à Covilhã e depois, pronto, conforme (...) os quilos que a gente tinha é que elas pagavam. INQ1 Ah! Portanto, a manteiga era feita também no sítio? Não era a senhora que fazia em casa? INF1 Não, não. Não, não. INQ1 Mas o queijo sim? INF1 O queijo sim. O queijo faz a gente em casa. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Mas a manteiga não. Porque a gente era preciso ter aquelas máquinas para fazer a manteiga, e a gente não as tinha. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Mas havia aquelas pessoas. Estavam cá pelo menos umas quatro, umas quatro. Claro, se iam desnatar... Por exemplo, eu ia desnatar a uma que chamavam a Docelina Hermógenes . Outras já iam desnatar ao Deodato Hermógenes . Outras iam desnatar à Domingas. Era assim, cada um lá tinha... INQ1 Havia... INF3 Havia o pessoal... INF1 Cada um lá tinha (...) as suas freguesas. INQ1 ... Sim senhor. INQ2 E quem é que vendia a manteiga? Era a senhora depois? Ou era a outra? INF1 Não, não. (...) Era as donas das máquinas. INQ2 Ah! INF1 A gente fazia a manteiga, elas pesavam e depois iam-na vender à Covilhã. INF3 Levavam o que queriam. INF1 Elas iam (...) ... INF2 (...) Ficava na consciência delas, o peso – não era? – INF1 Pois, pois. INF2 se era um certo, ou não. INQ2 Pois, pois. INF1 Não. Elas pesar, pesavam-na logo na frente da gente. Por exemplo, se estava a trinta, pronto, elas lá tinham o ganho delas (...) ... A nós 'pagavam-nos-a' a trinta, lá na Covilhã, a gente não sabia como lha pagavam a elas, não é? INQ1 Quanto era. INQ2 Claro. INF1 Pronto, elas lá tiravam o ganho delas e a nós, conforme os quilos que levavam, é que nos pagavam. INQ1 Rhum-rhum. INQ2 Pois. INF1 Era assim. Elas iam todos os fins-de-semana. A gente fazia (...) a manteiga era à sexta-feira. Andávamos toda a semana a lá ir desnatar o leite para uma panela. E quando era então à sexta-feira, a gente fazia a manteiga, elas pesavam-na, ao sábado iam-na vender e à noite faziam-nos a féria à gente. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Era. Era como é que era assim um empregozito. INQ2 Pois.
UNS12
INF1 Olhe que eu tinha lá (...) livros do tempo da Inquisição. INF2 Teve lá um livro, como é que se chamava? O Palavrófio? INF1 O Palavrófio. INQ1 O quê? INQ2 'Palagrófio'? INF2 Sim. INQ2 Não sei o que era. INQ1 O que era? INF2 Ai, um livrinho tão antigo, tão antigo! INF1 Ainda era do tempo que não havia máquinas de escrever à mão. INF2 Tudo (...) a, pois, escrever com estas escritas ... INQ2 Sim. INF1 Eu uma vez fui à Covilhã – que eu fui (...) lá muita vez; já dormi em tanto lado – fui lá então e para cá apanhei boleia, que foi o Deolindo ali que me trouxe. INF3 O senhor Deolindo ali da farmácia. INF1 E eu os papéis, ah! , nunca os avenho . Tinha lá uma rima! Livros que eu sei lá! Agora é que já não! Já os levou (...) aqui a minha nora. E eu tinha três filhos, já os dividi por todos os três. E ele veio lá a casa para me perguntar pelo jornal (...) do Dinis. E eu tinha lá, do pai dele. Do pai desses Dinis, que era um homem que vossemecê não calcula, nem sabe nem a metade! A barba chegava-lhe até aqui. Foi daqueles que chegou (...) a Lisboa... Dois homens que aqui foram presos e estavam ali (...) em Lisboa, no barco, para embarcarem, para nunca mais os verem. As mulheres deles, aqui, pediram ali ao senhor – chamam Deucalião Dinis – e ele disse: "Quem lá vai sou eu"! Ele chamava toda a gente por tu. Até o próprio (...) tio chamava por tu que era o Diogo. E vai daqui para Lisboa e chega lá diz para o que estava para embarcar com o barco, com eles lá dentro: INQ1 Pois. INF1 "O barco está aqui três dias e três noites à minha ordem. Tudo o que houver, pago eu. Não abala daqui o barco sem estar comigo, sem eu dar ordem. (...) Como é a minha fotografia? Eu sou Desidério Deucalião Dinis, filho do primeiro conde do Refúgio da Covilhã". INQ1 O primeiro conde de onde? INF3 Da Covilhã. INF2 Do Refúgio. INF1 Do Refúgio da Covilhã. INQ2 Do Refúgio. INF1 "Sou (...) filho (...) do primeiro filho do conde do Refúgio da Covilhã"! E então o barco esteve lá à ordem dele. E ele daqui para além, dalém para aqui, foi falar com o Salazar. Mas ele deu três dias para lá ir falar com ele. INQ1 Pois. INF1 Lá, lá falou com ele e pediu-lhe então para botar aqueles homens, que um que (...) tinha amparo de mulher, que era a mulher aleijada, faltava-lhe um braço. INF3 Faltava-lhe um braço. INF1 E o outro tinha quatro filhos pequenitos, que visse lá, que era preciso criá-los. E então o Salazar obedeceu-lhe. INF2 Só esse homem é que tratou por senhor, o mais era tudo por tu. INF1 Ai, esse senhor chamou o Salazar por senhor. INQ1 Claro. INF1 Não é tu cá, tu lá. INQ2 Rhum-rhum. INF1 Sim, e uma vez, no tribunal, tinha um pedido para o tribunal, para o doutor juiz, mas lá o doutor juiz não lhe quis obedecer. Ele vai com uma bengala, aperta além com ele pela cabeça, uma trancada pelos cornos, os outros que lá estavam 'partaram' todos a fugir. E não quiseram nada com ele! INQ1 Ele era um homem muito valente! INF1 Mas era no tempo da monarquia! INF2 Ai, toda a gente tinha medo dele! INQ1 Ai era? Mas ainda se lembra? INF2 Eu não. Eu já não. Ouço contar. INF3 É o que ouve, é o que ouve! INF2 Ouço contar a história. INF3 Esse era lá então... Esse livro era lá desse tempo. INQ2 Rhum-rhum. INF3 Depois, o senhor Diágoras, calharam assim a vir a falar um bocado nele, e ele disse que tinha lá o jornal de quando ele morreu. Disse assim: "Olhe, há-de-mo mostrar"! Ele veio lá a casa, mas eu já o lá não tinha. INF1 Estava lá mas é do filho. INF3 Estava lá mas era (...) do filho. INF1 E tinha-o lá bom. INF3 Ele disse: "Olhe, não é desse (...) que me interessava, era do próprio pai"! E depois viu então aquele livro, que chamava ele o Palavrófio, "Posso"?... INQ1 Pala- quê? INQ2 'Palagrófio'. INF3 Palavrófio. INF1 Palavrófio. INF3 Disse: "Olhe, ó senhor Delmiro, eu levo este livro e depois"... INF2 "Empreste-mo"! INF3 "Empreste-mo que eu (...) depois devolvo". INF1 "Ai, este tem que mo emprestar! Ai, este tem que mo emprestar"! "Então leve-o"! INF3 Claro, o homem também não lho deu, ele também lhe ainda o não pediu. Que se pedisse, o homem, claro... INF1 Eu não o li, nem um por mais um . INF2 (...) Eu também tenho apenas... INQ1 Mas custava a ler, era? INF3 Era. INF2 Tenho apenas a quarta classe. É escrito (...) à mão, assim, parece que é a fugir ao resto ... INF1 Era no tempo da antiga lei. No tempo da Inquisição. INQ1 Pois, pois, pois. INQ2 Que engraçado! INF3 Era muito importante. E o homem disse assim: "Olhe, eu depois dou-lho, ó senhor Delmiro. Eu depois devolvo". Claro, o homem, pronto, a gente se lho pedisse... INF1 Já o não largou. Assim que lhe foi à mão... INF3 A gente se lho pedisse, ele já o tinha dado. Que ele logo disse que o dava. E a gente, claro... (...) Bem, amanhã os netos até o podiam ler, que agora já andam a estudar, não é? INQ1 Pois, pois. INF3 Já o podiam ler. Mas, um dia que calhe, depois a gente ainda lho pede. E tínhamos então lá muito livro! Mas muitos! INF1 Eu não aventava nada. INF3 Ele já os não lia porque (...) já não via. INF1 E os do Espírito Santo, aceitava. Que eu tenho lá a Bíblia do Espírito Santo. Tenho dos Católicos. Portanto, eu não os avento. INQ1 Pois, pois. INQ2 Rhum-rhum. INF1 Estão ali. Não pagam pão! INF3 (...) Ele já os não lia... INF1 Já agora já os lá não tenho. INF3 Ele já os não lia, já disse eu assim: INF1 Ainda a minha sogra trabalhava . INF3 "Então, olha lá, tu já não lês os livros, eu não sei ler, então que andam agora aqui a fazer? Divide-os com os netos"! Disse-lhe e ele lá então... E os netos, lá os levaram. INF1 E esse do pai deles, eu tinha-o lá, mas a minha filha, coitadinha, quando ele os meus filhos eram pequeninos, para os calar, não sei, dava-lhos, para se entreterem... INQ1 Ai, e eles rasgavam. INQ2 ... INF1 E desapareceram-me. INQ2 Rhum-rhum. INF3 A gente, às vezes, não os sabia calar! INF1 E eu agora (...) tinha lá mas era desses de agora. Onde é que eu tenho agora jornais dos netos ? INF3 Às vezes não se acudiam calados , e a gente o que os queria era calados, às vezes dava-lhe um papel. INF2 Papel. INQ1 Claro. INF3 Pronto, eles, brinquedos, não os tinham. INQ1 Claro. INF3 Porque a gente, claro, não dava para lhe comprar brinquedos – que não era como agora, que agora têm tudo –, a gente não tinha... Sabe como é que se eles entretinham a brincar? A gente andava por lá a trabalhar, e eles então apanhavam assim o sujo das cabras – chama-lhe a gente caganetas –, apanhavam aquelas caganetas, faziam então assim (...) um bardo, na própria terra, botavam para lá, estavam a brincar com aquilo. Diz que eram as cabras. Estendiam assim: " (...) Esta é a Amarela, esta é a Branca, esta é"... INF2 Brincavam assim. INF1 Como ouviam, assim... INQ1 Pois claro. INF3 Brincavam assim, coitadinhos. INQ2 Gostavam de brincar... INQ1 Pois claro. INF3 A gente, às vezes, em casa: "Olha"! Estavam a chorar, "Olha isto"! Dava-lhe um papel, uma coisa, (...) lá se entretinham. A gente o que os queria era entretidos para se fazer a vida. INQ1 Claro. Pois claro. INF3 Como lhe acabo de dizer, não havia assim brinquedos, como há agora.
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INQ E essa fazenda tinha muro à volta? Tinha parede? INF1 Sim, tinha. Tinha, tinha. Tinha uma... INF2 Tinha nascentes. INF1 Tinha nascentes. INQ Mas, por exemplo, esta aqui, que o senhor está a dizer, que o senhor, isso tem, isso chama-se uma fazenda também? Este... INF3 Chama. INF1 Chama. Isto chama-se uma fazenda. INQ Portanto, fazenda é um sítio onde a gente pode cultivar várias coisas? INF1 Sim, sim, sim. INQ É isso? INF3 Como aqui. INQ Normalmente tem água? INF1 Não. INQ Podia ter ou não. INF1 Esta tem água, a gente (...) vai buscar aos ribeiros para regar. INQ Rhum-rhum. INF1 E temos cá da da rede, aqui. A gente, às vezes 'bachuca' umas couves, ou umas cebolas, qualquer coisa, com a da rede. Mas, regra geral, para a gente regar a pé, 'vamos-a' buscar ao ribeiro, lá em cima.
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INQ1 Se for mais para baixo? Portanto, é uma?... INQ2 Uma valada é uma vala funda? INF1 Funda. Enorme. É muito mais funda que a que se faz para os esgotos. INQ1 Rhum-rhum. INF1 É muito mais funda. INQ1 Foi para chegar à mina de água? INF2 Não. INF3 Foi para chegar à veia. INF1 (...) Foi até aparecer a água, até (...) furarem a veia da água. INQ2 O veio da água? INF1 Sim. INF2 Mas foi a ferro frio, ninguém nos ensinou! INF1 E pronto! E depois as outras já fizeram, ficou capeada por cima e eles minaram assim por baixo de terra. INQ1 Meteram uma espécie dum, dum túnel, não é? INF2 É um trabalho... INF1 Sim, sim. E aquela – não sabiam – começaram a cavar de cima por aí abaixo (...) . Quando chegaram ali àquele... INF2 Foi o trabalho mais duro que eu encontrei foi a fazer aquilo! INF1 Quando chegaram ali àquele sítio, apareceu água, terminaram. INF2 Não se pode a gente se esbracejar! INQ1 Rhum-rhum. INF1 É muito estreito . INF2 (...) Eu e os meus irmãos é que fizemos aquilo tudo a ferro frio. Não havia ninguém que dissesse assim: "Olha, vós andais enganados"! (...) Íamos ali a cavar, apareceu lá uma junqueira: "Oh, aqui há-de haver água"! Parece que lá não havia água nenhuma! E agora só há cinco nascentes com suor! E depois a água começou além... Fomos: "Olha"! Começámos a afundar assim um bocadito até lá, a água ficou aos pés. Outro: "Vai-se por ali por aí adiante até lá". Lá, a água ficou nos pés. Outro: "Vai-se por abaixo até lá". A água ficou nos pés. Quando foi lá numa certa fundura, eu já tinha medo de lá andar. INF3 Muito funda! INQ1 Estava lá em cima o... INF2 Oh, aquilo metia lá medo! Foi (...) onde ficou lá essa tal cabra. INF1 A gente olha para cima, até mete medo. Parece que a gente vai cair para cima da parede . INF3 Uma vez andava eu lá (...) com as cabras, caiu-me para lá um cabrito, olhe, eu custava-me lá a deixá-lo ficar, mas aquilo metia medo. Eu punha-me cá a olhar para cima, digo: "Ai Jesus"! Ele berrava lá! INF1 Porque para cima não está seguro, se cai, INQ2 Claro. INF1 por exemplo, se há (...) uma infeliz sorte, INQ1 Um bocado pode abater. INF1 uma pouca sorte, cai um bocado de terra, pode lá ficar uma pessoa alagada. INQ2 Claro. INF1 Nem tempo de dizer: "Ai"! INF3 Pois. INQ1 Pois. INF1 É muito estreitinho! INF3 Ele estava lá o cabrito, custava-me lá a deixá-lo ficar, mas eu tinha medo. Mas sempre avancei. Lá fui apanhar o cabrito. Ao cabo, tirei-o, mas quando me cá apanhei, disse assim: "Ai, credo! Então (...) se agora aqui caísse um bocado de entulho, eu ficava aqui debaixo. Ficava cá morta"!
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INF1 Mas a Quinta da Varge... Eu ainda lá passei... INF2 Só o nome! INF1 Mas pronto. INF2 Só o nome! INF1 Eu conheci-lhe lá quatro rebanhos. Qual deles o mais... Qual deles o maior, não é? INQ1 O maior! INF1 E então, pronto – eu tenho (...) uma cunhada que foi lá criada –, era assim: na altura davam vinte cinco ovelhas ao pastor. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Davam-lhe casa própria, água e luz. E tinha – na altura; agora por fim já não –, e tinha um ordenado e cinco litros de azeite ao fim do mês, que não era mau. E davam-lhe terras... INQ2 Para ele. INF1 Terras, não era (...) o pastor que ia escolher... INQ1 O produto. INF1 Eles destinavam-lhe aquele (...) , vá lá, o quintal: "Este é para ti"! E depois há uma altura – que é (...) ali (...) em Março – chamavam eles a terra da soldada. Era só a terra para semearem as batatas. Acabavam de tirar as batatas, a terra voltava outra vez (...) ao dono, pronto! INQ2 Para o dono. INF1 Chamavam eles a terra da soldada. INQ2 Ah! INF1 Que era só, vá lá, no tempo das batatas. INQ2 E era só para o pastor é que havia isso? INF1 Só para o pastor, sim. Pastores, bem, tractoristas também. Pronto, as pessoas que estavam ali ao mês, tinham essas garantias. As que (...) andavam ao dia – caso da Erada e Paúl – tinham, às vezes... Ou agora, por fim, já tinham tudo: os tractores iam pôr e buscar o pessoal. Chegou lá a andar a trabalhar trinta ou quarenta pessoas. Agora não, pronto! Agora nem lá têm gado.
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INF1 Há uma certa altura – ali talvez em Abril, Maio – chamam uma sessão. Juntam-se (...) os proprietários e mais alguém que queira ir comparecer, e dizem assim: "Bem, quem é que quer ficar (...) com a regadia"? INF2 Os proprietários. INF1 Pronto, aqui (...) é de porta à eira. INF2 É de porta à eira. INF1 E há outras. INF3 Há outra além na frente. INF1 Por exemplo, o senhor lança: "Eu fico com ela a duzentos escudos"! E eu lanço: "Eu fico com ela a duzentos e cinquenta"! Aquele que mais dá é que fica! INF2 Não, não. INF3 Não, não. É o que mais barato faz. INF1 Ou o que mais barato faz, então é que fica. INF2 Porque se fosse ao lanço, aquilo ia lá para umas alturas! INF1 E então... Pois. INQ Ah, pois. INF2 Porque aquilo é... INF1 E então, se a senhora quer regar, desde o momento que entre a regadia, a senhora tem que pedir a água a esse senhor. Porque senão a senhora tira, eu tiro, os meus sogros tiram, a água não chega para ninguém e não é para ninguém. INF2 E jogam a bulha! INF1 E jogam a bulha! Por isso mesmo (...) é que há um juiz (...) para dirigir a água. INF2 Tem que ir manter a ordem. INF1 Portanto, a gente quando quer regar... Não digo que não vá ali uma vez e tire a água sem ordem, mas isso é mau. INQ Pois. INF1 A gente tem que pedir a água. Por isso mesmo, a gente paga para ele... INQ A esse juiz? INF1 A esse juiz.
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INF1 O juiz da água pode ir buscar a água aonde quiser que ninguém o multa. INF2 Ajunta a ribeira... INF1 Pode ir ali a prémio... INF2 Ajunta a ribeira para a regadia. INF1 (...) Durante três meses da regadia, do dia 24 do São João até o dia 8 de Setembro. INF2 De Setembro. INF1 Dia 8 de Setembro acaba a regadia. Quer chova, quer não chova. No dia 8 de Setembro acaba a regadia. E entra (...) na regadia no dia 24 do São João. INQ1 Rhum-rhum. INF1 E depois o juiz, quando vão fazer essa sessão... Os proprietários estão ali em volta, o senhor quer para lá ir, mas: "Este não o queremos lá. Este não é bom! Por mim, antes lá quero aquele"! Depois o povo concorda. Porque nem todos lá aceitam! INQ2 Pois. INF1 É preciso um homem que saiba o que anda a fazer, mas agora também cá não há. INQ2 Já não há? INF1 Agora não há cá... INF3 (...) Há pouco porque já pouco semeiam. INF1 Cá não há um homem que se lhe tire o chapéu como a mim. INF3 E já pouco semeiam. (...) INF1 E já pouco semeiam. Depois, claro, é aquele... "Então (...) a sessão está aberta"! Por exemplo: "O ano passado foi ajusta por tanto". E depois esse que está interessado abaixa um degrau. Agora se não estiver interessado, estou calado e aquele que está interessado abaixa. Depois: "Vê lá! Serve este"? Digo eu junto ao autor: "Este serve para a regadia"? É o regadio. Eles depois se concordarem dizem: "Pode ser". E então aceitam-no. E quando não pode ser, dizem que não o querem lá. E ele tem que retirar fora. INQ2 Pois. INF1 Porque senão era uma cegada. INF3 E então quando é, por exemplo... INF1 E quando vão, quando ele toma conta da levada, eles depois dizem: "Eu vou buscar a água; aquele tem que alimpar a açude; aquele tem que alimpar o rego". Como a mulher lava a loiça em casa. Tem que a preparar. INQ2 Pois. INF1 Que é para, depois, quando vem a água, estar aquilo liberto. E quando a roubam, ele tem que pregar os seus apupos. INF3 Ele berra, pois claro. INF1 Porque senão não lhe guardam respeito. INQ2 Claro. INF1 Ele vem de lá, às vezes, parece que vai botar tudo abaixo. Mas não. INF3 É só de garganta. INF1 Pois, parece que... O homem já sabe o ambiente e já conhece o calo: "Deixa-o vir. Logo amansa"! "Lá vem ele. Deixa-o vir"! INQ1 Não?... INF1 Mas às vezes, ele chega aqui: "Oi, lá está você a tirar água"! "Então, amanhã tenho que ir para o feno". Ou: "Tenho que ir malhar". "E agora tenho que ir carregar este alfobre, estas batatas e tal e quê". "Olha lá, desculpe lá, homem, para outra vez"... "Para outra vez"... Ele prega os seus apupos. Tem que ser mesmo. Porque se não pregar os seus apupos... INQ2 Ninguém tem respeito. INF1 Ele não têm, pronto! É assim que cá fazem.
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INQ1 Olhe, e depois quando mete nos pipos têm que deixar a, a, assim aberta em cima, não é? INF1 Está... INF2 Põe-se uma rolha só a tapar (...) a primeira abafa porque se lhe dá completamente aberto, pode-se lá meter qualquer bicho. INF1 (...) E pode arrebentar porque está a ferver. INF2 Pode arrebentar porque está a ferver. INQ2 Rhum-rhum. INF1 Há tempos... INF2 Porque está cá um (...) – já morreu, um colega nosso – estava além a dormir lá, agarrou, tirou o vinho lá (...) do pio. INF1 Do pio. INF2 E meteu dentro do pio, atarraxou. O vinho estava a ferver, ele foi-se deitar mais a senhora dele, não queira saber! INF1 Arrebentou o pipo de noite! INF2 Lá pela noite adiante... INF1 Que aquilo que deu um berro desgraçado! Toda a gente julgava que era uma bomba! INF2 E estava fora do povo! INQ1 Pois. INF2 E estava fora do povo. Eles estavam lá a dormir e quando aquilo lá dá um estoiro, por baixo, no sótão, e ele meteu-se-lhe em cabeça que foi uma bomba que lá deitaram para dentro. Ele então agarrou-se lá à mulher com todo o atenção! Risos Disse: "Ai Jesus"! E em toda a noite já de lá não saíram. INF1 Quando abriram a porta já era meio-dia. INQ2 Pois. INF2 Só de lá saíram de manhã quando lá chegou o sol, a assomar-se à janela, ainda com medo! INF1 A assomarem-se, a verem se viam alguma coisa! Por sorte não viram nada! INF2 Não queira saber! Até porque eles estavam fora de portas, como nós agora aqui estamos. INQ2 Pois, pois. INF2 E lá pela noite adiante, ferveu (...) , ferveu, ferveu, apertou, dá ali uma explosão... INF1 Assim aquele berro! INQ1 Pois. INF2 Tremeu a casa e tremeram eles e tremeram todos quantos lá estavam. Ele depois quando sentiu aquele barulho, ó raio! Em toda a noite já não lhe deu a tosse. INQ2 Sim senhor. INF2 No dia seguinte, quando lá chegou o sol, abriram uma janela com jeitinho, eles estenderam o gargalo para baixo, e depois então quando abriram, saíram para a rua – porque já lá estava o sol – e o qual era aquele que não tinha medo! Quando lá estava o sol, eles saíram para a rua, que foram ver, "Oh"! INF1 Foi o pipo que arrebentou. INF2 "Foi o pipo que arrebentou. Olha o que aí vai"! INQ2 Ai, que desgraça! INF2 Lá ficaram com uma mão detrás, outra diante! INF1 Mas (...) eles estavam por cima, no andar de cima. INQ1 Pois. INF3 Onde tinham a loja. INF1 Por baixo, chama-lhe a gente as lojas, o raio lá do pipo arrebenta lá por baixo, e o que seria, e o que não seria? INQ1 Pois. INF1 O que seria, o que não seria? INQ1 Claro. INF2 Ficou logo com aquilo em meio. INF1 De manhã quando se alevantaram, já lá estava o sol, andaram a ver, não viram nada, (.../N) nenhuns. Quando depois calham a ir à loja, estava lá o pipo rebentado: "Olha, a bomba foi o pipo que arrebentou"!
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INF1 Até aqui (...) 'levávamos-a' ali a um colega nosso do Tortosendo. Era o Deolindo. Mas o homem já era de idade, já morreu. Está à nossa espera. E agora, agora neste ano não há cá. Este ano passado ainda lá déramos para um filho dele que lá se tomou conta do lagar. Agora, não tenho cá nada, nada dou. INQ1 O lagar era aonde? INF1 No Tortosendo. INQ1 Ah, pois. INQ2 Mas este aqui, pois, portanto... INQ1 Não havia aqui lagar? INF2 Aqui havia. INQ1 Este havia aqui... INF2 Aqui havia era a água. INQ2 Era a água? INF1 A água. INF2 Era. Olhe era ali para aqueles lados, chamam além o Pisão. INQ2 O Pisão. INF2 Ali para aquele ribeiro dali. INQ2 Rhum-rhum. INF2 Mas era ao lado... INQ1 O Pisão era o sítio, chamava aquele sítio ali?... INF2 Chamavam lá ao sítio o Pisão. (...) E o lagar era do senhor Dinis. Só que, claro, agora, quer dizer, começou a deixá-lo cair, a deixá-lo cair, está todo estragado. INQ2 Mas os senhores ainda o viram trabalhar? INF1 Ai, oh, mas quantas vezes! INF2 Ai, ainda! Ainda há pouco deixou de andar! Há-de haver aí... INQ2 Então, mas quando era a água. Portanto, havia o pio, e dentro do pio não havia umas pedras que eram?... INF1 É. INF2 Pois. Chama-lhe a gente as galgas. INF1 Chama-se-lhe nós as galgas. INQ2 Rhum-rhum. INF2 Aqueles galgas estavam a andar mas eram tocadas com uma roda a água. Não era à electricidade. INQ2 Sim senhora. INF1 Era a água. INF2 Estava uma roda do lado de fora, botava para lá uma levada de água tapada, aquela roda andava a andar, e fazia andar as galgas do lagar. INQ2 Rhum-rnum. INQ1 E as galgas, e aquilo à volta era o pio? INF1 Era o pio. INF2 Era o pio. INQ1 Onde andava, onde esmagava? INF2 Onde andava, que era (...) para ali estar tudo juntinho, para se não desperdiçar.
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INF1 Era só aquelas duas caixas ali... INQ1 Rhum-rhum. INF1 E esta aqui era do azeite. INQ1 Sim senhor. INF1 E ele a água vinha (...) no cimo da água e ia para aquela poça. E quando aquilo estava cheio, tinha lá um coadoirozinho, até era: chamavam-lhe aquilo 'abetouros'. INQ2 Chamavam-lhe como? INF1 'Abetouros'. INQ2 'Abetouros'? INQ1 'Abetouro'. INF1 'Abetouro'. A gente punha lá assim e aquilo ia passando aqui já meio coado – o azeite, meio coado. E estava então a correr por uma calezinha, para aqui para outro pio. (...) E o chefe do lagar, o autor, estava ali a ver correr aquela mercadoria toda. Com o calo e com a prática via quando já estava a água. INQ2 Pois, pois. INF1 E quando era a água, abria a torneira aqui por baixo, e saía a água. INQ1 Rhum-rhum. INQ2 E saía água. INF1 E lá vendo que estava já uma certa fundura, tapava outra vez, tornava a encher. INQ2 Pois, pois. INF1 Tornava a encher. E depois em vendo que precisava lá de outra coisa , consoante a porção que tinha, além (...) do azeite que havia de sair... INQ1 Rhum-rhum. INF1 Porque o que vale é o calo e a prática. INQ2 Claro. INQ1 Pois. INF1 E depois ele tornava a sangrar, tornava a bater. Quando acabava aquela mercadoria toda, iam indo chamar os fregueses. Mas quando iam chamar os fregueses, o lagareiro já sabia o que lá estava. Já sabia (...) os litros que lá estavam ou os alqueires. INQ2 Pois. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Nós cá era alqueires. INQ2 Era alqueires que chamavam? INF1 Era. INF2 Sim, sim. INF1 É um cantarito que lá têm de medida, chamavam aquilo o alqueire. INQ1 Rhum-rhum. Sangrar era tirar o azinagre para fora? O azinagre para fora? INF1 Pois. INF2 Sim, sim, sim. INF1 E ele depois, o lagareiro, com a prática, com o calo, que já tinha... Porque um andava uma porretada de anos. INQ1 Rhum-rhum. INF1 (...) E depois ele, então, via (...) : "Olha, vê lá, tenho de chamar fulano". Têm uma relação. "Chamar fulano, chamar aquele, chamar aquele" –, que era os donos (...) do lagar. E (...) ele não media, não mexia no azeite, sem ali estarem todos. INQ2 Pois. INF1 E depois então, cada um trazia a sua vasilha, e ele via na relação os quilos da azeitona que tinha para lá dado. INQ2 Rhum. INF1 Tiravam a percentagem deles: da lenha (...) ... E para o patrão, por exemplo, eram três, a metade era do patrão, e a outra metade era a dividir (...) por os outros. INQ1 Rhum-rhum. INF2 Por os lagareiros. INF1 Por os lagareiros que lá estavam. Tosse E ali no Tortosendo, para onde nós dávamos agora estes últimos anos, nunca ia lá ninguém ao azeite. Pagava com o dinheiro ao fim do tempo. INQ2 Rhum-rhum. INF1 Que era ele para não andarem lá a roubar. INQ2 Pois. INF1 Porque o senhor, na idade em que está, deve saber bem: nunca tenha dó daquele que faz folhas. INQ2 Faz folhas? INF1 Pois. INQ1 Faz a contabilidade. INQ2 Ah! INF1 Nunca tenha dó daquele que faz folhas. Aquele que faz férias, para ele sempre lá há. INQ1 Sim senhor. INF1 E ele, aquele também não quer cá ninguém ao azeite. INQ1 Pois. INF1 Ele paga tanto por mês, ou por dia, ou por semana.
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INQ Como é que se chama? INF Diamantino. INQ E que idade é que tem? INF Setenta e seis. INQ E é daqui mesmo dos, de Unhais? INF Natural de Unhais. INQ Sim senhor. Andou à escola? INF Tenho o exame dos adultos, a terceira classe. INQ Já a fez era adulto. INF E já a fiz com muita dificuldade. Já estava casado. INQ Pois. INF Porque andava na Penteadora, (...) e o senhor prior, o senhor padre Alfredo obrigou a... Pôs lá... Até era um padre a dar escola. E tínhamos lá uma hora de escola todos os dias. INQ Pois. INF E aí então é que fiz o exame (...) da terceira classe. INQ Sim senhor. INF O exame dos adultos. INQ Pois. INF Porque, no meu tempo, então, não chegava... INQ Não se, não se... INF Às vezes, éramos... Ainda andei... Aos sete anos já andava a varrer o tear, calcule. Aos sete anos! Aos oito anos, a encher canelas. E depois comecei nisto, até (...) que eu depois tive idade... Andei nas fábricas de cardado. Andei nas fábricas de cardado ainda uns dois ou três anos. E depois fui para a Penteadora, trabalhei até aos quinze. Aos quinze anos, como já disse, a minha mãe (...) era viúva, e eu – era eu mais outro irmão –, e depois eu, aqui nos teares ganhávamos mais do que se ganhava na Penteadora e eu já me avinha com o tear – os meus irmãos também eram tecelões –, INQ Claro. INF e depois saí da Penteadora e vim para o tear. Mas e depois isto aí em 1943 começou a dar para o torto. Nós íamos para a Covilhã – como já disse – tecer a fazenda, e para o Tortosendo, e levávamos a fazenda tecida e trazíamos o dinheirinho. Mas, e depois, (...) isto começou a evoluir e eles começaram a comprar teares mecânicos. INQ Pois. INF E tinham que comprar três alvarás. (...) Tinham que (...) inutilizar três teares destes (...) para o governo autorizar a comprar um tear mecânico. INQ Ah! INF E isto depois (...) começaram a coisa, olhe, eu vendi o meu, era para comprar outro melhor, e coisa. Vendi o meu, de manhã, por um conto e duzentos, (...) à tarde já me davam três contos. Depois começou a evoluir, chegaram a quinze contos e mais (...) , os alvarás. Mas não podiam (...) INQ Pois, pois, pois. INF comprar um tear mecânico sem inutilizarem três destes. INQ ... É como agora fazem com os barcos. INF Ai sim? INQ Também queimam os barcos e... Os barcos pequenos queimam-nos todos que é para depois poder comprar outros. INF (...) E depois foi assim. E depois nós, é claro, como isto, isto cascou... Eles depois começaram a comprar os teares mecânicos, e depois, em vez de darem a fazenda para aqui, metiam-nos (...) nas casas deles, a trabalhar, (...) e já não davam para aqui. INQ Claro. INF (...) não deram para aqui. Eu como já tinha andado na Penteadora e depois, nessa altura, faltava lá pessoal, fui para lá. INQ Pois. INF E depois comecei – já aqui tinha este tear; já tinha –, depois comecei a trabalhar na Penteadora e nas horas vagas é que comecei sempre a tecer disto. Nunca me cá faltou. INQ Rhum-rhum. INF E agora depois que me reformei, então, parece que ainda foi pior. (...) INQ Pois. INF É porque (...) havia alguns também a ficar velhos. INQ Pois. INF (...) Iam tecendo. Agora já deixaram de tecer e agora parece que já não... Aqui no concelho da Covilhã só sou eu e um no Paúl. Mas esse do Paúl tem um tearzito pequeno e gosta de andar só pelas feiras e tal. Lá anda nas feiras.
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INQ1 Mas fio de lã? INF É de lã. Mas agora já usam outras fibras também. Antigamente era só de lã. INQ2 Mas a isso chamam-lhe lã na mesma? INF (...) Não, agora já há outras fibras. Agora há (...) o terylene, chamamos-lhe o terylene. INQ1 Pois claro. INF (...) E há outras qualidades de fibras. Naquele tempo era só lã e mungo. INQ1 ... E o?... INF Mungo e o algodão. Era mungo e algodão. Faziam-se as voltas... INQ1 Mungo era o quê? INF É (...) uma coisa que se comprava, de farrapos, das farrapadeiras, esfarrapavam aquilo tudo e fazia o mungo. Depois vinha em fardos (...) e os industriais compravam aquilo. E conjuntamente com algodão – pois (...) eu trabalhei nessas fábricas –, fazia-se a volta... Fazia-se uma volta grande, grande, um monte, daqui de algodão e ali de coisa, e ficava tudo entremeado. Depois ia para as cardas; depois aquelas cardas dão a pasta; e depois ia (...) para o prato, fazia a mecha; da mecha ia para as fiações e as fiações faziam o fio. Era assim. INQ2 E o estambre era aquele mais fininho? INF O estambre era uma matéria assim... Era lã fina, (...) da melhor lã que havia! INQ2 Rhum-rhum. INF Pois. Era a melhor fazenda que havia nas dessa altura. Hoje já há diversas fazendas. E agora (...) algumas que sejam muito coisa, mas ainda serão mais somenos do que nesse tempo. Risos
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INQ Como é que era a sua parte, que o senhor tirava para si? INF Era conforme. Então não acha? (...) INQ Chamava-se o quê? INF (...) Nos quinze quilos, a gente tirava sempre dois litros – quatro quartilhos, pronto. INQ E como é que chamava a essa parte que era do moleiro? Chamava-se o quê? INF Ele era a maquia! INQ A maquia do moleiro? INF Pois, a gente tinha que tirar. Era a maquia (...) . INQ Pois, era a sua paga? INF Era a minha paga porque isto já se sabe como é que era. Mas já não dava nada, não é? INQ Pois. INF Pronto, (...) INQ Claro. INF isto à uma não há semente agora e isto acabaram com os moinhos todos. INQ Pois. INF Antigamente havia muito moinho, havia muita coisa, a gente andava encantado da vida. INQ Claro. INF A moer ele pouco?! Era todos os dias era. Agora não há. INQ Pois é. INF Agora até dá... A gente até se aborrece de andar nisto, não é?
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INF1 E depois de estar limpinho, vai ao moinho. Vai ao moinho, o dono do moinho lá o mói a quem o lá leva, do proprietário. Depois de moído, então a pessoa (...) que o tratou e o malhou vai, depois de moído, vai então para casa e depois vai pedir a vez ao forno. A senhora vai ao forno e diz à dona do forno: "Ó senhora fulana de tal, quero cozer hoje. Tenho vez"? A dona do forno depois diz: "Tem, sim senhor. Quantos alqueires são, que você vai cozer"? Ou é um ou um e meio. Por exemplo, a dona do forno sabe as pessoas que lá vão a pedir a vez, (...) tem que saber quanto é que vai cozer, se é um alqueire, se é alqueire e meio. Porque o forno leva, por exemplo, doze alqueires, e as pessoas que lá vão, uma é meio alqueire, outra é um alqueire, outra é alqueire e meio, e depois o forneiro faz a conta até chegar aos doze alqueires que o forno leva. Não pode convidar mais que depois não lhe cabe lá. INQ Claro. INF1 E depois a senhora que vai cozer o pão criva a farinha com umas peneiras – que havia antigamente, agora parece que é à máquina, mas nesse tempo era umas peneiras a peneirar farinha –, e depois (...) pede ordem à forneira: "Ó minha senhora, quando é que hei-de amassar"? A mulher espera (...) que o forneiro vá (...) dar ordens para amassar. "Ó senhora fulana de tal, pode amassar"! E depois há uma pessoa que vai dar a volta a todas. "Olhe, pode amassar". Depois amassa, metem-lhe o bocadinho do fermento para o pão crescer – para o pão crescer. INQ Rhum-rhum. INF1 E depois de amassado está ali talvez aí hora e meia ou duas horas amassado. E depois, ele quem o amassou torna a esperar pela vez do forneiro para mandar tender. Quando depois já está finto, já está crescido, é tapado com umas mantas, é farinha e tal, tal, tal, e depois espera pela vez de mandar tender. Torna a amassar, torna a dar umas voltinhas, que é a tender, dá-lhe mais umas voltinhas e depois corta então aos bocadinhos. Faz então as broas ou o pão. E tem o tabuleiro ao lado. Põe no tabuleiro logo (...) com um lençol, ou uma toalha; vai cortando aos bocadinhos, e põe no tabuleiro. Conforme a quantidade que é, põe no tabuleiro. E depois então o forneiro, com antecedência, mete a lenha ao forno – que é para aquecer bem –, e depois o forneiro vai então dar a volta a todas a acartar os tabuleiros para o forno. O forno tem ali umas mesas em pedra – tinham, agora já não existe! –, tinham umas mesas em pedra e pousavam ali os tabuleiros – cada uma! –, cada uma das pessoas. E depois chegava-se à altura de o forno estar quente, o forneiro com um vassouro de giesta ou de pinho, rama de pinho, e tal, varria aquilo bem varridinho, e tentava meter o pão. Portanto, havia ali seis ou sete mulheres, ou que fossem cinco... O que tinha que ser era só a conta de doze alqueires, que é o que leva o forno. INQ Pois. INF1 O forneiro já sabe o que aquilo leva, assim dizia às mulheres: "Quanto é que vais amassar? Alqueire? Ou alqueire e meio? Conta até "... O forneiro fazia a conta, tinha que dar só os doze alqueires, que é o que leva o forno. INQ Pois. INF1 Senão depois o pão tinha que ficar fora. E não podia ser. Metiam então o pão para o forno. E depois para diferençarem o pão, como é que haviam de fazer? Aí é que é importante. Pois, a senhora metia (...) o seu pão, o senhor igual, ele metia igual, eu igual, e depois para a tirada de estar cozido, como é que o haviam de diferençar? Antes de o meterem... Por exemplo, a senhora: "Ó senhor forneiro, que sinal é que eu ponho ao meu pão"? "Um dedo". Fazia uma poça com o dedo (...) na broa. INQ Rhum-rhum. INF1 Ou um dedo... (...) Outra freguesa, depois: "E que sinal é que eu ponho"? "Ponha dois dedos, duas poças". A outra: "O que é que eu ponho"? "Um pauzinho". Um pau da grossura dum lápis. "Ponha um pauzinho". Fazia um buraco com o pau. A outra: "O que é que eu ponho"? "Ponha dois paus". Dois buracos com o pau. A outra: "O que é que eu ponho"? "Um belisco". Dava assim um belisco na massa. (...) E quando eram muitos, se havia de ter dois buracos com o pau, punha três. INQ Pois. INF1 Poças com o dedo, se haviam de ser duas, três. INF2 E lá ia o meu pai buscar os tabuleiros, a casa das mulheres. INF1 Portanto, tinha que tudo levar sinal, tudo diferente. INQ Pois. INF3 Era para saberem. INF1 Quando o pão estava cozido, o forneiro tirava o pão, as mulheres estavam ao lado. INQ Mas essas mulheres eram as donas do pão? INF1 As donas do pão! INQ Ah! INF2 As donas do pão. INF1 Cada uma, o forneiro tirava o pão, chegava ali com a pá, dois buracos. Dizia a senhora: "Ai, isso é o meu"! Tirava. Vinha outro: "Ai, isto é dois buracos com o pau"! Tirava. Vinha outro: "Ai, isso é belisco, é meu"! Cada uma levava a sua conta. INQ Pois. INF1 Então se não fosse assim, como é que haviam de diferençar? INQ Pois. Claro. INF1 Se não fosse assim, não podiam diferençar. INQ Claro. INF1 Cada uma levava o seu: ou dois dedos, ou três, ou um belisco, ou dois paus, ou três. E batia tudo certo. Cada uma lá levava. Depois de estar tudo no tabuleiro, tudo certinho, se às vezes havia uma confusão, um buraco mal feito, ou uma poça com o dedo um bocadinho mal feita, ou outra que a massa cresceu que se conhecia mal, às vezes uma tirava o que não era dela e tal, e depois iam era fazer a diferença: "Não, isto tem jeito de ser a minha", e tal. E lá acertavam e coisa, e cada uma ficava com o seu. INQ Pois. INF1 Depois de estar no tabuleiro, o forneiro levava o tabuleiro de cada uma. Ou que fosse longe, ou que fosse perto, tinha que lho ir lá levar. E depois à noite... Bem, esta é que não disse! Quem cozia o pão, fazia (...) as broas e punha no tabuleiro. Mas faziam uma um bocadinho maior – as outras eram mais pequenas –, mas faziam uma maior que era a paga INQ Rhum-rhum. INF1 (...) do trabalho do forneiro. Faziam uma um bocadinho maior que era a poia, um bocadinho maior para a paga (...) do forneiro. INF2 A paga era uma poia. INF1 Às vezes lá havia mulheres um bocadinho agarradas, faziam igual, ficavam pequeninas; havia outras que tinham mais consciência, uma poiazinha maior.
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INF1 Por exemplo, Agosto, e assim, é que ele, mais ou menos nesse tempo, é que então faziam a malha. E depois se acaso era muita a quantidade, iam, por exemplo, quatro ou seis homens. Se eram seis, três de cada lado, a malhar; se eram oito, quatro dum lado e quatro do outro, com os manguais então a malhar o pão. Do mesmo feitio. A espiga tudo para o mesmo lado, como é que é assim em escama, INQ1 Rhum-rhum. INQ2 Rhum-rhum. INF1 a fazer escama, a espiga toda assim: uma aqui, outra um bocadinho mais baixo, outra mais abaixo. Já o podiam pôr um bocadinho mais basto porque a força já era muita a malhar. INQ2 Pois. INF1 Portanto, estavam quatro daqui e quatro dalém. Eu até tinha um mangual, parece que o dei para o rancho, ou não sei quê. INF2 Deram ao nosso Diódoto, o seu neto. INF1 Ai, deu esse ?... Eu tinha muita força para malhar. Por exemplo, se os homens eram mais somenos, e uns mais fracos e outros mais fortes, controlavam. INQ2 Rhum-rhum. INF1 Dois para aqui, mais fortes; dois para além, mais fracos.
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INF E depois vamos então à malha. Estendem então o pão, como que é umas camazinha. INQ Rhum-rhum. INF Ao fundo a eira tem assim um bocadinho de bordo para o pão não sair fora, em caso de coiso. O pão, depois, começam-lhe a bater, vai correndo, e depois põem-lhe... Cortam um pinheiro e põem-no aqui ao fundo para não fugir, de cima da tora. Se é com oito, quatro dalém e quatro daqui. Os quatro que além estão, vêm malhar aqui aos meus pés. Os quatro dalém malham aqui. Os daqui vão malhar quase aos pés dos dalém. Mas é preciso atenção. INQ Claro. INF Que ele às vezes abriam a cabeça. Quem sabia mal, às vezes descontrolava-se e... INQ Pois. Ah, sim, porque aquilo é com uma força! INF (...) Os daqui malhavam além e os dalém malhavam aqui. Mas a força já era muita, já então podia deixar o pão mais um bocadinho mais basto. INQ Pois. INF Porque a força já era muita. INQ Rhum-rhum. INF À noite, depois de malhado, atavam a palha, faziam molhos, ia para o lado; o que crescesse, aquelas coisas, miudezas da espiga e tal, INQ Rhum-rhum. INF ia para o monte, ia para fora. E depois sempre lá aparecíamos... Nesse tempo, quando era à tarde, sempre há um bocadinho de vento, então com uma pá estendiam o fato, com uma pá de madeira, aventavam daqui o pão ao ar... INQ O que é o fato? INF Um toldo. INQ Ah! INF Um toldo. INQ Pois, pois! INF Toldes grandes. INQ Para aventar. Para, para erguer. INF Para lá cair o pão. INQ Rhum-rhum. INF Estendiam ali uns toldos (...) ... Depois, por exemplo, um espaço como esta sala, estendiam os toldos, todo o fato que tinham, para aventarem o pão ao ar, o ventinho levava a porcaria fora, INQ Rhum-rhum. INF e o pão caía limpinho. À noite, se se dava o caso de não haver vento, metiam-no em sacos. Não havendo vento, não podem limpar. Se não havia vento – que às vezes dava-se isso –, metiam-no em sacos e ficava ali num monte na eira e ficava lá um homem a guardar.
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INQ1 Então e depois era outra pessoa que vinha apanhar as, as gavelas?... INF1 E depois, (...) em estando seco, conforme o tempo que fosse... INQ1 Ai, ficava lá uns dias ainda, ou não? INF1 Ficava. Aí oito dias (...) ou quatro, ou seis, conforme... INQ2 Nas paveias? INF1 Nas paveias. Às vezes dava-se o caso até de virar o tempo, (...) com a travessia – que a gente aqui chama a travessia –, que dá muita humidade. INQ1 O que é? Travessia é o quê? INF1 A travessia é quando se põe lá em cima na serra, a deitar névoa, água miúda. INF2 Começa a andar muita névoa . INQ2 Rhum-rhum. INQ1 Ah! Isso chama-se a travessia? INF1 (...) Travessia. INQ1 Mas diz que está travessia na serra? INF1 Então a gente vê-a daqui! INQ1 Pois. INF1 Tapa além a serra toda. INQ1 Ah! INF1 E há outra névoa que está além pousada para o lado da Covilhã, que a gente chama o aguião. INQ1 Ah! INF1 É o aguião. Quando o aguião lá está a fazer vento juntamente com a travessia, os telhados aqui há muitos que vão à vida. As telhas (...) vão por aí afora. INQ1 Pois. INQ2 Rhum-rhum. INQ1 Portanto, a travessia é, é a bruma para aquele lado? INF1 É uma névoa a deitar humidade. INQ1 Uma nevoazinha. Rhum. INF1 Uma névoa a deitar humidade. INQ1 E o aguião? INF1 O aguião, esse não bota água. Esse é mais seco. INQ1 Ah, é mais seco? INF1 É mais ciclone. INQ2 Rhum-rhum. INF1 Isso é mais ciclone. INQ2 Mas é vento forte? INQ1 Mas é vento forte? INF1 Também é vento forte. INQ1 Vento forte mas, portanto, do lado do quê? Do lado da Espanha? Ou... INF1 Sim, do lado da Espanha, (...) aqui ao lado do norte. INQ1 É mais do lado da Espanha. INQ2 Rhum-rhum. INQ1 Rhã-rhã. INF1 O norte é assim aqui, assim mais aqui ao lado, para a direita do norte. (...) Quando o aguião lá está naquela serra além e a travessia ali, os gajos batem forte. Mas o aguião é mais forte que a travessia.
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INQ Servia para quê essa palha? INF1 Essa palha, depois, antigamente, antes dos colchões que agora há, a maioria era com essa palha. INQ2 Essa palha mesmo partida? Não era posta, não era com o colmo que faziam os colchões? INF1 (...) O colmo era uma coisa e a palha era outra. INF2 E a palha era outra. INF1 Por exemplo, onde é que havia cá os colchões, nesse tempo, que agora há? INQ2 Pois. INF1 O colchão, metia-se lá a palha assim direita; a gente até tinha uma forquilha para a levar aos cantos do colchão. INF2 Andavam com a forquilha assim para a frente e para trás . INQ2 Ah! INF1 E até dizem que a palha que era mais saudável que os colchões de agora. INQ2 Pois é. INQ1 Talvez. INQ2 Mas era um bocadinho dura, que eu já dormi em colchões desses, é um bocadinho... Às vezes, começa-, começava aqui a espetar-se uma coisa... INF1 Oh! (...) A gente quando anda maçado, não olha lá a nada disso! INQ2 Ah, pois. INF1 O que quer é dormir.
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INF1 Já acartei tanta! Tanta eu já acartei! Andava na fábrica e tanto eu trabalhei para criar cinco filhos! Ah! INQ1 Pois. INF1 Nem quero que me lembre! E com más passagens e tudo! Olhe aqui um grande calo! Tanto molho acartei! INQ1 Estou a ver, estou. INF1 Que nunca se vai embora. Ai! Eu quando ia para a fábrica, já ia maçado que eu sei lá! INQ1 Claro. INF2 O meu pai sabe fazer de tudo! Tudo! INF1 Ai, eu sei fazer de tudo. Tudo! INQ2 Sim senhor. INF2 Ele é que limpa a casa, ele é que faz tudo! INF1 (...) Mesmo agora, as posses não são lá assim muitas e eu já me mete medo as coisas, não é? INF2 E percebe de tudo! INF1 Que a idade também já... INQ1 Claro. INF1 Mas sou muito jeitoso para tudo! Tudo! INF2 O meu pai faz de tudo! Percebe de tudo (...) na agricultura. Percebe de tudo! INF1 (...) Mas tanto trabalhinho eu levei! Fui tropa em 35. Fui tropa em 1935. Sabe quanto é que levei para a tropa? Setenta paus. Setenta escudos. E sabe onde é que os ganhei? A faltar alguns dois meses, quando saía da fábrica à uma hora da noite, todas as noites dois molhos de mato para vender. Era duro! INQ1 Pois, claro. INQ2 Pois, assim... INF1 Saía da fábrica à uma hora da noite, quando havia boa lua... INQ1 Rhum-rhum. INF1 Todas as noites dois molhinhos de mato para vender. Ia (...) roubar para aí. Ele havia para aí tanto! INF3 Onde é que o havia! INF1 Foi (...) quanto levei para a tropa. INF3 Também era preciso muito molho para dar aquele bocado . INF1 E depois tirei número alto. Tirei número alto, vim-me embora aos três meses. Lá davam... Lá comia-se bem, mas o que eu não gramava era a sopa da couve. Eu estive em Vendas Novas. INQ2 Rhum. INF1 Nunca ouviu falar em Vendas Novas? INQ2 Sei, sei, sei onde é que é. INF1 É Alentejo. Eu fui para lá assim muito mimoso, com a aguinha, cheguei lá, água dos poços, aquilo foi duro! E comia-se lá então muita couve, muito grão, mas à quinta-feira já davam um copinho de vinho. Muito grão e assim, mas aparecia lá (...) aquela couve grande, com um troço assim, e eu nunca gostei do troço. Nunca! Nem hoje! Nós aqui fazemos a sopinha, é só a pontinha da couve. INQ1 Pois. INF1 É como digo: levei trinta e cinco paus, gastei lá (...) em carcaças, ou um bocadinho de pão e queijo, ou um bocadinho de legume, e tal. INF2 Setenta escudos! Ele levou metade do dinheiro, deixou cá a outra metade! INF1 Porque eu engraçava (...) pouco com aquela sopa, gastei lá trinta e cinco escudos. Ainda trouxe outros trinta e cinco. Um dia estava lá a uma sombra, aparece-me ali um alentejano: "Eh pá! Queres comprar (...) este estojo"? "Então o que é isso"? Uma caixinha que ainda ali tenho. Aquilo até era alemão, germânico. INQ2 Rhum-rhum. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Que é uma caixinha assim quadrada, forrada de veludo – de veludo – e (...) com uma gilete lá dentro – dentro da caixinha. INQ2 Rhum-rhum. INF1 Aquilo é de desaparafusar... Digo-lhe eu: "Quanto é que queres por isso"? "Dás-me cinco paus". Peguei nos cinco paus: "Toma lá"! Arranjei uma caixinha... (...) Havia ali um monte de biciclete de aluguer, o gajo aluga uma biciclete uma hora, ficou sem dinheiro. Eu a gilete ainda a aí tenho. Como é que a vida pode ser igual? INQ1 Pois. INF1 Não pode. Que uns estragam e outros não! Ainda a aí tenho, que já dá para a minha vida. INQ2 Pois. INF1 Pois já desde 35.
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INQ1 E essa debulha, como é que era feita? Que o senhor disse que chamavam uns amigos... INF1 Chamavam familiares e amigos. Isso era feito só à noite. (...) Na altura esmagavam... INQ1 E como é que era? Como é que era? Como é que se fazia? INF1 Malhar milho. INQ1 Malhar? INF1 Malhar milho. INQ1 E aquilo que saía... INF1 (...) Se era pouca quantidade, que havia ali uma malta de pessoas, assentavam-se ali a conversar e a beber qualquer bebida, e faziam à mão. Nos vossos lados não 'fazíendes' à mão? INF2 Quer dizer, também havia à mão, mas quando era muita quantidade era a malhar também. INQ1 Era a mesma coisa. INF1 Pois, mas quando era pouco era à mão. INF2 Às vezes dava até às três da manhã. INQ1 Mas o senhor... INF1 Depois o que fica no meio é o casulo. INQ1 O casulo. INF1 O casulo, onde o milho está agarrado. INQ1 Pois. É que eu fiquei só com uma dúvida era porque o senhor falou em debulhar. Eu queria saber se debulhar era, se era à mão, ou se também era com máquina, tanto se podia dizer malhar como debulhar? INF1 Se é pouca quantidade, à mão. INQ1 Sim. INF1 Se é mais muita, é à trancada. Ou com uma tranca ou com um mangual. INF2 É com um mangual. INQ1 Com uma tranca ou com um mangual. INF1 Ou com uma tranca assim ou com o mangual. INQ2 A bater. INQ1 Rhum-rhum. INF1 E é como lhe digo... INF2 Eu tenho ali ainda o mangual. INF1 Ali para a terra do meu genro, juntavam-se as pessoas... INQ2 Rhum-rhum. Qual é a sua terra? INF1 Perto de Alvoco. INF2 A minha terra é ali ao pé de Alvoco da Serra. INQ2 Rhã-rhã. INF1 Debulhavam à mão. Lá se juntava muita gente e lá bebiam umas aguardentes. INQ2 Pois, pois. INF3 Abriam uma garrafa de aguardente... INF2 Aguardente! INQ2 E depois encontravam uma espiga vermelha... INF1 Pois, era isso. INQ2 Como é que chamava àquela espiga vermelha, de milho vermelho? INF1 Não era a espiga dos amores, ou quê? INF2 Era. Às vezes até, quando encontravam, (...) era uma ciganada com aquilo ... INF1 Então como é que faziam com a espiga dos amores? INF2 Quando era com a espiga dos amores, (...) era engraçado! INF1 Olhe, já está quase a aparecer a travessia. INF3 Mas era a vermelha? INF2 Era. INF1 Ai ainda lá não está! INQ1 É, mas vai aparecer a travessia. INF3 Era avermelhada (...) . INF1 Ainda lá não está. Em lá estando, faz aqui logo muito vento.
UNS31
INQ1 Chama-se renovo a tudo? INF1 A tudo. INF2 Tudo. INQ1 A tudo o que se semeia? INF1 Batatas... Olhe, (...) eu, pelo menos, ouvia dizer aos meus sogros: "Olha, ó Deodoro, vai lá levar um bocadinho de empalho para se empalhar o milho"! Era isso. Era essa palha que tiravam ao pão... INF2 Palha ou estrume. Pronto, mato. (...) Mato também. INF1 Ou estrume. Espalham no meio do milho, quando está assim pequenino, para o regarem, para a água não fugir. (...) INQ1 Rhum-rhum. INF2 Para não cair água para baixo, dos lados, para aquilo que é dos outros e... INF1 Eu via os meus sogros. As batatas, (...) aquela palha mais curta que tiram (...) ou do centeio, INQ2 Rhum. INF1 ou do feno, guardavam para empalhar as batatas, para empalhar o milho, até para empalhar o feijão. INQ1 Pois. INQ2 Mas é enquanto está baixinho, o feijão? INF1 Eu via os meus sogros. Assim. Assim, quando está... (...) INQ1 Baixinho. INF2 (...) INF1 Eu via os meus sogros fazer. INQ1 Pois, mas, portanto, o feijão, a batata e isso tudo, eu posso chamar renovo? INF1 Renovo. Pois. INQ1 Tudo isto é renovo? INF1 Leva tudo empalho. INQ1 Sim senhor. INF1 Eu via os meus sogros. O milho, o feijão, as batatas... INF2 Até as cebolas levam também. Também levam. INF1 As cebolas também lhe põem um bocadinho INQ1 Rhum-rhum. INF1 (...) para mor de ficar-lhe ali a água, (...) para não levar a água lá às cebolas. INQ2 Para a terra não... INF1 Eu via os meus sogros porque trabalhavam na agricultura. INQ2 Pois, pois.
UNS32
INF1 Dezoito arrobas com seis quilos. INQ1 Duzentos... Duzentos e setenta quilos. Menos seis quilos? INF1 Com seis quilos. INQ2 Ainda mais? INF1 Dezoito arrobas com seis quilos. INQ1 Mais seis quilos. Eu faço-lhe as contas certas para poder escrever. INQ2 Dezoito vezes quinze. Não é? A arroba, a arroba são quinze quilos. INQ1 Eu sei, não é vinte como eu disse. INQ2 E ele levou uma... O seu pai levou uma terra... INQ1 É duzentos e setenta menos... INQ2 Mais seis. INQ1 Mais seis. INF1 Mais seis. INQ1 Duzentos e setenta e seis quilos. INF1 É obra. INQ1 Então não é? INQ2 E ele levou uma pedra às costas... INF1 Mas ele era mais forte do que eu! (...) Ele eu sou mais fraco. Ele era (...) assim seco, mas muito forte – seco de ossos. INQ1 Rhum-rhum. INF1 E foi para o primeiro piso. INF2 Duma casa. INF1 Não foi a andar. Para o primeiro piso! INQ1 Pois, foi para subir. INQ2 Ai, que horror! INF1 Não vê que antigamente não havia máquinas para subir a pedra. INQ1 Pois, para empurrar. Pois. INF1 Era um cadernal e tal, tal, com umas varas e assim – para uma casinha ali adiante, para o primeiro piso, a subir por um tabuado. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Quando ele morreu, (...) o regedor da freguesia (...) pediu-me uns dados, até vinha na primeira página d' O Século.
UNS33
INF1 O ganhão que ia a gradar – bem, que nesse tempo não havia máquinas –, o ganhão que ia a gradar... Havia ganhões – os gajos que andavam com o gado, com as vacas –, INQ Sim. INF1 havia gajos que tinham medo de ir para de cima da grade. (...) Quem tinha medo, punha-lhe uma pedra de cima da grade – uma pedra grande! INF2 Uma pedra que tivesse peso! INF1 Mas eu uma vez meti além um ganhão com umas vacas a lavrar além a horta da ponte, mas é que o ganhão tinha medo de pôr o pé na grade. "Ai, eh pá, tens medo de ir para a grade?! Vou para lá eu"! Eu é que me agarrei à corda e fui eu para a grade e ele na frente das vacas. INQ O, o ganhão era aquele que trazia as vacas dele e a grade dele para fazer o trabalho para si? INF1 Pois. Pois, o próprio dono. INF3 Porque ele tinha medo de ir para lá. INF1 E eu meti-o lá – o Diógenes, que os senhores já conversaram com ele. INQ Rhum-rhum. INF1 O Diógenes, meti-o lá: "Ó tio Dimas, eu parece que estou com medo de ir para a grade"... "Vou para lá eu, homem! Não ponhas lá pedra nenhuma. Vai tu para a frente das vacas". Fui para lá eu, agarrei-me à corda e às vacas, e ele à frente das vacas, e lá fui.
UNS34
INQ1 E se eu for regar, também posso dizer que vou à rega? Ou não? Não se diz rega? INF1 Rega (...) quando lhe pertence. INQ2 Pois. INQ1 Rhum-rhum. INF1 (...) Temos água que é só nossa e tem outra que é por ordem. Tem outra que tem um dono – tem um homem. Por exemplo, esta levada que passa aqui e outra do lado de lá do povo, um homem contrata esta levada que aqui passa para aí (...) a quase um quilómetro... INF2 Está a chover? Está a chover? INF1 É quase um quilómetro. (...) INF3 Não chove. INF1 O homem é que arremata todos os anos esta levada. INF3 Hoje não chove. Só chove amanhã. INF1 Arremata, por exemplo, (...) por quinhentos contos, nos três meses do Verão. Arremata esta levada (...) por quinhentos contos. Aqui do pontão para cima – deste pontão aqui onde a gente passou –, INQ1 Rhum-rhum. INF1 daqui para cima, que gastam desta água, é, por exemplo, a trezentos escudos à hora; do pontão até ao cabo, está justo por quinhentos contos. O senhor tem uma horta, que é mais ou menos medida com quem sabe. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Eu tenho outra horta que é mais pequena. O senhor tem, por exemplo, uma horta que tem, por exemplo, lá hora e meia de água. (...) E em hora e meia faz da água o que quer. A minha é um bocadinho maior, INQ1 Fazem duas. INF1 posso ter duas ou três horas, por exemplo, uma tapada maior. INQ1 Rhum-rhum. INF1 (...) Já têm uma folha (...) já de antigo. Já é de antigamente, já medido por pessoas... INQ1 Rhum-rhum. INF1 O senhor paga, por exemplo, seiscentos paus; eu pago, por exemplo, mil e tal. As horas que lá tem é as que paga. INQ1 Pois, mas quando... INF1 Já vem na folha. INQ2 Rhum-rhum. INQ1 Qual é a vantagem daquele que arremata por quinhentos contos? É porque acha que vai fazer mais do que os quinhentos contos na rega? Daquele que na paga que vai receber de mim e do senhor e dos outros? INF1 Por exemplo, esta levada (...) sai em sessão. Sai em sessão. Fazem uma sessão, ali no salão do padre. Fazem uma sessão. Juntam-se ali muitos homens. Um faz quinhentos, e outro faz quatrocentos, e outro faz setecentos, e outro faz mil. E é: vai a lanço. INQ1 E esse dinheiro vai para onde? Eu é que ainda não percebi. Esse dinheiro, os setecentos contos, quem é que os recebe? INF1 Esse dinheiro, esse dinheiro vai a lanço. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Esse dinheiro vai a lanço. O senhor faz, por exemplo, faz mil – mil contos. Eu faço oitocentos. O outro senhor faz seiscentos. Vai o outro faz quinhentos. O que menos faz... (...) INQ2 O que fizer mais barato? INF1 O que menos faz, mas se é competente... INQ2 É que fica com?... INF1 Se o homem é competente para tratar daquele problema, é esse de quinhentos que faz mais barato é que fica com ela. INQ1 Mas, fica... INF1 Se não é competente, não lha dão. INQ1 Pois. Mas esses quinhentos contos, quer dizer, ele vai receber quinhentos contos? INF1 Ele depois... INQ1 Ou ele é que vai pagar quinhentos contos? INF1 Vai receber! Porque ele anda aqui três meses... INQ1 Ah, para tratar... Vai receber quinhentos contos para tratar da levada durante esses três meses, é isso? INF3 Pois. INF1 Para dirigir a água. INQ1 Ah! INF1 O senhor tem uma horta, eu tenho outra, aquele tem outra, (...) e depois o homem é que diz... INF3 Ainda eu ontem paguei mil escudos... INF1 Vão-lhe pedir a água: "Ó fulano, então não me dás a água para a horta"? "Hoje não. Hoje não pode ser. Amanhã. Amanhã, se calhar! Se não calhar é para depois". INQ1 Rhum-rhum. INF1 Eu vou também: "Então, ó pá, então não me dás a água"?, e tal, tal. "Espera lá um bocadinho". Ou fica para amanhã, ou fica para de noite, ou fica para de dia, ou para terça ou para quarta-feira. Orienta. É um orientador. INQ1 Sim. INF1 Orienta aquilo durante a regadia de três meses.
UNS35
INF1 Tem uma comportazinha a cair da levada para baixo. INQ1 Quem é que tira essa?... Quem é que abre essa comporta? É o próprio? INF1 É o dono (...) das propriedades quando vai regar, ou então (...) é o gajo (...) que guarda aquela água. Ele alevanta a comporta e manda-a para o gajo a quem a prometeu. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Mas, no geral: "Olha, vai regar". O gajo que vai regar alevanta a comporta, INQ1 E tira a água. INF1 ou tira muita, ou tira pouca. Conforme o apetite que tem para regar, ou tira muita, ou tira pouca. Risos Se é guloso, bota muita; (...) se o gajo tem mais consciência, bota menos, que é para dar para os outros. INQ1 Bota menos. INF2 Se carregar depressa, ele bota mais muita, que é mais... INQ2 E esta, esta grande que o senhor para trabalhar a sua horta, como é que se chama? INF3 Já usou! INF1 Uma enxada. Então eu até tinha uma... Tinha cá uma com trinta centímetros, dei-a dada. INF2 Tenho além uma ainda na minha loja. Eu tenho. Tenho-a na minha loja. INF1 Ele assim uma grande como esta. Dei-a dada! INQ2 Deu-a dada. INF1 "Vá lá isso que eu nem posso olhar para isso"! INQ2 Então quando o senhor andava a fazer esse trabalho com a enxada, que é que dizia que estava a fazer? Estava a?... INF1 Cavar. INF2 Cavar. INF1 Cavar.
UNS36
INF1 O enxadão é para se fazer o carvão. INQ1 Ai era só para o carvão? INF1 Só para o carvão. INQ1 Por causa das torgas do?... INF1 Pois, pois. Para o carvão... (...) INF2 Se fosse preciso, bate, que é como é espécie de machada, era para abrir a torga. INF1 Ou o carvão ou (...) para escavacar lenha. Tenho além um que (...) tem alguns dez quilos! INQ1 Hi pá! E não o deu dado? Ainda? INF1 Não. Está além mas é para estar ali. INQ1 Bem o pode dar! INF1 (...) Tinha um cabo de azinho muito duro, aquele meu enxadão. E há aí um rapaz que é um bocadinho (...) doente mental e ele dá-se muito bem comigo. INF3 E tem muita força ele! INF1 Aquilo tem uma força de boi! E o gajo às vezes passa aí, eu até fujo dele, que em estando ao pé de mim, o gajo (...) não lhe dá para se ir embora. INF2 Está a descansar! INF1 Ainda ontem o vi aí passar, eu estava aqui à janela e recolhi-me para dentro. INQ1 Olhe, é como nós também. Como nós os dois também. Estamos ao pé de si, também não nos dam-, não nos dá para ir embora. INQ2 A gente também não o deixa ir embora. Risos INF1 E o gajo pediu-me o enxadão: "Ó tio Dimas. Olhe lá, não tem aí um enxadão"?... O gajo tem muita força. O gajo é um boi! Tem muita força e pediu-me o enxadão porque mo viu, para escavacar lenha. E o gajo lá o meteu nalguma pedra e não me partiu o cabo?! Um cabo tão duro! Um cabo que já tinha há mais de vinte anos. INQ2 E partiu-lhe o cabo? INF1 Partiu um cabo de azinho – que o azinho é muito forte! INQ1 Pois, que é muito rijo! INF1 Partiu-lhe o cabo. "Ó tio Dimas, olhe, parti-lhe o cabo" e tal. "Então, ó Dionísio, então e agora"? "Oh, eu arranjo-lhe um". "Então olha, vais em baixo, que andaram lá a cortar carvalhos" – que é aqui (...) ao fundo do povo, onde fazem o mercado – "andaram ali a cortar uns carvalhos, vai lá ver se lá arranjas um 'rentio' e 'traze-o'". Lá andou a ver e tal, trouxe-me logo o cabo para o enxadão. Já foi o ano passado. E depois já mo pediu outra vez: "Então, ó tio Dimas, já lhe pôs o cabo"? "Não, o cabo vinha verde e está a secar". E já nunca lho ponho, que é para o gajo não o levar. INQ1 Pois. INF1 Tenho-o além. O gajo pesa alguns dez quilos, que é peta dum lado e pá do outro. INQ2 Pois. INQ1 Pois. INF1 Que é o que está aí. INQ2 Sim senhor.
UNS37
INF1 Olhe, da minha idade, (...) há aí um homem que foi à tropa comigo. Parece meu avô. Anda com umas muletas e assim. Parece meu avô. INQ E é mais novo que o senhor? INF1 É da minha idade. INQ É da sua idade? INF1 É da minha idade. Da minha idade não há ninguém que diga que me viu numa escola. INQ Rhum! INF1 Não há ninguém que diga que me viu numa escola! INF2 Se ele escreve bem! INF1 E se eu escrevo bem! INF2 Escreve melhor do que eu! INQ Mas nunca andou na escola? INF1 Nunca andei na escola. INQ E aprendeu como? INF1 Aprendi (...) aos bocadinhos, a solto, aqui e além. INQ Em casa? INF1 (...) Ainda hoje trago sempre um bocadinho dum lápis na carteira. E um bocadinho de papel. Aproveito tudo. Ele , às vezes, com pessoas: "Olha lá, como é que se escreve um tostão? Como se escreve dois"?, e tal, tal, tal. Eu se fosse para a escola dava bem. INQ Pois. INF2 Tenho um filho na França que gosta muito de estar com o avô para lhe explicar as coisas antigas. INF1 Pois. (...) INQ Claro. Claro. INF1 Sempre um lapizinho e um bocadinho de papel... INQ Que ele sabe muito. Sabe muita coisa. INF1 E então para escrever, para mim não há pai. INQ Pois. INF1 E se eu escrevo bem!
UNS38
INQ1 Na qualidade de figos, não há nenhum que se chame figo-de-São-João ou figolampo, não há por aqui? INF1 Há. INF2 Há. INF1 Há a lampo que dá pelo São João – das figueiras do Algarve. INQ2 Chama-lhe como? Figo?... INF1 Figo-lampão. Que vem aí por o fim de Junho. INQ1 Mas quando diz figueiras do Algarve, são f-, é figos que vêm do Algarve ou são figos de umas figueiras que há cá? INF1 Dão-lhe o nome. INF2 (...) É o nome da figueira. INF1 Dão-lhe o nome. INQ1 Mas que há cá? INF1 Há. Essas figueiras do figo-lampão dão a primeira camada fins de Junho. Dão a primeira camada. Este ano até quase que nem se viu. INQ2 Pois este ano foi muito mau para figos. INF1 Foi. INQ2 Lá para baixo também. INF1 Para tudo. INF2 Você sabe que (...) são seis horas? INF1 Esse figo-lampão... INF2 São seis horas. INF1 Esse figo-lampão há anos que dá muito. INF2 Ele lá sabe. (...) INF1 E depois de colherem o lampão, dá – aí é que é interessante –, (...) ele essa figueira do figo-lampão dá aquela camada do figo grande. INQ2 Rhum! INF1 E depois dá o vindimo se lhe puserem o bravo. INF2 (...) INQ2 Se lhe puserem o bravo? INF1 Sim. INQ2 E o que é pôr o bravo? INF1 Um figo bravo. INQ2 Ah! INF1 Há aí figos... INQ1 Espécie dum enxerto? INF1 Não, não. INQ1 Então não percebi. INF1 A figueira do figo-lampão dá uma camada. INQ2 Em Junho, no fim de Junho. INF1 Aí em Junho, Julho. INQ2 Sim. INF1 Aí o mais de Julho. Dá uma camada deles grandes e fica quase sem nada. E já fica com os pequenitos, com um figo pequenito. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Para dar o vindimo. INQ2 Pois. INF1 Mas é preciso que lhe ponham uma camada (...) de figo bravo... INQ2 Mas põe-se uma camada como? Como é que se põe? INF1 Há aí figueiras bravas... INQ2 Sim. INF1 Olhe (...) aqui ao pé do pontão... INQ2 Vai-se a uma figueira brava e tira-se os figos. INF1 Mas é preciso que o figo esteja completo. Dessa figueira brava há: o figo que está completo da figueira brava, que esteja já amarelo, não se come – não se come –, mas a figueira brava tem um figo que quando está maduro é quando está completo. INQ2 Rhum. INF1 E lá por dentro, dentro da graínha do figo, INQ2 Rhum. INF1 cria-se um bichinho, um bichinho muito miudinho, muito miudinho, uma espécie dum mosquito. E quando está maduro, esse figo bravo, está assim um bocadinho mole e (...) no bico do figo, quando está maduro, o bico começa a abrir um bocadinho, INQ2 Rhum. INF1 e sai de lá aquele mosquito. INQ2 Rhum. INF1 Antes de o mosquito sair, a gente vai a uma figueira brava, colhe ali uma mancheia deles, e depois com uma agulha mete-se-lhe uma linha aí com dez ou quinze figos. INQ2 Rhum. INF1 E faz-se um cordão. E depois com esse cordão vai-se dependurar na figueira que deu os figos-'lampãos'. INQ2 Ah, que engraçado! INF1 Esse mosquito, quando depois se chega à altura que o figo está maduro, INQ2 Sai. INF1 (...) sai daqui e vai voar e vai-se filar ao figo pequenino da figueira que deu o figo-lampão. Vai-se filar a esse figo. (...) Onde o mosquito vai morder, esse figo amadura. E depois o mosquito corre a figueira toda. Onde ele pica, o figo amadura. Se não lhe puserem nenhum figo, desses da figueira brava, não amadura nem um. Cai tudo ao chão. INQ2 Que engraçado! Nunca tinha ouvido contar isso. INF1 Já o eu fiz! INQ2 Mas isso cha-... Isso é que se chama os figos-vindimos, esses depois que na-, que vêm mais tarde... INF1 Bem... INQ2 Que amaduram mais tarde, é que se chamam os vindimos? INF1 Pois, é o vindimo. Há a qualidade de figo-vindimo das figueiras que não dão lampão. INQ2 Pois, isso é outra coisa. INF1 Isso é só as que dão o figo-lampão, o grande. INQ1 Rhum-rhum. INQ2 Rhum. INF1 Quando se lhe colhe o figo-lampão, fica já o figo-vindimo pequenino, mas se não lhe puserem o figo bravo, nem o primeiro amadura! INQ2 Que engraçado. INF1 Então (...) eu já o fiz! INQ2 Pois. INQ1 Pois. INF2 Veja lá então este aqui. INQ2 É giro. INF1 Eu já o fiz porque um senhor que tem uma quinta... INF2 Quem percebe muito de fruta sou eu. INF1 Quem tem uma quinta além daquele lado... INQ2 A senhora sabe? INF2 Gosto muito de fruta! INF1 Tem uma quinta além daquele lado e deu-me lá uma figueira grande para colher. Bem, deu-ma porque eu dei-lhe a recompensa a trabalhar lá. Ele deu-me, por exemplo, uma chouriça e eu dei-lhe um porco. Eu dei-lhe muito mais. (...) Que era o pai dum padre. "Ó senhor Dimas, colha aqui esta figueira", e tal. Porque eu trabalhava lá. Mas quando ele dava alguma coisa, já lá tinha a recompensa. Lá colhi aqueles figos-'lampãos'... E eu sabia onde havia uma figueira brava, grande, que era no Ourondinho, onde está o Dinis. Nunca ouviu falar nos Dinis? INQ2 Não. INQ1 Não, da família dos Dinis, sim, mas... INQ2 Sim, da família dos Dinis... INF1 (...) Uma quinta que há aqui no Ourondinho, havia lá uma figueira... Ai, mas isto já lá vai lá, já lá vão mais de vinte anos. E eu sabia lá que havia lá uma e eu fui lá. Levei até uma bolsa, uma bolsa de pano, porque sabia que estava lá essa figueira, porque eu também lá trabalhei algum tempo. Fui lá, colhi uma bolsa meia de figos, meti para dentro da bolsa, meti-lhe o baraço e veio a bolsa fechada. E cheguei ali à figueira que me deram, onde colhi os figos-'lampãos', fiz um rosário com uma agulha a enfiar no pé dos figos. Fiz um rosário aí com uns dez, ou quinze, ou vinte e dependurei na figueira. Ah, isso foi ali uma fartura de figo enorme. E se não se lhe puser, nem o primeiro amadura! INQ1 Rhum-rhum. INF1 Eu depois observei: o mosquito saía do figo bravo – até fazia um bocadinho de farinha –, saía um bocadinho do figo bravo, avoava – é tudo o destino, ou o cheiro, ou não sei! –, ia-se logo filar ao bico do outro figo pequenino. INQ2 Pois. INF1 Onde quer que mordia, amadurava tudo. Houve lá uma fartura de figos enorme! E aqui no ribeiro também há uma dessas. Ali, onde a gente aqui desce, há ali uma dessas. INQ2 Sim, sim, sim.
UNS39
INQ1 Se eu quiser pôr uma videira nova, o que é que eu ponho na terra? Como é que se chama aquilo que eu ponho na terra, novo? Em bravo? INF1 Se quer plantar uma videira... Mas é para enxertar? INQ1 Para enxertar depois. INF1 Abre uma covazinha aí com quarenta de fundo. Abre uma covazinha aí com quarenta de fundo, mete-lhe um bocado de estrume no fundo, aí uma pequena porção de estrume no fundo, e depois bota-lhe uma porçãozinha de terra de cima do estrume, aí três dedos de terra de cima do estrume; e depois pega na planta brava, na videira brava, abre-lhe a raiz assim para o lado, assim muito abertas, dá-lhe então um jeito de escangalhá-la assim, planta de cima daquela terra. E depois segura a planta assim e bota-lhe mais terra aqui de cima. (...) INQ1 E chamo-lhe a isso o quê? Essa, isso que ficou lá na terra chama-lhe o quê? INF1 A plantação. INQ1 A plantação? INF1 A plantação. INQ1 Rhum. INF1 E depois bota-lhe uma porção de terra de cima; e depois (...) a faltar aí cinco centímetros para encher a poça, faz aquela plantação, deita a terra de cima – raiz escangalhada! INQ1 Pois, toda aberta. INF1 Que é para (...) cada uma ir para o seu termo. INQ1 Rhum. INF1 Não é juntas, toda a ir para o mesmo lado. Assim, para todas perguntarem a vida! Umas para um lado, outras para o outro. Mas já está o estrume por baixo. E põe um bocado de terra em cima, aí cinco ou sete centímetros de terra em cima, (...) e fica a poça mal cheia. Ainda há terra para para lá ir. E depois pegam num balde de água – mesmo que seja de Inverno, seja em que tempo for –, INQ1 Deita-se para lá. INF1 pegam num balde de água e enche a poça. INQ1 Rhum. INF1 Enche a poça e depois a água vai-se sumindo para baixo. Depois de a água estar chupada, bota o resto da terra para de cima. Bota o resto da terra que está fora para de cima. E se o tempo vai seco... Depois faz uma caldeirazinha em volta, uma pocinha. INQ1 Pois. INF1 E se o tempo vai seco, INQ1 Tenho que ir regando. INF1 depois aí de oito em oito dias, um baldezinho de água. INQ1 Sim senhor. Isto é o bravo, que eu lá pus. INF1 O bravo. INQ1 Ao fim de quanto tempo é que eu o enxerto? INF1 (...) E depois ao ano a seguir, o bravo já está plantado, já está crescido, já está a querer crescer... Oh, num ano não dá para isso! INQ1 Tem que ser mais tempo? INF1 É preciso dois anos. INF2 Dois anos. INF1 É preciso dois anos. E depois o bravo já está talvez aí da grossura do meu dedo, e depois vai então buscar uma qualidade que a senhora entende, de boa qualidade. Vai buscar aonde sente que haja, onde saiba que haja, vai buscar um garfozinho. Vai buscar um garfozinho. Vai buscar um garfozinho e depois... Bem, isso a senhora não é capaz de saber fazer. INQ1 É, é fazer uma coisa assim, não é? Afilado? INF1 Fazer uma coisa assim aguçada, INQ1 Sim. INF1 assim uma coisinha aguçada, e deixa aqui um olhozinho. INQ1 Fica o olho naquela parte que não está aguçada, fica lá? INF1 Pois, (...) na parte aguçada. Fica um olhozinho, INQ1 Sim. INF1 aguça assim, um corte todo certinho, INQ1 Rhum. INF1 todo assim bem certinho, bem aguçadinho. E depois (...) chega à figueira brava, INQ1 À bravo. INF1 ata-lhe um bocadinho (...) de ráfia, aqui ao fundo, ou seja um baraço, INQ1 Sim. INF1 um baraço maleável, ata-o aqui ao fundo, e abre assim aqui. INQ1 Uma racha. Racho aí ao meio? INF1 Uma racha. Mas já aqui tem (...) um travão para não deixar alargar. INF2 Para não ir mais para baixo. INQ1 Ah, para não abrir, para não... INF1 Para não abrir muito. INF2 Para não abrir mais. INF1 Para não abrir muito. Abre então aqui e depois pega então na cuinhazinha que fez (...) já com um olho... Porque fica com dois olhos, um no cimo e outro quase no fundo. INQ1 Rhum. INF1 Mete aqui assim muito justozinho. (...) Ele arranja até uma cuinhazinha de madeira para aqui alargar um bocadinho, e vai metendo (...) sem ferir nada, nem dum lado nem do outro. Por isso tem aquela cuinhazinha (...) para não deixar ferir. INQ1 Pois. INF1 E depois mete para baixo, (...) até que fica bem justozinho, a casca bem unida uma com a outra, e depois aqui mais um bocadinho de ráfia – dessa ráfia das videiras... INQ1 Volto a pôr ráfia? INF1 Aqui, um bocadinho de ráfia aqui, tal, tal, tudo bem 'atabicadinho' (...) INQ1 E não preciso de pôr terra nenhuma aí? Barro, nem nada? INF1 e depois ele põe-lhe terra (...) bem apertadinha. INF2 Tem que tapar. INQ1 Ai, tenho que tapar aquilo? INF1 Mas podendo ser, podendo ficar debaixo de terra é melhor do que ficar fora. INQ1 Ah, está bem. INF1 Podendo ficar debaixo de terra é melhor do que ficar fora. Porque debaixo de terra, a própria terra está a ajudar a soldar; e se ficar fora, se ficar fora da terra, já não é tão bem. INQ1 Pois. INF2 Nem pega tão bem. INF1 Se calhar... INQ1 E chama-se a isso o quê? INF1 Um enxerto. INQ1 Um enxerto. INF1 Um enxerto. INQ1 Olhe... INF1 (...) Se calha a pegar... Isso falha muito. INQ1 Pois. INF1 Isso falha muito. Isto é... Ele lá tem o nome: é um enxerto. INQ1 Não se sabe se é certo. INF1 (...) Lá tem o nome: é um enxerto. INQ2 Enxerto. INF1 Isso falha muito.
UNS40
INQ1 Pronto, devagarinho vou curvando... INF1 Devagarinho, não a força assim muito, até a acompanha por baixo onde faz a curva. INQ1 Pois, para não, para não esgaçar. INF1 Mas muito devagarinho! Mas é preciso que esteja o sol quentinho, que é para ela estar maleável. Se não, se a vai a torcer logo assim de repente, logo parte-lhe ao meio. INQ1 Pode partir. INF1 Curva-a assim devagarinho, faz um rego no chão. INQ1 Rhum. INF1 Se ela tem aí dois metros ou assim, INQ1 Pois. INF1 faz um rego no chão, aí com um palmo de fundo, mergulha-a lá, mergulha-a lá, INQ1 E as... INF1 (...) segura-a com o pé e bota-lhe terra em cima e já não sai dali. Já não sai dali. Curva-a um bocadinho, mete-a debaixo de terra... INQ1 Mas tem que ficar voltado... INF1 (...) E deixa-lhe uma parte, conforme o que ela der, o que ela tiver... INQ1 Pois. INF1 Se ela sair para fora um grande bocado, deixa-lhe aí trinta centímetros de fora. Mergulha-a, INQ1 E volta a sair. INF1 (...) põe-lhe o pé em cima para ela não fugir. Põe-lhe o pé em cima, à vara, bota-lhe terra e depois acalca-a, e curva-a, e depois vira-a novamente para cima, a ponta. Se a ponta tiver trinta ou quarenta centímetros, depois corta-lhe a ponta e deixa-a só aí com trinta (...) centímetros de fora. INQ1 Sim. INF1 E depois onde faz a curva, espeta uma estacazinha. Onde faz a curva INQ1 Sim. INF1 espeta-lhe uma estacazinha, ata-lhe aqui um baracinho. Se houver um acidente, que lhe toquem, para não partir, já ali está oprimida – está a perceber? INQ1 Pois, pois, pois. Estou a perceber. INF2 Já vamos. INF1 Onde faz a curva. INF2 Já vai. INF1 Onde faz a curva, põe-lhe ali uma varazinha, com um baracinho – um baracinho, até um loureiro, INQ1 Sim, sim, sim. INF1 uma coisa que seja maleável – INQ1 Pois. INF1 ele até (...) um loureiro de facto fato , ou assim... INQ1 Pois. INF1 Ele se é, por exemplo, uma... INQ1 Não é bom ráfia? Ráfia não é bom? INF1 Não é muito aconselhável. A ráfia é boa mas é quando é para atar. INQ1 Pois. INF1 (...) Até um loureiro (...) de facto fato , ou coisa... INQ1 Pois. INF1 Uma coisa (...) que não trace. A ráfia, se aí estiver muito tempo, também é capaz de traçar. INQ1 Ah, pois. INF3 Ela também traça. INF1 (...) Que é duro. INQ2 Rhum-rhum. INF3 Não deixa em condições. INF1 E se for um baraço de nylon, ainda pior. INQ2 Ainda pior. INQ1 Pois. INF1 (...) Onde faz a curva, põe-lhe aquela varazinha, ata-lhe ali um baraço de pano, de qualquer coisa. Se às vezes se encostam ali, que a gaja está ali ao aos 'delandão', assim aquela curva grande, pode partir. INQ1 Pois, pois. INF1 Ou que a gaja queira estalar, já não estala, porque está ali oprimida. INQ1 Pois. INQ2 Rhum-rhum. INF1 Podem às vezes encostarem-se ali e abaixarem-lhe a curva ou assim, e dali já não sai. E na ponta que ficou de fora, põem-lhe outra varazinha – uma cana, ou do que por lá usam, ou uma vara – INQ1 Pois. INF1 na ponta que saiu. INQ1 Sim. INF1 E pronto. E se for o tempo seco... INQ1 E, e tenho que regar ou não? INF1 Se for o tempo seco, de vez em quando bota-lhe água (...) onde a mergulhou, INQ1 Pois. INF1 debaixo de terra.
UNS41
INQ Como é que se fazia o carvão? INF1 O princípio do carvão? INQ Sim. INF1 O princípio do carvão. A gente levantava-se aqui cedo, ou a gente sozinho, ou acompanhado com pessoas que andavam no mesmo, e íamos à vida. Uma merendinha de qualquer maneira, do que aparecia em casa, e tal, tal, tal, lá íamos para o carvão. A gente lá ia para a serra, quando chegava lá em cima dava volta onde havia lenha para queimar. Há a torga que tem cepa – que tem cepa grande – e há abetouro que (...) tem assim muita rama também, também tem cepa – uma cepa assim escondida por baixo. Mas a torga é melhor. A torga é melhor para o carvão. A gente vendo assim ali uma quantidade de mato, que a gente entendia que tinha torga para cortar, para arrancar, a gente começava ali a arrancar nelas e botava para o monte. Aventava para o monte, quando fosse aí pelas onze horas, a gente fazia uma poçazinha no chão. A gente perguntava sempre... Se houvesse um bocadinho de inclinação no terreno, abríamos uma poça mais ou menos como é esta mesa, não contando com os bicos, em redondo, aí (...) com vinte centímetros de fundo, assim uma poçazinha, muito asadinha, e tal. A terra que a gente tirava da poça punha-a aqui à frente. Punha-a aqui à frente. A gente, depois, chegava-se a hora de queimar a lenha, ia buscar (...) uma lenha mais miúda, uns gravetos disto, um graveto daquilo, umas joinas secas, e tal. E punha as joinas no fundo, chegava-lhe o lume, com os gravetinhos a seguir das joinas, e tal, e depois lenha assim mais miudinha, e tal, um braçado de lenha, e tal, tal, tal, até que aquilo começasse a pegar. Em estando já assim com força, já a pegar bem, já a receber tudo, já com brasa e assim, começava a gente a pôr da lenha mais grossa, mas (...) lenha mais grossa com raízes, com raízes (...) da lenha que a gente arrancava. INQ Rhum-rhum. INF1 A gente virava a raiz para o lado do lume, aquela mais miúda, para ir pegando, e tal, e depois quando começava já a tomar força, já estava já assim já com força suficiente, lenha mais grossa, já ia tudo. Ia da lenha toda mais grossa. Tudo, a lenha mais grossa que havia era lançada à poça – toda. Ia-a sempre gente deitando e depois (...) quando lá havia muita lenha para arder, a gente ia arrancar mais um bocadinho de lenha. Ia aquela ardendo, e a gente aproveitava, ia arranjar mais uma mancheia para fazer mais muito, mais muito carvão. Depois chegava-se a altura de a gente... Chegava-se a hora (...) de a lenha arder toda. Então aquilo tinha um termo para a gente vir a tempo e horas para casa. E depois (...) de gastar a lenha toda, punha tudo encaramouçadinho, fazia assim (...) um caramouçozinho, enchia aquela poça toda de lenha. E depois a gente ia assim fazendo um caramouço, ia a gente empurrando o lume, assim para trás, para a traseira da poça. A gente até sempre punha a lenha mais alta assim ali daquele lado, e a gente ia pegando... Quando gastava a lenha toda que já lá estava, depois aquilo já tinha muita força, já não havia nada que lhe resistisse. Já se não apagava. INQ Pois. INF1 Nem mesmo que chovesse, já se não apagava. Porque era um lume muito forte. E depois a gente, quando já a lenha estava toda na poça a arder, a gente cá na frente, com um pau com uma forquilha, íamos puxando para o cimo. Havia aqui um pau mal ardido, ia para o cimo; aqui outro, ia para o cimo; ali outro, ia para o cimo. E depois começava aqui a aparecer a brasa, INQ Rhum-rhum. INF1 a brasa já grossa. INQ Pois. INF1 (...) A gente ia chegando, ia chegando, chegando daqui, chegando dalém, tudo (...) para o cimo, para o coruto do monte da lenha, com muita força a arder. E depois aqui na frente, começava já a aparecer muita brasa, já para o carvão. Algum bocadinho de lenha que ali havia, que estava a entreter, a moer esse outro carvão, a gente tirava-o. O que estava mal ardido arrepelava para cima. E aqui depois ficava a brasa, aquele brasial muito forte, já feito em carvão. A terra que a gente tirava da poça, a gente tinha-a aqui à frente. E depois a gente ajoelhava-se à ponta (...) da poça que estava a arder, do monte da lenha, e com as mãos escolhia aquela terra bem escolhidinha. Alguma pedra que havia aventava para o lado. Ficava só a terra ele sem pedras. INQ Pois. INF1 Conforme aparecia aqui o brasial, conforme o brasial ia aparecendo, a gente nesta terra escolhida ia deitando para de cima da brasa, para de cima da brasa e acalcava. INQ Que era para apagar? INF1 Para apagar. Conforme ia ardendo, a gente ia puxando para cima, ia puxando para cima, ia puxando, ia puxando, até que chegava ao final. Mas a terra aqui à frente, a gente sempre a escolher. Aquilo também era muito sacrifício! A gente com a terra a tapar, tapar daqui... Se ali havia muita pedra que não dava, a gente ia (...) a um buraco cavar um bocado de terra para tapar, (...) se aquela ali não dava. INQ Pois. INF1 A gente ia tapando dum lado, do outro, ia tapando, ia tapando e acalcava bem acalcadinho, até que chegava ao cimo. Ao cimo ficava um caramouço, por exemplo, a arder. Já aquela poça que a gente fez já cheia de carvão, mas a gente, tapar e acalcar (...) para abafar (...) para se não gastar o carvão, a brasa. (...) Chegava ao cimo, ficava um bocadinho. Se havia ali um bocado de lenha mal ardida, para não estar a entreter a outra brasa, a dar prejuízo a queimar... INQ Pois. INF1 Se houvesse, por exemplo, um bocado de lenha mal ardida, a gente pegava na forcalha e aventava-a. Porque estava ali a entreter, a entreter aquilo. INQ Pois. INF1 A gente pegava numa forcalha e botava-a fora, aventava-a. Pegava mais num bocado de terra, aventava ali para de cima, tapava tudo, bem acalcadinho, bem acalcadinho, ficava tapada. Se por acaso se abrisse algum buraco, a gente andava alerta e ia ver. Porque se abrisse algum buraco estava a acender. INF2 Estava a atear. INQ Rhum-rhum. Pois. INF1 Tapávamos tudo, tudo bem acalcadinho, a gente sempre alerta, não se abrisse algum buraco. Lá ficava tudo tapadinho e depois íamos então à frente da poça, então a fazer um terreirozinho, uma rampazinha, a varrer aquilo, com um sacho, ajeitar, (...) aí o espaço talvez aí de metro e meio ou dois metros, assim à frente da poça. INF2 Aí dois metros. INF1 Aquilo bem ajeitadinho com um sacho, como que era a fazer um jardim, aquilo bem rapadinho, e depois pegávamos numa vassoura, varríamos aquele terreirozinho, que era assim um bocadinho encostado. Varríamos aquele terreiro bem varridinho, e tal, que a gente depois conforme: se se atrasasse (...) via o tempo a chegar-se para a gente – tinha aí uma hora de caminho – e trazer o carvão às costas e assim... INQ Mas o c-... Mas podiam trazer o carvão logo a seguir? INF1 Ah, vinha. Ah, nunca lá ficava. INQ Mas não, não ficava muito quente? Não estava muito quente ainda? INF1 Não. Depois enquanto estava a poça bem abafadinha, a gente fazia o terreiro e depois andava ali muito tempo a amorrinhar. Varrer o terreiro, e depois varrer daqui, varrer dalém. A gente levava connosco um sacho, um sachozinho, um sacho qualquer, até mesmo velho, e depois chegava-se a altura de tirar o carvão. Começava então a uma ponta (...) da poça, começava a uma ponta a tirar, assim aqui (...) para a berma, para a berma da poça. INQ Rhum-rhum. INF1 O carvão vinha assim para aqui, a gente, no geral, escolhia sempre um bocadinho elevado, assim por aqui um bocadinho inclinado, que era para o carvão arrebolar. Mas já vinha apagado. A gente tirava com os sachos e deitava-o para aqui. E tinha aqui uma vassoura já preparada para o ir assim abanando, assim a empurrá-lo para baixo, INQ Rhum-rhum. INF1 assim com jeitinho a empurrar para baixo para o gajo ir para o fundo. Às vezes dava-se o caso, acendia-se ali uma fogueira, o gajo a arder, a gente com a vassoura escangalhava-o assim. E, às vezes, se havia água perto, a gente pegava numa latinha que a gente levava e ia buscar uma latinha de água e molhava lá a vassoura e apagava. Se não havia, (...) não o deixava acender. Ia-o abanando para os lados e para o outro e lá se tirava todo da poça. Depois de o tirar todo da poça, a gente andava ali a amorrinhar mais um bocadinho, e tal, tal, tal, pegava nos sacos, pegava ao fundo daquela barreira que a gente fez, abria a boca ao saco e começava a ajeitar para dentro.
UNS42
INF1 Uma vez a um colega meu, acendeu-se-lhe o carvão dentro da saca, INQ Pois. INF1 o gajo com as sacas às costas e o carvão a arder por trás. INQ Que horror! INF1 O Dióscoro Velho. Foi no sítio da corda. Ele ia com aquilo às costas, duas sacas, e o lume lá numa saca. Foi no sítio onde ia a corda, o lume chegou à corda, caiu-lhe aquilo das costas para baixo. INF2 Traçou-lhe, claro. Traçou-lhe a corda. INQ Pois. INF1 E, bem, isto também era com muito sacrifício. Muito sacrifício! Ai! INQ Pois claro. Mas iam várias pessoas fazer o carvão? Não ia só, não ia um homem sozinho? INF2 Ia muita gente. INQ Não, mas podia ir uma pessoa sozinha fazer carvão ou iam dois ou três? INF2 Iam. INF1 Não, cada um... Quando havia... Bem, uma pessoa sozinha podia ir, mas, no geral, sempre havia quem fosse. Se não fossem daqui, ia-se sozinhos e encontrava-se mais no caminho. Nesse tempo não havia fábrica. Encontrava-se mais no caminho e depois lá se juntavam. INQ Rhum-rhum. INF1 Uns para aqui, outros para além, mas logo perto uns dos outros, e tal, e era assim. INF2 Eu ainda vi fazer carvão ao meu pai também. INQ Mas era difícil! INF1 Ai, muito sacrifício! INF2 Eu ia com ele. Ajuntava-lhe as torgas, e tudo. INF3 À minha mãe é que ninguém a apanhava a fazer carvão. INF1 Muito sacrifício, muito! INF3 Ah, e depois foram logo para a fábrica. INQ Pois. INF3 A minha mãe (...) não queria ir para o carvão. INF1 (...) E a brasa, sabem como é? INQ Não. Mas a brasa é muito diferente? INF1 (...) Carvão é carvão e a brasa é diferente. INF2 E a brasa é... INQ Então o que é a brasa? INF1 A brasa é carvão mais miudinho, o carvão mais miudinho. INQ Ah! INF3 Que se queimava antigamente nas braseiras. INF2 Eu até tenho além brasas feitas que me deram. INF1 Por exemplo, quero ir fazer uma saca ou duas de brasas. Ia por aí acima, levava uma roçadoira – como o senhor já aí mostrou num papel –, levava uma roçadoira, levava a corda, dois sacos, um bocadinho de merenda do que havia e lá ia a gente para o destino. Chegava então a um giestal – giestas, giestas pegadas, pegadinhas, que quase que se lá não passa no meio, e muito altas, quase da altura aqui deste tecto –, chegava a gente ali, giesta que fosse grossa: "Bem, aqui serve. Vou ficar". Começava então com a roçadoira – que é esta curva –, começava ali a roçar giestas para o monte, cortar e deitar para trás, cortar e deitar para trás, (...) até me parecer (...) que eu visse as horas (...) para fazer a brasa. INQ Pois. INF1 (...) A brasa é mais depressa que o carvão. INF2 É mais rápido. INF1 Fazia ali um monte de giestas cortadas, grossas – grossas aqui quase como o meu pulso –, outras mais miúdas, e tal, tal, tal. (...) Fazia ali um grande monte e depois chegava-se a altura de lhe deitar o fogo. Era o mesmo processo do carvão, mas ardia mais depressa. INF2 O poço era a mesma coisa. INQ O poço era a mesma coisa? INF1 Era lenha mais miúda. Era lenha mais miúda. Deitava-lhe o fogo, fazia ali uma fogueira enorme, (...) fazia a mesma poça, ou ainda maior, que a brasa fazia-se mais muito. INQ Rhum-rhum. INF1 Fazia ali uma grande poça e era igual. Deitava-lhe a lenha toda (...) que tinha cortado, e deitava tudo ali para dentro... INF3 Olha, está a dar o coiso. INF1 Depois arranjava uma forcalha. A lenha ardia... (...) A lenha era a mais comprida, lenha aí (...) com dois metros, ou um, ou como calhar. INQ Pois. INF1 Deitava tudo para a poça e depois ficava umas pontas que não ardia, que (...) não cabia toda na poça. E depois arranjava uma forcalha, nas pontas que ficavam fora, virava-as para dentro, tudo ardia, da outra ponta igual, ia estando tudo ardido. Isso a brasa era muito mais depressa. Muito mais depressa! INQ Pois. INF2 Mais à pressa . INF1 Era quase em metade do tempo. Depois de tudo ardido, era igual, a tapar, a tapar, a tapar. Mas a giesta ardia mais depressa. Chegava ao cimo, ficava só um bocadinho, e tal. Se houvesse algum bocadinho (...) mais grosso, e tal, para não estar a entreter, deitava-a fora, já não servia. Tapava tudo, fazia o mesmo terreirozinho já varrido, com um sacho, inclinado. INQ Pois. INF1 Tirava a brasa exactamente como o carvão, com um sacho; corria-a com a vassoura ali (...) por o terreiro abaixo; e vendo (...) que tal, metia-lhe o saco ao fundo, ia dentro das sacas: "Ala embora"!
UNS43
INQ1 O senhor só tinha um porco ou tinha mais, em casa? Em casa... INF1 Não, tive uma altura, fui ao mercado e trouxe de lá alguns quatro dentro dum saco. INQ1 Quatro quê? INF1 Quatro leitões. Fui aqui... Nunca ouviram falar no Tortosendo? INQ1 Rhum-rhum. INF1 É antes da Covilhã. INQ2 Rhum-rhum. INQ1 Eu sei. INF1 Fui lá, havia lá umas pessoas que vendiam, trouxe de lá quatro. Fiquei com um, outro vendi-o... O que vendi deu-me para os quatro todos. INQ1 Isso é que é bom negócio! INQ2 Mas cresceram cá em sua casa? INF1 Não. Tive-os cá pouco tempo. Tive-os cá pouco tempo. Fiquei com um... INQ2 Um quê? INF1 Um porco. Fiquei com um para eu criar; dei outro de meias; vendi outro... Não, (...) ai, eu fiquei com dois. Eu fiquei com dois; e dei outro de meias; e outro vendi-o. De meias, quer dizer, dei-o de meias a uma pessoa. Eu comprei, dei-o de meias a uma pessoa; a pessoa criou; no fim de estar criado, (...) quando o quisesse vender, era metade para ela e metade para mim. INQ1 Rhum-rhum. INF2 Ou que o matassem, era a metade para cada um também. INQ2 Pois. INQ1 Mas aqui era normal as pessoas, cada um ter o seu porquito de perto de casa, para, para ter comida? INF3 Era, era. Todos tinham. INF1 Era quem queria. Havia aí quem não tivesse. INQ1 Rhum-rhum. INF1 Havia aí quem não tivesse. INQ2 ... INQ1 Mas o senhor teve? Chegou a ter, como já disse, não é? INF1 (...) Eu tive. E depois nessa altura (...) comprei quatro. Trouxe-os dentro dum saco, do Tortosendo para aqui, ao ombro. INQ2 A pé? INF1 Ao ombro, a pé. Fui eu mais um colega. INF2 E era mais longe que é agora. INQ2 Era mais longe, que a estrada era pior? INF2 (...) Era mais longe. INF1 É como digo: (...) fiquei com dois. INQ1 Com dois quê? INF1 Com dois porcos, dois leitões. Outro vendi-o. Deu quase para os quatro leitões. INF3 Mas um criáramos. INF1 Eu fiquei com dois, e vendi outro à senhora Dora, três. INQ1 Foi um de meias. INF1 E um de meias, quatro. Eu fiquei com dois, e depois o meu filho que Deus tem – que morreu já quase há vinte e cinco anos, o nosso Dirceu –, também ainda era assim garoto, o bácoro, o porco, saiu para a rua aí (...) pela rua acima, ele foi atrás dele, trazia um troço duma couve grande na mão, deu uma trancada ao leitão, partiu-lhe a espinha. INQ2 Com uma couve? INQ1 O troço. INF1 Com um troço duma couve. INQ2 Um troço duma couve. INF1 Era um troço muito grosso. INQ2 Ah! Daqueles já, muito grandes! INF2 Daquelas cortadas, com o toro muito alto. INQ1 Ele era pequenino, não era? INF1 (...) Uma couve aí com algum metro... (...) INQ2 Então, morreu o porco? INF1 Morreu. Morreu porque (...) partiu-lhe a... INQ2 E comeram-no? INF3 Não. INF1 Comi agora! INQ2 Porquê? Não se pode comer? Ah, porque não foi sangrado! INF1 Pois, não foi sangrado. Ainda esteve aí algum tempo para morrer. Aventou-se. Aventou-se. INQ1 Mas quando... Disse que era... O bácoro tinha ido para cima. O que era o bácoro? INF1 O porco andava por aí a fugir, INQ1 Sim. INF1 pelas escadas acima, e o meu filho para o amandar cá para baixo, para ir para a loja, deu-lhe uma trancada (...) com o toro (...) da couve. INQ1 Pois, pois. INF1 Aquilo (...) era fraquinho, partiu-lhe a espinha. INQ1 Pois, mas pareceu-me ouvir o senhor falar num bácoro? INF1 Não. INQ1 Não? Então fui eu que percebi mal. INF1 Ou bácoro ou porco. (...) INQ1 Pois é isso. INF2 Há lugares que chamam bácoro também. INQ1 Mas aqui? INQ2 Mas aqui não se chama bácoro, pois não? Ou chama-se? INF1 Chama. Chama. INQ2 Também se chama bácoro? INF2 Há lugares que chamam. INF1 Chamam. INQ2 Mas o bácoro é quando é pequeno ou quando é grande já? O bácoro é já grande? INF1 Seja como for. Quando é pequeno, leitão. INQ1 Acabado de nascer? INF1 Ah, (...) mesmo com dois ou três meses é leitão. INQ1 E depois, mais... INF3 Quando são grandes são bácoros. INF1 E depois bácoro. Bácoro ou porco.
UNS44
INF1 Deu-me umas dores de cólica. (...) Naturalmente era a apêndice hoje. INQ1 Ah! INF1 Deu-me (...) umas dores muito, muito activas, muito activas! Uma dores que era insuportável! Morava eu naquela casita além. Eu depois desertei, e fugi à rua abaixo, e meti à estrada adiante, e arrebolava aqui, arrebolava além... Umas dores que não aguentava mesmo! Uma coisa assim aqui na virilha! INQ1 Pois, pois. Horrível! INF1 (...) INQ1 Apendicite. INF1 Talvez fosse apêndice ou isso. Ele era umas dores de cólica enorme. Umas dores insuportável! E (...) um irmão meu que já morreu, eu ia a fugir na frente, de noite, ainda era assim muito cedo, já assim ao amanhecer mas ainda era de noite, e o meu irmão sobre mim e eu ia desnorteado de todo, arrebolava aqui, arrebolava além, e depois cheguei além adiante, voltei para trás. Mas o meu irmão andava sempre atrás de mim, sobre mim, a ver o que é que se passava. Onde está o quiosque, já lá foram? Onde tomam café, INQ1 Sim. INF1 ali ao largo, já lá foram? INQ1 Não, ainda não fomos lá, mas já sei onde é que é. INF1 Onde está esse quiosque, eu atravessei aí e meti numa rua que dá para aqui. Meti à rua acima e um senhor que também já morreu e tinha uma tenda e tinha duas mulas (...) para levar ele ... – uma tenda com quinquilharia, miudezas. INQ2 Rhum-rhum. INF1 E o gajo fazia até muitas feiras por lá. E tinha duas mulas na loja. E ele sentiu-me e veio à janela. INF3 Vou buscar um rebuçado. INF3 Lá vai a mãe à casa-de-banho. INF1 Veio à janela e (...) diz esse senhor: "Então, ó Domingos" – para o meu irmão – "Ó Domingos, então o que é que tem o teu irmão"? Ele era Donato. Até era maneta dum braço. INF2 Deixe-se estar que a gente passa. INF3 Deixe-se estar. INF1 Diz-lhe o meu irmão: "Olhe, veja lá, deu-lhe umas dores de cólicas, não sei, ele arrebola-se aí por todo o lado. Dão-lhe um chá de toda a maneira e nada faz bem". Diz o gajo para o meu irmão: "Ó Domingos, olha, eu acendo-te a luz daqui para eu lá não ir, que eu estou descalço, e vais aí à loja, apanhas um cagalhão da mula, desse mais fresco que lá há, dos que fez há pouco tempo". Meu irmão lá foi e apanhou dois cagalhões (...) das mulas, que eram duas. Ou trouxe na palma da mão... INQ1 Diga, diga. INF1 Ou trouxe na palma da mão, ou não sei, e veio para cima. – Há aqui uns mais gordinhos que os outros. INF3 Vá fale, isso está a gravar a cassete. INQ2 São todos iguais! INF1 Lá o trouxe na mão e eu dirigi-me a casa – que morava naquela casita além, que estive lá alguns sessenta anos. Lá trouxe o cagalhão na mão, um ou dois: "Olha, pões uma cafeteira ao lume, cheia de água, e depois metes o cagalhão num paninho branco, um cagalhão dentro dum paninho branco, e atas-lhe uma linha, atas uma linha ao pano para se não escangalhar aquilo". Assim foi. A cafeteira 'pôse-a' ao lume, começou a ferver, pegou (...) naquela mocazinha com o cagalhão lá dentro, mas atado com uma linha para se não escangalhar, meteu dentro da cafeteira. Esteve um bocadinho a ferver... Eu soube o que era mas eu não quis saber, bebi. INF2 Viu-se tão mal. INQ2 Claro. INQ1 Então. INF1 Deitaram-lhe um (...) ... Então eu vi-me muito aflito! Deitaram-lhe um bocadinho de açúcar, bebi. Assentei-me de cima da cama, assim à berma da cama, assentei-me: "Bebe lá esse bocadinho de chá"! Eu sabia o que era, que eu ouvi. Eu bebi, dei ali uma golada ou duas, só parecia azeite. Ficou da cor do azeite. INQ2 Rhum-rhum. INF1 Dei ali umas goladas, apenas cá chegou em baixo: "Brrrr", as tripas. "Brrr, brrr, brrr"! Fez ali uma revolução enorme. Só parecia azeite. (...) Até fiquei agoniado. Mas não me importou. Eu queria era ver se aliviava. INQ2 Rhum-rhum. INF1 Tanta volta, tanta volta, INF3 Começou logo a aliviar. INF1 estava sentado na cama, tombei para trás, peguei no sono, estive lá bastante tempo a dormir. INQ1 E passou-lhe? INF1 Passou-me. Devia ser daquilo. INQ2 Pois. INQ1 Pois. INF1 Ora, se ele me deu aquilo, é porque já tinha experimentado mais. INQ1 Claro.
UNS45
INF1 Esse... INQ1 Eu já tinha ouvido falar era de chá de caganitas de rato. INF1 Também tomei. INQ1 Também? INF1 Também tomei. INQ1 Isso é que eu já tinha ouvido falar. INF1 Também tomei. INF2 E o meu pai (...) já comeu a carne da cobra. INQ1 Também? INF2 Sopa. INF1 Comi. INQ1 Para quê? INF1 Para nada. (...) INQ1 Para provar? INF1 Pois. (...) INF2 Diz que é boa! INF1 Para provar. INF2 Diz que é boa a carne da cobra! INF3 Tiram-lhe uma parte (...) a seguir ao pescoço e a parte do rabo e comem só a parte do meio. INF1 Eu ia buscar... INQ1 Ah! INF1 Eu ia buscar um molho de mato para o forno... INF3 Não, mesmo até, lá de baixo, estiveram algarvios ao pé de mim – não é? –, em Santa Margarida, e comiam-nas. INF1 Eu ia buscar um molho de mato para o forno... INF3 (...) Havia indivíduos que as comiam. Iam lá, tiravam-lhe (...) as partes da frente e comiam as partes de trás. INF2 (...) Deixa lá agora contar ao pai. INF1 E depois... INQ1 Diga lá, o que é que ia fazer? INF1 Fui buscar um molho de mato para o forno para trazer às costas. E já eram aí umas onze... Foi em Maio. Já eram aí umas onze horas e estava calor. INQ1 Onze horas da manhã? INF1 Sim. Perto do meio-dia. Eram aí onze horas. Estava muito calor. Foi em Maio, já estava calor. E fui além para aquele lado. Talvez daqui para lá, aí meia hora de caminho. E naquele sítio, foi onde o Dordio tinha as cabras, aí por cima um bocadinho. INF3 Ainda lá estão. INF1 E digo eu assim cá para comigo: "Bem, aqui há muita cobra e há muito sardão"! Havia lá cada sardão! Cada javardão! Aquilo até metiam nojo! Muito grandes, com aquelas patas grandes!... Naquele sítio havia muita bicharada e muita cobra, que vinha lá do pinhal de cima. E eu ia no caminho, um caminho ainda largo. E digo eu assim: "Bem, aqui já está calor". Porque aquilo, aquela bicharada com o calor saem. Aquela bicharada com o calor é que saem mais. E digo eu assim: "Homem, aqui há muita bicharada, há muito sardão e cobras"... E eu levava a roçadoira como o senhor aí tem, ao ombro, atada à corda. Levava aqui ao ombro e abaixei-me e apanhei uma pedra, mais ou menos da grossura deste copo. "Deixa-me cá apanhar uma pedra. Se vir alguma coisa, sempre lhe avento". Eu sou muito foito, mas ali apanhei um bocadinho susto. Eu a acabar de dizer aquilo e eu ia a passar à frente duma parede com dois metros de alto, ou metro e meio. Havia uma paredezita num pinhal onde faziam esses tais alqueves. E havia uma parede ao lado do caminho, que essa parede fizeram-na (...) para fazer o caminho, que ia o caminho (...) para as centrais, que era o caminho velho antigo. "Aqui há muita bicharada, deixa-me cá apanhar esta pedra; se aparecer alguma coisa hei-de-lhe aventar com ela". Eu a acabar de dizer aquilo, uma cobra. Aquilo lá vinha picada com outro bicho... Que as gajas quando estão enervadas fazem uma rodilha, enroladas. Aquilo lá vinha picada com outro bicho de andarem à bulha... Eu a acabar de dizer aquilo, e aquela grande cobra ia-se-me enfiando na cabeça. Eu disse: "Ena pá"! Por pouco é que não se me enfiou aqui na cabeça. INQ1 Pois. INF1 Caiu da parede para baixo, no chão. E onde ela caiu era um bocadinho do caminho largo e assente, assim um bocadinho direito, um bocado de areia, e tal. A gaja caiu assim ali. Eu sou um bocadinho foito mas arreceei. Arrecuei um bocadinho atrás. Mas ao mesmo tempo que eu arrecuei um bocadinho, e a gaja ficou assim à minha frente enrodilhada e começou-se a desenrodilhar para ir para a parte de baixo do caminho, para o meio das pedras. Quando a gaja se começou a desenrodilhar, eu assim à toa, com a pedra que levava na mão – assim à toa! – aventei-lhe com ela. Então eu não lhe calhei a dar atrás da cabeça, aí dois palmos?! Parti-lhe logo a espinha. Aventei à toa! INQ1 Pois. INQ2 E acertou. INF1 Calhei-lhe logo a dar atrás da cabeça aí dois palmos. Ah, mas aquilo era um balúrdio! Quando lhe dei com a pedra, aquilo parti-lhe a espinha, a gaja dali não abalou. Tombo daqui, tombo dalém, tombo daqui, tombo dalém, e já dali não abalou. E a gaja a acenar para mim: "Vhe-vhe-vhe". Eu cheguei-me atrás mas já não abalou donde estava, aos tombos, mas já não abalou donde estava. INQ2 Rhum-rhum. INF1 E depois peguei noutra pedra maior... INF2 E ela era grossa! INF1 Ai! Peguei noutra pedra maior e aproximei-me um bocadinho, tornei-lhe (...) a aventar, tornei-lhe a dar na cabeça, já a amuganhei mais. Já afrouxou mais. Mas mesmo assim: "Vhe-vhe-vhe"! Foi assim cá de longe. INF2 Ai, se lhe pudesse chegar! INF1 Até que a gaja afrouxou. Depois de já estar assim um bocado frouxa, vou então com o bico da roçadoura, como aí têm no livro, vou então com o bico da roçadoura e dei-lhe assim na cabeça, acabei-lha de esmagar. Tombo daqui – mesmo com a cabeça esmagada –, tombo daqui, tombo dalém, mas dali já não abalou. Ah, mas aquilo era um balúrdio enorme! Vê que a corda tem uma casola. Nunca viu? Não sabe como é? INQ1 Rhum-rhum. INF1 Tem uma casola para a gente apertar o molho. INQ1 Pois. INF1 Uma coisa em madeira, que faz a curva INQ1 Em madeira. INF1 A minha casola tinha... Para a fazer, tinha um arame destes arames da luz, INQ1 Rhum-rhum. INF1 um bocado de fio (...) da luz que eu pus na casola (...) para não fugir dali. Como tinha ali umas três ou quatro voltas de arame, não tinha ali nada (...) com que enfiar na cabeça à cobra, tirei um bocadinho do arame da casola da corda, tirei-lhe ali duas voltas ou três, e fiz um gancho. Fiz um gancho e enfiei-o na cabeça da cobra e dependurei-a num pinheiro. E fui arranjar o molho e depois quando passei para baixo trouxe-a, que era para a verem aqui no povo. Ela era tão pequena que eu trazia assim o molho às costas e ao gancho, enfiei-o assim aqui no molho do mato, num pau, enfiei-o aqui, e a gaja vinha estendida lá para trás. Ela tinha mais de dois metros! INQ1 Pois. INF2 Era. INQ2 Rhum-rhum. INF1 E uma grossura enorme! E depois passei aqui no povo: "Olha o Dimas! Olha que cobra ali leva"! "Olha assim, olha assado"! Tudo a admirar, lá a trouxe. Uma madrinha minha que morava na casa que hoje é da Dília, além naquela casa – mas era a casa mais baixinha –, essa madrinha minha comia-as. Quando lhe davam alguma, cortava-lhe um bocado, dois palmos da cabeça e dois palmos do rabo. E a outra parte, depois tirava-lhe a pele, depois cortava-a aos bocados e cozia-a. É exactamente o cheiro (...) do frango. É exactamente o cheiro do frango e o sabor. INF2 Eu não era capaz de comer! Este comeu. INQ2 Rhum-rhum. Pois. INF1 Tirou-lhe então a pele toda... INQ1 A mim não me faz muita impressão! INF1 Desenfiou-lhe aquele bocado da... INF4 A senhora também comia? INQ1 Acho que era capaz de comer. Não me fazia muita impressão. INF2 Mas sabendo não comia. INF1 O cheiro é exactamente... INQ1 Mesmo se soubesse também acho que era capaz de provar. INF1 O cheiro é exactamente igual. Eu não foi por fome, nem foi por nada. Vi-a... INQ1 Foi para provar! INF1 Vi-a comer a ela: "Também quero experimentar"! É exactamente o frango, a água do frango, a canja. INQ1 Pois. INF1 Comi uma malguinha de canja, bebi uma malguinha de canja, e depois comi um bocado da carne. INQ1 E não lhe fez mal? INF1 Ai, fez agora!
UNS46
INQ1 As caganitas de rato era para quê? O chá da caganita de rato? INF1 Diziam que também fazia bem ao empate, às dores de cólica. INQ1 Ah! INF1 Se calhar, antigamente as dores de cólica deve ser hoje apêndice. INQ1 Não sei, se calhar há vários géneros de, de dores de cólica. Ainda hoje há dores de cólica que não são... INF1 (...) Houve aí pessoas que, com essas dores de cólica, morreram. INQ1 Pois, isso é capaz de ter sido apêndice. INF1 O filho da tia Dores, que casou com a Doroteia do Duarte, a que morreu há poucos dias, esse Dúlio morreu. INF2 Morreu. INF1 Umas dores de cólica e morreu. INQ1 Pois, pode ter sido apendicite. INF1 É dores de cólica, é dores de cólica, é dores de cólica e foi-se embora. Morreu. INF2 Não estava descoberto ainda há a tempo. INQ1 Pois. Ainda não se descobria como é que se tratava. INF1 Bem, mas se fosse apêndice, também não era o chá que ia soldar a tripa. INQ1 Pois não. INQ2 Pois não. INQ1 O apêndice é uma infecção muito grave. INF2 (...) Mas há medicamentos que atrasam. INF1 (...) Ou então foi algum volvo na tripa, INQ1 Sim, sim. INF1 algum nó que a tripa deu... INQ1 Pois. E com aquele chá... INF1 E depois aquilo era uma espécie de azeite. Aquilo era uma espécie de azeite, tão languinhento! (...) E eu soube o que ia tomar. INQ1 Pois. INF1 Já tinha tomado as caganetas dos ratos, e tudo, nada fez bem! Tanto chá eu tomei! (...) Bebi aquele do cagalhão, depois de estar embrulhadinho num pano, risos veio-lhe aquela revolta – "vrr-vrr-vrr" –, ao fim dum bocado, fiquei sossegadinho, tombei para trás, dormi um bocado bom. INQ1 Pois. INF1 Até que passou. Aquilo foi talvez nó numa tripa... INF2 (...) INQ1 Pois, pois. INF1 Ai, umas afrontas que eu ia morrendo!
UNS47
INF Primeiro cava-se a terra e semeia-se; e depois é mondado; e depois é arrancado; ripa-se (...) naquele coisinho... INQ1 Como é que se chama aquilo? INF É um ripeiro. INQ1 Pois, a gente quer mesmo o nome das peças e do trabalho. INF Pois. Ripa-se num ripeiro, que é uma tábua com uns ferrinhos por cima. E depois (...) põe-se aos molhos, mete-se na água, nove noites. Depois é seco ao sol. (...) INQ1 Quanto tempo? INF (...) Pronto, até secar. Na água são nove noites e para secar é até secar. E ao fim é então maçado com umas maças de pau; depois é espadanado numa tasca; e depois é sedado num... (...) A tasca é (...) uma tábua de medronheiro e tem assim um rego e põem-lhe como que é (...) uma lança, assim uma tábua a bater. INQ2 Rhum-rhum. INF E depois é então (...) espadanado num cortiço – depois a gente segura-o assim num cortiço e bate com umas espadana –; e depois então é que é sedado num sedeiro; e depois é fiado. Fazem-se (...) meadas (...) ... INQ2 Sim. Sim, sim. INF É lavado, é corado. Leva muita volta.
UNS48
INQ1 Nunca houve aqui tecedeiras? INF Não. Mandavam-no tecer na Erada. Havia lá muitas tecedeiras na Erada naquele tempo. INQ1 Ah! INF Naquele tempo era na Erada. INQ1 E eram mulheres que teciam? INF Eram mulheres. Sim. INQ1 Rhum-rhum. INF Eram mulheres que teciam. INQ1 Pois, porque ali em Unhais parece que eram homens só. INF Mas na Erada havia mulheres a tecer. INQ1 Rhum-rhum. INF Morreu a mãe e ficaram as filhas. Não sei se ainda hoje lá há alguma mas acho que já não. Mas naquele tempo era. Então tinha eu uns nove anos. Veja lá já aos anos que lá vão. Já há mais de trinta anos que cá não se semeia nada disso. INQ1 Claro. INF Só que eu fiquei, pronto... Sabia fazer aquilo (...) ... INQ1 Claro. INF E é assim. Mas pronto, mais nada. INQ1 Pois. E foi, foi bom a gente ter encontrado... INQ2 Portanto, senhora, eu só queria perguntar... INQ1 Mas andou à escola, andou? A senhora andou à escola ainda? INF Eu andei na escola. INQ1 Até à?... INF Então a escola nessa altura era lá na casa da minha mãe, no andar de baixo. INQ1 Ai, que engraçado! INF Era. A minha mãe tinha dois andares além daquele lado. E o andar de baixo estava arrendado, olhe por uma fortuna: (...) parece que lhe davam cem escudos por ano, (...) cinquenta pelo Natal e cinquenta pelo São João. INQ2 Hi, hi!! INF Ainda era por duas vezes, que era de ser muito! Risos Ainda lho davam por duas vezes! INQ1 Que engraçado! INF Eu ainda além estudei. Os meus filhos é que já foi aqui. INQ1 Mas estudou até à quarta classe? INF Não, eu só fiz a... Eu fiz a terceira classe e já foi de adultos. INQ1 Ah! INQ2 Rhum-rhum. INQ1 Rhum-rhum. INQ2 Ah, já de adultos? INF E já foi nos adultos. INQ2 Sim senhor. INF Que ela não esteve cá na altura que eu lá andava. Quando era para fazer a quarta classe, estivemos cá nove anos sem uma professora. Esteve cá uma senhora de Unhais, uma rapariga nova, e como nessa altura cá não havia nenhuma casa rebocada, disse que tinha medo dos bichos que vinham pelos buracos. Foi-se embora, não quis cá ficar. INQ1 Que engraçado! INF Não sei quem ela era, nem de quem ela pertencia, INQ1 Pois. INF mas sei que era de Unhais. INQ2 ... INF Até é capaz de aí haver quem saiba de quem ela pertencia. INQ1 Claro. Quem é. INF Mas eu não sei. INQ1 E foi-se embora porque tinha medo dos buracos? INF Diz que tinha medo, que os bichos vinham por os buracos. Então a gente era cá criada! INQ1 Claro. INF Então, nessa altura não havia cá nem uma única casa rebocada! INQ1 Claro.
UNS49
INQ E a lousa como é que era? INF1 A lousa era uma poça... Faziam uma poça na terra, com uns pauzitos... INF2 É assim. INF1 Punham lá qualquer comida. INF2 Punha-se aqui é assim ao meio e depois punha-se ali... Era aquilo ao meio e tinha... E depois ao meio tinha aqui um (...) onde é punham o que haviam de comer. (...) INF1 Não, onde punham de comer era no cimo. INF2 Punham assim. Punham assim. Isto era assim. E ele depois conforme ele iam, quando iam para comer, (...) ela disparava para baixo. INQ Caía? INF2 Caía para baixo, ficavam lá entalados. INF1 Ficavam lá na poça. INQ Isso era lousa? INF2 É lousa. INF1 Uma lousa. INQ E esse é para apanhar que bichos? INF2 Apanha sardões também. INF1 Pois ele qualquer (...) espécie (...) de bicho. INF2 'Nasavelhos', então. Também (...) 'nasavelhos', também os apanha. INQ Rhum-rhum. INF1 Qualquer espécie de bicho. INF2 Ratos também os apanha. INQ Ah, mas não é para apanhar pássaros ou assim? INF1 Não. O pássaro é o costil. INF2 O pássaro é o costil. INF1 É o costil, que é mais... INQ Como é que é o costil? INF1 O costil é feito (...) com duas molas. INQ É como o ferro? INF1 Não. É diferente. INF2 É diferente. INF1 Com duas molas de arame... INQ Ah, é aquele que se abre assim? INF1 Pois abre. INQ Depois põe uma... INF1 Abre assim com duas molas dos lados. Tem um bocadinho duma tábua por baixo; a armação (...) do costil está pregado naquela tábua. Uma parte está pregado, está colada. Está pregada (...) na tábua; a outra alevanta para cima e depois tem aqui um aramezinho, põem lá a 'pesquelha', fazem ali uma geringonça, o pássaro vai comer, aquilo chinca. Chinca e fica lá. INQ O que é a 'pesquelha'? INF1 Ou um bocadinho de carne, ou um bocadinho de pão, ou qualquer coisa de comida. INQ Rhã-rhã. INF1 Ou, por exemplo, uma minhoca das da terra. Põem-na ali, ele vão-lhe pegar, truque! INQ Sim senhor.